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Jeans com cana-de-açúcar? Como a Riachuelo substituiu o elastano de petróleo no varejo

Inovação reduz em até 55% as emissões de carbono em relação aos materiais tradicionais: "O futuro da moda começa na fibra", diz diretora de sustentabilidade à EXAME

Taciana Abreu, diretora de sustentabilidade da Riachuelo: "A escala pode gerar mais impacto positivo ou negativo. Estamos aprendendo a usá-la a nosso favor" (Pedro Henrique Cardoso / Divulgação)

Taciana Abreu, diretora de sustentabilidade da Riachuelo: "A escala pode gerar mais impacto positivo ou negativo. Estamos aprendendo a usá-la a nosso favor" (Pedro Henrique Cardoso / Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 26 de março de 2026 às 19h00.

Última atualização em 26 de março de 2026 às 19h10.

Em um setor em que quase 90% das emissões estão ligadas aos materiais e tecidos, a Riachuelo entendeu que a grande inovação da indústria têxtil está na fibra.

E foi exatamente aí que a gigante varejista foi buscar sua mais recente aposta: o primeiro jeans brasileiro com elastano feito de cana-de-açúcar, substituindo o petróleo por biomassa renovável.

"O futuro da moda começa na fibra", destaca Taciana Abreu, diretora de sustentabilidade da Riachuelo, em entrevista à EXAME. A ideia resume uma virada de chave na forma como a companhia do Brasil pensa a sustentabilidade: quanto de água, energia e carbono um tecido vai consumir antes mesmo de virar roupa e onde é possível escalar com impacto positivo? 

A nova coleção se chama "POOL LOOP" e chega ao mercado em cinco modelos: duas calças femininas, duas masculinas e uma jaqueta, somando mais de 10 mil peças em 97 lojas e no e-commerce da marca a partir de 30 de março.

As fibras têxteis se dividem em três grandes grupos: as naturais, como algodão e linho; as celulósicas, como a viscose, extraídas da madeira; e as sintéticas, como poliéster e elastano, derivadas do combustível fóssil poluente.

O grande nó da questão é que o brasileiro não abre mão do jeans com elastano: leve, confortável e com caimento ajustado ao corpo.

"Entendemos que não era preciso lutar contra o comportamento do consumidor e sim encontrar um menos impactante", afirma Taciana. Com a missão de democratizar a moda, a Riachuello decidiu resolver essa equação.

Em parceria com a CREORA, referência global na produção de elastano, a empresa chegou a uma fibra composta por até 98% de biomassa proveniente da cana-de-açúcar.

O resultado é uma redução de até 55% nas emissões de carbono e 50% no consumo de água em relação ao material convencional, já na produção da fibra.

Outra inovação é que o jeans incorpora viscose com 20% de resíduos de algodão reciclado e acaba de se tornar o primeiro com perfil circular disponível no mercado brasileiro.

O tecido final, produzido pela Canatiba Textil, combina algodão (86%), viscose (13%) e elastano (1%). Além disso, a parceira opera com caldeira movida a energia renovável e reaproveita 40% da água no processo produtivo, reduzindo ainda mais a pegada de carbono da operação.

Jeans da Riachuello

Visando incentivar o consumo consciente, cada peça conta com rastreabilidade completa via QR code e permite que o consumidor acompanhe toda a cadeia produtiva da fibra à loja.

O Brasil exporta algodão e importa o fio

Por trás do lançamento há um potencial ainda inexplorado da indústria têxtil nacional: o Brasil é o 3º país do mundo na produção de algodão, mas exporta para a China e importa o fio de volta.

A realidade expõe um gargalo estrutural: o país produz a matéria-prima, mas não transforma no território. A cadeia de beneficiamento (fiação, tecelagem, acabamento) foi sendo terceirizada para a Ásia ao longo de décadas, esvaziando a produção nacional.

Segundo Taciana, essa dependência tem custo ambiental e econômico e é justamente aí que a escala de uma varejista pode ser uma alavanca.

"A escala pode gerar mais impacto positivo ou negativo. Estamos aprendendo a usá-la a nosso favor", diz.

No horizonte, há outras apostas em curso. O cânhamo, planta da família da cannabis com alto potencial industrial e baixíssimo teor de THC, é apontado pela diretora como uma das próximas fronteiras promissoras para a moda brasileira.

A regulação ainda tramita no país e ela acredita que em ano de eleições, "não devem tocar nesse assunto."

Mas a expectativa do setor é que a aprovação venha em breve, abrindo caminho para uma fibra que já é utilizada em outros países e se adapta bem ao clima brasileiro, além de ser uma alternativa sustentável. 

Moda mais acessível e sustentável

O novo lançamento ganha força dentro do propósito da marca de ser acessível: o jeans chega ao consumidor por R$ 179, em um segmento em que fibras mais sustentáveis costumam encarecer significativamente o produto final.

"Da fibra ao varejo para chegar num preço democrático", sintetiza Taciana para descrever o esforço conjunto de toda a cadeia para absorver o custo da inovação sem repassá-lo integralmente ao consumidor.

O projeto faz parte de uma estratégia mais ampla iniciada em 2025, quando a Riachuelo lançou sua maior coleção circular com 25% de algodão reciclado. O novo jeans é um passo adiante — e, segundo a executiva, está longe de ser o último. "Vamos continuar rompendo os desafios juntos, trazendo parceiros para perto e aprendendo enquanto negócio", garante.

O recado é para engajar todo o setor tanto quanto o consumidor. Afinal, a moda é o segundo setor mais poluente do mundo e a transição para uma indústria menos dependente do petróleo e de baixo carbono está em uma jornada longe de terminar.

"O algodão é um tesouro nacional. Se somos top 3 no mundo, devíamos transformar tudo aqui e não exportar para a China e importar o fio", afirma Taciana.

O jeans de cana-de-açúcar é um passo, a grande agenda do setor é como fortalecer a transformação nacional. "É o movimento constante de acreditar nas soluções e investir enquanto cadeia", conclui a executiva. 

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