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Cidade-esponja na China: projeto usa áreas verdes e sistemas naturais de drenagem para absorver a água da chuva e reduzir o risco de enchentes (Turenscape/Divulgação)
Publicado em 15 de setembro de 2026 às 17h57.
Última atualização em 15 de setembro de 2026 às 18h58.
*Por Laura Trajber Waisbich, do Instituto Igarapé
O mundo se prepara para enfrentar um El Niño que pode estar entre os mais intensos das últimas décadas.
No Brasil, são esperadas chuvas mais fortes e com volumes acima da média e longos períodos de seca e temperaturas altas, o que pode ampliar as ondas de calor e os incêndios florestais.
O fenômeno também pode impactar na produção de alimentos, aumentando os preços e gerando perdas econômicas para setores da sociedade.
O El Niño não pode ser evitado, mas seus impactos dependem da capacidade de resiliência e adaptação de cada lugar.
Entre 1985 e 2025, a parcela do território brasileiro coberta por vegetação nativa caiu de 79% para 65%, segundo o MapBiomas, enquanto a área ocupada pela agropecuária avançou de 18% para 32%.
As consequências podem ser graves, uma vez que a perda de vegetação reduz a capacidade dos territórios de regular a água, proteger o solo e responder a temperaturas extremas, aumentando sua exposição a secas, enchentes e incêndios.
Preparar o país para situações como essa requer medidas imediatas de adaptação, mas também políticas duradouras de restauração, planejamento rural e urbano, proteção de ecossistemas e transformação dos sistemas produtivos.
Parte da inspiração para essas soluções pode vir de outros países em desenvolvimento, incluindo os países que formam o bloco dos BRICS, que, em meio a contradições e desafios, têm realizado muitos avanços nas respostas às crises climática e de perda de biodiversidade.
Um novo estudo do Instituto Igarapé mostrou que muitos dos países do grupo desenvolveram nos últimos anos inúmeras soluções climáticas baseadas na natureza e iniciativas de bioeconomia.
A China incorporou sistemas naturais de drenagem à infraestrutura urbana; a África do Sul associou a recuperação de rios e paisagens à geração de empregos; Índia e Etiópia aproximaram restauração, agricultura e participação comunitária; Indonésia e Emirados investiram na proteção de manguezais; e o Egito avançou na agricultura adaptada à escassez de água.
O Brasil também tem muito a oferecer. O país acumulou conhecimentos em monitoramento por satélite, controle do desmatamento, sistemas agroflorestais e restauração de ecossistemas tropicais.
Essa experiência pode sustentar um diálogo qualificado e parcerias econômicas com países do grupo que também têm iniciativas nestas áreas, como a China, África do Sul, Índia e Etiópia.
Podemos aprender com a escala chinesa, os programas sul-africanos de empregos verdes ambiental e a participação comunitária indiana e etíope, ao mesmo tempo que compartilhamos nossos avanços.
O panorama de iniciativas mapeadas mostra não apenas inovações e experiências exitosas, mas também escolhas e riscos. Por exemplo: projetos de reflorestamento pouco adequados às condições locais podem comprometer a biodiversidade e a disponibilidade de água, enquanto a expansão de biocombustíveis pode disputar terras com a produção de alimentos.
Conhecer essas experiências pode ser muito útil para comparar resultados, aprender com acertos e erros e adaptar soluções a cada realidade.
Parte dessa cooperação já existe, mas permanece fragmentada e abaixo de seu potencial. Os BRICS possuem fóruns nos quais políticas, tecnologias e resultados podem ser compartilhados, enquanto o Novo Banco de Desenvolvimento pode aumentar o financiamento a projetos de restauração, agricultura resiliente, infraestrutura verde e proteção de ecossistemas.
O aprofundamento da cooperação setorial nos BRICS em temas de clima e natureza não ignora as contradições do grupo: vários dos países do grupo continuam dependentes de combustíveis fósseis e enfrentam problemas como altas taxas de desmatamento, conflitos pelo uso da terra, desigualdade e dificuldades de implementação.
Ao contrário, é um uso pragmático do grupo como plataforma para compartilhar soluções e alavancar recursos necessários para acelerar a transição climática e ecológica no Brasil e ao redor do mundo.
Fenômenos como o El Niño exigem resposta imediata, mas seus possíveis impactos também apontam para a necessidade de investir continuamente em adaptação, restauração, planejamento rural e urbano, proteção de ecossistemas e sistemas produtivos mais resilientes.
O aprendizado com outros países que também estão testando respostas e soluções pode tornar esses processos mais ágeis e efetivos.
Ao compartilhar conhecimentos, tecnologias, acertos e erros, os países dos BRICS podem fortalecer sua capacidade de proteger populações e territórios diante de riscos climáticos cada vez mais intensos.
*Laura Trajber Waisbich é diretora adjunta de Pesquisa do Instituto Igarapé