Parceiro institucional:
No Brasil, cada dólar aplicado gera retorno mediano de US$ 4,5, abaixo da média global, em um cenário de maior pressão sobre receita e operações (Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 22 de julho de 2026 às 13h59.
A agenda climática começa a aparecer com mais clareza nas planilhas das empresas. Desde 2024, companhias de médio e grande porte economizaram entre US$ 80 bilhões e US$ 94 bilhões com iniciativas de descarbonização, segundo o relatório Disclosure Dividend 2026, do CDP, organização internacional que reúne dados ambientais corporativos.
Os números mostram que parte dos investimentos ambientais deixou de ser tratada apenas como custo de adequação. Em alguns casos, a redução de emissões passou a produzir ganhos diretos de eficiência, com impacto sobre despesas de energia, matérias-primas, combustíveis e descarte de resíduos.
O levantamento foi elaborado a partir de informações reportadas em 2025 por mais de 11,2 mil empresas, que representam cerca de dois terços da capitalização do mercado global.
Entre as medidas com melhor desempenho financeiro estão a redução de resíduos e o reaproveitamento de materiais. Para cada dólar investido nessas iniciativas, a economia média chega a US$ 3,9. O retorno ocorre em pouco mais de um ano.
Projetos de eficiência energética também aparecem entre os investimentos de maior retorno, com média de US$ 3,6 economizados para cada dólar aplicado.
A lógica financeira por trás desses resultados é direta. Ao consumir menos energia, combustível e matéria-prima, as empresas reduzem custos operacionais. Ao reaproveitar materiais e diminuir a geração de resíduos, também cortam despesas com descarte.
Há ainda um segundo efeito, menos imediato, mas cada vez mais relevante: a redução da exposição a custos futuros da transição para uma economia de baixo carbono. Entram nessa conta possíveis cobranças sobre emissões, adequações regulatórias e perda de competitividade de ativos em setores mais pressionados pela descarbonização.
Embora todos os países analisados apresentem retorno positivo sobre investimentos ambientais, os resultados variam de forma significativa. A mediana global é de US$ 10 para cada dólar investido. No Brasil, o retorno mediano é de US$ 4,5.
Na China, esse valor chega a US$ 11. No Japão, a US$ 9. Entre os países europeus citados pelo levantamento, o Reino Unido registra retorno de US$ 10, seguido por França, com US$ 8, e Alemanha, com US$ 7.
A diferença sugere que os ganhos não dependem apenas do volume investido. Segundo o CDP, fatores como estrutura econômica e maturidade das estratégias ambientais ajudam a explicar por que empresas de alguns países conseguem extrair mais valor financeiro de iniciativas climáticas.
No caso brasileiro, o retorno permanece positivo, mas abaixo da mediana global e dos principais mercados asiáticos e europeus apresentados no estudo.
O relatório amplia a análise para além da redução de emissões. Investimentos em adaptação, medidas voltadas a diminuir a vulnerabilidade a eventos climáticos, também geram retorno financeiro.
Em média, cada dólar aplicado para reduzir riscos físicos pode gerar até US$ 10 em benefícios. Esses riscos incluem secas, enchentes, ondas de calor e outros eventos capazes de interromper operações e cadeias de suprimento.
No setor financeiro, o retorno pode chegar a US$ 64 para cada dólar investido.
Esse resultado reforça uma mudança na forma como as empresas avaliam a crise climática. O tema deixa de aparecer apenas como uma pressão ambiental ou regulatória e passa a afetar variáveis centrais do negócio, como continuidade operacional, receita e acesso a ativos.
A percepção corporativa sobre os impactos ambientais mudou nos últimos anos. Em 2018, 46% das empresas identificavam riscos relevantes ligados ao meio ambiente. Em 2025, esse percentual chegou a 80%.
O avanço também aparece na capacidade de traduzir risco climático em impacto financeiro. Sete em cada dez companhias já conseguem relacionar essas ameaças a indicadores econômicos.
A receita é o item apontado com maior frequência como vulnerável. Isso indica que as mudanças climáticas começaram a ser incorporadas ao planejamento estratégico não apenas como uma questão de conformidade, mas como um fator que pode comprometer vendas, produção e desempenho financeiro.
Há quatro vezes mais empresas analisando riscos para os próximos dois anos do que para períodos de até 25 anos. Na prática, as organizações avançaram na identificação dos impactos mais próximos, mas continuam com menor capacidade de avaliar efeitos que podem se acumular ao longo do tempo.
A lacuna é relevante porque o custo potencial da inação é maior do que os ganhos já contabilizados.
Segundo o CDP, as empresas podem acumular perdas de cerca de US$ 1,24 trilhão até 2030 caso não avancem na gestão de riscos ligados ao clima, à água e às florestas. Até 2040, o valor pode chegar a US$ 1,77 trilhão.