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Energia elétrica: consumidor passa a gerar, armazenar e responder a sinais de preço.
Colunista
Publicado em 11 de junho de 2026 às 14h30.
Historicamente, o consumidor de energia elétrica sempre foi tratado como um agente passivo, que apenas pagava sua conta de luz. A energia era gerada em uma grande usina, percorria centenas de quilômetros de linhas de transmissão, chegava pela rede de distribuição e acendia a luz na sua casa ou movia a máquina na sua fábrica. O consumidor era apenas o destino final, mas atualmente essa resposta deixou de ser tão simples.
Hoje, o Brasil já tem mais de 47 gigawatts de geração distribuída instalada, sendo a segunda maior fonte de geração do país. Esse número não surgiu da noite para o dia, ele emergiu de milhões de decisões individuais de consumidores que perceberam que podiam gerar sua própria energia de forma economicamente vantajosa, impulsionada por vultosos subsídios.
Podemos não gostar da forma com que estes incentivos foram desenhados, entender que eles distorceram o sinal de preço, com reflexos negativos sobre a eficiência econômica e alocativa do setor elétrico. Mas, é inegável que o mercado e o consumidor agiram rapidamente para aproveitar a oportunidade criada por esta regulação.
O setor elétrico que podemos construir agora é aquele em que o consumidor não é mais apenas o destino da energia. Ele passa a ser um dos seus protagonistas, respondendo a sinais de preço adequadamente calibrados. Um agente ativo que desloca seu consumo para horários de menor custo, gera, armazena e contribui para o equilíbrio do sistema. Ao fazer isso, ele ajuda a tornar a energia mais limpa e mais barata para todos.
Para isso, precisamos construir as condições que habilitem este processo. O primeiro tema é a medição inteligente, essencial para que o consumidor visualize custos em tempo real e responda a tarifas dinâmicas, evitando o superdimensionamento do sistema; o segundo trata da necessidade de redes bidirecionais e digitais, que transformem distribuidoras em gestoras de um ecossistema com energia solar, baterias e carros elétricos; e o terceiro foca na competitividade, alertando que a demanda crescente até 2050 só será suprida se reduzirmos drasticamente os R$ 60 bilhões em subsídios anuais que encarecem a energia e distorcem os sinais de preço para a indústria e para os demais consumidores.
O setor elétrico brasileiro possui vantagens que poucos países no mundo têm: energia limpa que já é competitiva, uma rede interligada que cobre 99% da população e um mercado consumidor com enorme potencial de crescimento. O que nos falta não é recurso, mas a coragem de fazer as escolhas certas.
Para isso, é importante modernizar as redes para que sejam resilientes, digitais e bidirecionais. ampliar a medição inteligente em escala, reformar a estrutura tarifária para eliminar distorções e criar sinais de preço eficientes. E, sobretudo, colocar o consumidor no centro dessa transformação, respeitando suas especificidades, num país continental e profundamente desigual.