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El Niño: Manaus usa drones, monitora qualidade do ar e combate queimadas em prevenção

Plano municipal prevê ações preventivas antes do período crítico de navegação nos rios e amplia estrutura de alertas para a população

Medidas incluem campanha de conscientização, acompanhamento hidroclimático e preparação logística para comunidades ribeirinhas (Prefeitura de Manaus/Divulgação)

Medidas incluem campanha de conscientização, acompanhamento hidroclimático e preparação logística para comunidades ribeirinhas (Prefeitura de Manaus/Divulgação)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 16 de julho de 2026 às 13h41.

Última atualização em 16 de julho de 2026 às 13h48.

A Prefeitura de Manaus já prepara uma ofensiva de prevenção contra os efeitos esperados do El Niño na Amazônia, combinando monitoramento tecnológico, campanhas de prevenção às queimadas e planejamento para reduzir os impactos da estiagem sobre a população.

A estratégia, divulgada com exclusividade para a EXAME, está sendo colocada em prática ao longo do mês de julho, antes do período mais crítico da seca, quando a redução do nível dos rios costuma comprometer a navegação e o abastecimento de comunidades ribeirinhas.

Entre as medidas anunciadas está o início da campanha "Queimada é Crime", voltada à conscientização de moradores e produtores rurais sobre a prevenção de incêndios.

Paralelamente, dois drones equipados com sensores térmicos passarão a monitorar áreas da cidade para identificar focos de calor e apoiar a emissão de alertas quando a qualidade do ar atingir níveis considerados críticos.

Mão esquerda segura um monitor portátil ou controlador robusto, que exibe um mapa colorido de monitoramento térmico por satélite, com áreas em verde, amarelo e vermelho.

El Niño: Prefeitura de Manaus se antecipa ao evento climático a partir da análise de possíveis focos de queimadas (Prefeitura de Manaus/Divulgação)

Embora os dados do INPE, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, indiquem maior concentração de incêndios florestais em municípios vizinhos, a administração municipal aponta as queimadas urbanas como um dos principais desafios locais.

El Niño e impacto na Amazônia

O movimento ocorre em um momento de aumento das preocupações com o fenômeno climático. A NOAA, Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, confirmou que o El Niño já está estabelecido e estima 63% de probabilidade de que ele atinja intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, o que o colocaria entre os eventos mais intensos registrados desde 1950.

Modelos do Centro Europeu para Previsões Climáticas indicam aquecimento superior a 3°C nas águas do Oceano Pacífico, cenário associado a menos chuvas, temperaturas elevadas e redução dos níveis dos rios na Amazônia.

Como complemento às ações preventivas, a prefeitura pretende estabelecer regras para a atuação de caminhões-pipa em áreas de vegetação densa consideradas mais suscetíveis ao surgimento de incêndios. A proposta é manter esses locais umedecidos para reduzir o risco de propagação do fogo.

Trabalhador de costas, vestindo uniforme azul e verde, direciona um forte jato de água para o alto com uma mangueira para regar árvores em uma área verde, sob um céu azul ensolarado.

Prevenção ao clima extremo: prefeitura de Manaus combate o foco de incêndios (Prefeitura de Manaus/Divulgação)

O monitoramento também será apoiado pelo aplicativo SELVA, desenvolvido em parceria entre a Defesa Civil Municipal e a UEA, Universidade do Estado do Amazonas. A plataforma mede a concentração de material particulado, como fumaça e poeira, e envia alertas em tempo real sobre queimadas em toda a região.

As equipes municipais também utilizam previsões hidroclimáticas elaboradas pelo Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre da UEA. Os boletins servem de apoio ao acompanhamento das condições meteorológicas e hidrológicas e subsidiam decisões relacionadas ao planejamento das ações preventivas e à emissão de alertas à população.

Grupo de pessoas caminha por uma margem de areia à beira da água, ao lado de uma fileira de cones de sinalização laranjas, com vegetação e morros ao fundo sob um céu claro.

El Niño: Prefeitura de Manaus distribui cestas básicas, água potável e kits de higiene para apoiar ribeirinhos durante a seca extrema (Prefeitura de Manaus/Divulgação)

Operação estiagem será antecipada

A preparação para o novo período de seca se apoia na experiência da Operação Estiagem realizada em 2024. Na ocasião, a prefeitura antecipou o envio de suprimentos às comunidades ribeirinhas antes que a navegação se tornasse inviável.

Segundo a administração municipal, a operação chegou a 55 comunidades ao longo do rio Negro, acima da meta inicial de 43. Foram distribuídas mais de 6.190 cestas básicas, 61,9 mil litros de água potável e 6.190 kits de higiene. Produtores rurais receberam bombas d'água, mangueiras de 100 metros e filtros com capacidade para produzir até 10 mil litros de água potável por dia.

As ações ocorreram após um período considerado histórico para o estado. Entre 2023 e 2024, o Amazonas registrou a maior estiagem de sua história recente. O rio Negro atingiu o menor nível em mais de um século, cerca de 750 mil pessoas foram afetadas e todos os municípios amazonenses decretaram situação de emergência.

Monitoramento e integração entre órgãos

Ainda neste mês, a prefeitura pretende lançar o Plano de Contingência 2026-2028, elaborado de forma integrada entre diferentes secretarias municipais. O documento prevê monitoramento contínuo do rio Negro por sensores em tempo real, uso de previsões hidroclimáticas integradas a dados do SIPAM, Sistema de Proteção da Amazônia, e da CPRM, Serviço Geológico do Brasil, além da divulgação de alertas por SMS, redes sociais, rádio e televisão.

A estrutura será reforçada pelo Núcleo de Monitoramento Atmosférico e Emissão de Alertas (Numadec), responsável pelo acompanhamento das condições meteorológicas com base em dados científicos e tecnologia de monitoramento para apoiar a emissão antecipada de alertas e a tomada de decisões.

Totem em uma calçada arborizada exibe um cartaz de campanha com fundo vermelho e letras garrafais brancas onde se lê 'QUEIMADA É CRIME!'.

Combate às queimadas: ações de prevenção ao clima extremo no El Niño pela Prefeitura de Manaus (Prefeitura de Manaus/Divulgação)

"O que preocupa não é só o clima. É o impacto disso na vida das pessoas. Quando o rio baixa demais, quem sofre primeiro é a população mais vulnerável, principalmente quem mora nas periferias e nas áreas ribeirinhas. Por isso, a Prefeitura age de forma antecipada, com planejamento e ações preventivas, para proteger a população e reduzir ao máximo os impactos da estiagem", afirma o prefeito Renato Júnior (Avante).

A preparação de Manaus ocorre em um contexto mais amplo de preocupação com os efeitos do El Niño no país. Enquanto as previsões apontam chuvas acima da média para parte do Centro-Sul, Norte e Nordeste devem enfrentar condições mais favoráveis à seca.

Em maio, o ministro do STF Flávio Dino determinou que os governos federal e estaduais apresentassem planos de preparação para o fenômeno. Pesquisas da Universidade Federal de Santa Catarina, também destacam que medidas preventivas tendem a custar menos do que os impactos econômicos provocados por eventos climáticos extremos, que podem se estender por até cinco anos após sua ocorrência.

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