Parceiro institucional:
Unidade da Evotex em João Pessoa (PB), onde funciona o hub do projeto Guara Circular, que transforma aparas de algodão da Riachuelo em fio novo (Divulgação)
Repórter de ESG
Publicado em 16 de setembro de 2026 às 12h50.
Última atualização em 16 de setembro de 2026 às 16h09.
A varejista de moda Riachuelo anuncia nesta semana o lançamento do primeiro hub de reciclagem têxtil em escala industrial do Nordeste e, com ele, uma coleção de jeans feita com 100% algodão, sendo um quarto dele de fibra reciclada.
O hub fica dentro da própria fábrica Guararapes, em Natal (RN), a maior planta têxtil da América Latina e responsável por cerca de 40% de tudo o que a Riachuelo vende. É ali que as aparas do corte passam por triagem, separadas em três frentes: algodão, malha e jeans.
Dali, o material segue para a Ficamp, em João Pessoa (PB), onde a Evotex realiza a desfibragem e transforma o resíduo em fio novo. O fio volta então para o ecossistema da Guararapes, que o transforma em tecido e, na sequência, em peça pronta para fechar a circularidade.
Batizado de Guara Circular, o projeto levou quase dois anos de desenvolvimento e conta com a parceria da plataforma Cotton Move.
O resultado até agora são 181 toneladas de algodão transformadas em fio novo e o "portfólio mais amplo de fios reciclados disponível no mercado brasileiro", segundo as empresas envolvidas.
Essa é a novidade que chega neste mês de setembro às lojas da Riachuelo em todo o Brasil e também no e-commerce: mais de 41 mil peças, entre calças, bermudas, shorts, macacões e jaquetas.
A coleção integra a linha POOL LOOP, iniciada em 2025 sob o conceito "veste, vai e volta", que já teve uma collab com o estilista Marcelo Sommer e chega agora ao terceiro lançamento.
Para viabilizar a produção em escala comercial, entraram outras tecelagens: o jeans é da mineira Souza e Cambos, a malha vem da malharia da própria Guararapes e da Dalila Têxtil, e os tecidos leves ficam com a Romatex.
++ Leia mais: C&A soma R$ 45,7 milhões ao lucro com ESG e leva moda circular à Avenida Paulista
Para as marcas, a dificuldade técnica não estava em reciclar algodão e sim em reciclar algodão bom o suficiente para virar roupa.
A Ficamp, fiação paraibana fundada há quase trinta anos, já dominava a desfibragem de resíduo têxtil, mas o uso era outro.
"Nosso maior desafio foi aplicar a expertise em reciclagem que tínhamos na Ficamp, que desenvolve fios reciclados mais grossos para a demanda da indústria têxtil que precisa de fios mais finos, limpos e lisos", diz Ana Cecília Albuquerque, sócia-fundadora da Evotex, spin-off criada pela Ficamp especificamente para atender esse mercado.
Foi nesse contexto que a Evotex nasceu para fazer parte do "futuro da moda", conta a executiva.

O desenvolvimento chegou a fios nos títulos 6, 8, 16 e 20 Ne, uma faixa que permite fazer não só jeans, mas malha e tecidos leves. A mistura é meio a meio: 50% fibra reciclada, 50% algodão virgem.
Segundo Taciana Abreu, diretora de Sustentabilidade da Riachuelo, a jornada de pesquisa, testes e desenvolvimento foi longa para alcançarem esse portfólio. "O arranjo deu vida ao primeiro polo de reciclagem têxtil da região", destacou em referência ao lançamento do hub.
Para as marcas, o que diferencia a operação de uma tradicional de compra de fibra reciclada é saber exatamente de onde vem o material e isso se dá pela rastreabilidade da cadeia.
O fluxo começa no corte da Guararapes, que aproveita 85% do tecido que corta. O time da área foi treinado para separar as sobras 100% algodão em três categorias: malha, sarja e jeans. Só então o material segue para desfibragem e fiação na Ficamp, em João Pessoa.
Em 2025, passaram pelo corte da fábrica 9,6 mil toneladas de tecido, das quais 47% eram 100% algodão. A meta da Riachuelo é chegar a reaproveitar mais de 1,2 milhão de quilos de aparas.
++ Leia mais: Jeans com cana-de-açúcar? Como a Riachuelo substituiu o elastano de petróleo no varejo
Do material que entra no processo, 99% é algodão nacional certificado pelo programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR), da Abrapa.
Essa cadeia curta é o que sustenta a a rastreabilidade, um requisito que tende a pesar mais conforme regulações de circularidade avançam nos mercados internacionais.
A articulação entre as pontas ficou com a Cotton Move. José Guilherme Teixeira, fundador da empresa, diz que o projeto é fruto da colaboração, viabilizada pela plataforma que integrou todas as etapas da cadeia produtiva aos princípios de circularidade.
"Temos orgulho em afirmar que esse ciclo não termina na loja, já que as peças poderão ser recicladas, contando com o engajamento dos consumidores em utilizar nossos Pontos de Entrega Voluntária (PEV) no fim do ciclo de uso", afirma o CEO.
São mais de 247 pontos de coleta nas lojas físicas da Riachuelo. O que é recolhido vai para a Retalhar, que faz a triagem: peças em boas condições são doadas à Liga Solidária, com renda revertida a projetos sociais; as 100% algodão são desfibradas e voltam à indústria e o que não serve para doação nem reciclagem é convertido em energia limpa.