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Como agenda de risco climático mudou perfil de executivos no Brasil e no mundo

Transformação global força lideranças de ESG a dominarem linguagem financeira para dialogar com CFOs e conselhos

Lideranças ESG: executivos generalistas perdem espaço para perfis técnicos capazes de traduzir riscos climáticos em impactos financeiros mensuráveis. (Freepik)

Lideranças ESG: executivos generalistas perdem espaço para perfis técnicos capazes de traduzir riscos climáticos em impactos financeiros mensuráveis. (Freepik)

Lia Rizzo
Lia Rizzo

Editora ESG

Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 15h51.

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A volta de Donald Trump à Casa Branca em janeiro de 2025 trouxe consigo um desmonte sistemático das políticas climáticas nos Estados Unidos.

O governo federal cancelou US$ 13 bilhões em projetos de energia renovável, eliminou subsídios para veículos elétricos e saiu formalmente do Acordo de Paris. O temor inicial era de um efeito cascata global que poderia paralisar décadas de avanços conquistados.

Doze meses mais tarde, o cenário que se revelou pode ser classificado como paradoxal. Embora a hostilidade da maior economia do mundo tenha causado impactos significativos - os investimentos em renováveis despencaram 36% - a sustentabilidade corporativa não apenas sobreviveu, mas encontrou novos caminhos de resiliência.

Como consequência direta, os Chief Sustainability Officers (CSOs) e lideranças de áreas de sustentabilidade estão no epicentro dessa transformação.

Uma metamorfose forçada

O novo contexto político praticamente impôs uma reviravolta radical no perfil e nas atribuições dos executivos de sustentabilidade.

No Brasil e no mundo, empresas passaram a demandar informações financeiras precisas e auditáveis sobre seus planos climáticos, abandonando a era das narrativas "inspiradoras" e de relatórios focados mais em reputação externa do que em gestão efetiva

Uma análise do Financial Times com mais de 220 empresas americanas que possuíam CSOs no início de 2025 endossa esse movimento. Líderes mais generalistas, que atuavam somente como articuladores estratégicos ou porta-vozes da agenda ESG, tornaram-se vulneráveis.

Conforme o levantamento, aqueles sem capacidade técnica para produzir métricas detalhadas e dados financeiros concretos foram dispensados, enquanto suas equipes foram absorvidas por departamentos de finanças, auditoria, compliance e relações com investidores.

Os números evidenciam essa virada estrutural. Desde 2023, a proporção de CSOs nas companhias analisadas que passaram a se reportar à área jurídica dobrou, saltando de 10% para 21%.

Muitos possuem formação jurídica e experiência anterior como conselheiros gerais, refletindo a crescente judicialização e os riscos de litígio associados às declarações corporativas sobre clima.

Nos Estados Unidos, foram as instituições financeiras pressionadas por estados republicanos devido a políticas de restrição de financiamento para empresas de combustíveis fósseis que lideraram os ajustes.

Por exemplo, a Wells Fargo deixou a posição de CSO  aberta por oito meses antes de, então, optar por criar um cargo rebaixado de chefe de sustentabilidade. Já o HSBC removeu o CSO do nível de conselho, enquanto o Standard Chartered reduziu em mais de um terço esta área.

Mudança, mas também sobrevivência

Parte da explicação para essas mudanças está justamente na resiliência da agenda ESG. Grande parte das decisões sobre emissões não está concentrada nas mãos do governo federal americano, mas distribuída entre diversos atores - estados, municípios, empresas e investidores.

Para ilustrar o cenário, Guarany Osório, coordenador do Programa Política e Economia Ambiental do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV, compara a situação a um transatlântico que mantém sua rota apesar de enfrentar ventos contrários que reduzem temporariamente sua velocidade.

Nos próprios Estados Unidos, Califórnia e Nova York mantiveram mercados de carbono próprios, E na COP30 em Belém, uma das maiores delegações presentes foi justamente a americana. Embora não oficial, a equipe reunia governadores, prefeitos, executivos e organizações da sociedade civil.

Já globalmente, outras economias aceleraram. A União Europeia reafirmou o Green Deal, que prevê neutralidade carbônica até 2050. A China seguiu com sua meta de zerar emissões líquidas até 2060. E o Japão comprometeu-se com um corte de 73% até 2040, enquanto Brasil e Índia mantiveram suas promessas de neutralidade até 2050 e 2070, respectivamente.

A explicação mais profunda, contudo, reside na materialidade econômica que se consolidou de forma independente das decisões governamentais.

Muitas multinacionais já incorporaram riscos climáticos em suas decisões operacionais e financeiras por necessidade fiduciária e gestão de riscos.

O custo real das mudanças climáticas, mensurados a partir das consequências de eventos extremos, disrupções na cadeia de suprimentos e escassez de recursos, tornou-se tangível demais para ser ignorado.

A viabilidade econômica das tecnologias limpas também reforça essa lógica. Dados da Universidade de Oxford mostram que os custos de energia solar caíram 88% desde 2009, enquanto baterias para armazenamento de energia reduziram 97% em três décadas.

A cada duplicação da capacidade instalada, os preços caem 20%, um processo que se retroalimenta sem necessidade de subsídios governamentais.

Adicionalmente, como observa Osório, as corporações também operam com horizontes de planejamento que transcendem ciclos políticos."Enquanto um governo dura quatro anos, as empresas estruturam suas estratégias olhando décadas à frente", diz o especialista.

Deste modo, o risco climático impacta diretamente balanços financeiros, operações e valor de mercado.

O novo CSO: técnico, integrado e financeiro

A tendência de "double-badging", que consiste em acumular responsabilidades de sustentabilidade com outras funções executivas, tornou-se mais comum - e para além da área ESG.

Em alguns casos, essas atribuições foram agregadas aos cargos de Chief Strategy Officer ou Chief Operating Officer (COO), sinalizando que riscos ambientais subiram na hierarquia estratégica mesmo quando a função específica do chefe de sustentabilidade perdeu alguma visibilidade.

Contudo, ainda se diferenciam (ou se diferenciarão) os profissionais que combinam expertise técnica em métricas ambientais com fluência financeira e capacidade de traduzir riscos climáticos em linguagem que CFOs e conselhos compreendam imediatamente.

Casos emblemáticos ilustram essa reconfiguração. A Nvidia recrutou Josh Parker, que vinha da Western Digital onde atuava como conselheiro geral assistente com formação em direito de propriedade intelectual e engenharia.

A Unilever fundiu o cargo de CSO com o de chefe de assuntos corporativos. O UBS transferiu a função para um executivo que também atua como historiador corporativo da instituição. Em síntese, este movimento não representa necessariamente um rebaixamento da agenda ESG, mas sim sua integração mais profunda nas operações centrais das empresas.

Outra pesquisa, agora com membros da Chapter Zero, rede de conselhos focada em clima que inclui presidentes e conselheiros não-executivos de empresas britânicas do Financial Times Stock Exchange 100 (FTSE 100), mostra que cerca de três quartos dos conselhos ainda enxergam sustentabilidade como motor de inovação e crescimento, parte essencial da estratégia de negócios, embora falem menos publicamente sobre o tema.

Para os CSOs, portanto, a reinvenção imposta por essa agenda agora emancipada pode ser desconfortável, mas também representa uma maturação.

Sai de cena o evangelizador corporativo que vendia visões inspiradoras de futuro sustentável, para dar protagonismo ao especialista técnico que desenha estratégias operacionais e que dialoga em pé de igualdade com CFOs e auditores.

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