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André Corrêa do Lago, presidente da COP30: "O setor privado é quem mantém viva a agenda climática, independentemente das eleições" (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter de ESG
Publicado em 18 de março de 2026 às 19h00.
Última atualização em 19 de março de 2026 às 19h06.
Apesar do cenário geopolítico turbulento, a agenda climática brasileira vive seu momento mais intenso. A presidência da COP30, liderada pelo embaixador André Corrêa do Lago, trabalha a todo vapor: são seis prioridades, oito meses e uma COP31 na Turquia como prazo para implementar as 56 decisões aprovadas por consenso no Mutirão .
Os números revelam o tamanho do desafio, e ao mesmo tempo, da maior aposta: transformar as 143 metas climáticas e 84 planos de adaptação que saíram de Belém em entregas concretas e escaláveis.
Nos bastidores, uma pergunta ronda a sociedade e os corredores em Brasília: e depois das eleições deste ano, quem garante manter acesa a chama da agenda de ação, maior legado da COP30?
É nesse contexto que o setor privado entra como protagonista e como garantia de continuidade, independentemente do resultado das urnas. “A passagem para a implementação ganhou força e estamos vendo que essa liderança depende dessa mobilização ativa das empresas", disse Corrêa do Lago, em conversa com jornalistas nesta quarta-feira, 18.
O presidente da COP30 esteve presente no lançamento de um estudo pioneiro da C.A.S.E. (coalizão formada por Bradesco, Itaúsa, Itaú Unibanco, Marcopolo, Natura, Nestlé e Vale) sobre o potencial global das soluções verdes brasileiras.
A partir de agora, a articulação ganha escala: a iniciativa de gigantes brasileiras lançada no ano passado se conecta a frentes como SBCOP (Sustainable Business COP), Confederação Nacional da Indústria (CNI) e CEBDS, a fim de impulsionar a agenda de ação, encabeçada pelo campeão climático da COP30, Dan Ioschpe.
O mapeamento identificou 128 iniciativas socioambientais já em curso no país, com potencial de escala internacional. A meta? Levar entre 5 e 10 delas à Turquia como casos concretos, financiáveis e replicáveis.
"Coalizões voluntárias demonstram o espírito do mutirão da COP30 e refletem o nosso chamado de passar da negociação à implementação", destacou o Corrêa do Lago.
A avaliação, segundo o embaixador, é de que a agenda não deve mudar de direção. “A estratégia permanecerá a mesma.”
As seis prioridades para 2026 cobrem o mapa do caminho ou "roadmap" para o fim dos combustíveis fósseis e combate ao desmatamento, o roteiro de financiamento climático de 1,3 trilhão de dólares, a adaptação climática, a agenda de ação e a consolidação dos compromissos e o Acelerador, mecanismo desenvolvido em parceria com a Austrália para identificar e escalar tecnologias com potencial de expansão global.
As 128 iniciativas foram organizadas em nove eixos temáticos: transição energética, bioeconomia, restauração florestal, infraestrutura, economia circular, financiamento climático, transição justa, biocombustíveis e agricultura regenerativa.
Um dado chama a atenção: 100% dos eixos estratégicos têm correlação com produtos financeiros já existentes no mercado.
O estudo considerou cinco instituições financeiras e identificou 21 instrumentos aplicáveis. O gargalo, portanto, não é falta de solução, e sim de "estruturação de capital e coordenação para escalar".
A transição energética foi o eixo mais frequente entre as soluções analisadas, com iniciativas voltadas à descarbonização de cadeias produtivas e da infraestrutura energética. Entre os exemplos estão o caminhão 100% elétrico desenvolvido no Brasil, o briquete de minério de ferro que reduz o impacto ambiental da produção de aço e o uso de drones na construção de linhas de transmissão, reduzindo a supressão de vegetação.
Bioeconomia e restauração florestal também aparecem entre os destaques, com a combinação entre tecnologia, conhecimento tradicional e inovação produtiva e soluções baseadas na natureza voltadas à recuperação de áreas degradadas.
Há também iniciativas em infraestrutura e economia circular; transporte coletivo sustentável, semeadura de nuvens associada à segurança hídrica, produção de polietileno a partir de etanol de cana-de-açúcar e rerrefino de óleo lubrificante usado.
Em agricultura regenerativa, o foco está em rastreabilidade, manejo sustentável e mensuração da pegada de carbono em cadeias agroindustriais. Já em transição justa, os destaques são programas de formação em finanças sustentáveis e iniciativas de apoio à descarbonização de pequenas e médias empresas.
"O Brasil já é um provedor de soluções climáticas. O desafio agora é escalar a nível global. Precisamos alinhar regulamentações nacionais e internacionais e os instrumentos financeiros necessários para viabilizar esses casos reais", destacou Ana Toni, CEO da COP30, também presente no evento.
Se dentro de casa o desafio é o calendário eleitoral, externamente o contexto também pressiona. Desde a COP30, o cenário geopolítico se deteriorou: guerras em curso, incluindo a guerra no Irã, e o que analistas já descrevem como a maior crise energética da história escancararam a fragilidade de economias dependentes de combustíveis fósseis e de regiões instáveis.
Para Corrêa do Lago, o turbilhão externo só reforça o argumento brasileiro e pode ser uma janela de oportunidade. "A guerra mostra ainda mais a necessidade de investir em sustentabilidade e independência energética", afirmou. "Queremos fazer essa transição para não precisarmos de coisas disruptivas como as que estamos vendo", acrescentou.
O Brasil ocupa uma posição singular nesse xadrez: é o maior fornecedor de serviços ambientais do planeta e um dos poucos grandes produtores de petróleo inseridos em uma região de paz. Uma dicotomia que, na visão do embaixador, se resolve com protagonismo diplomático.
"Somos o país da diplomacia, porque as fronteiras do Brasil são fronteiras de negociação e não de guerra", disse. "A América Latina é um extraordinário espaço de paz".
É essa liderança de potência ambiental em zona de estabilidade que o Brasil quer projetar e levar ao mundo.
Para Marcelo Furtado, diretor de Sustentabilidade da Itaúsa, é preciso entender que a agenda ambiental é também econômica e que "o grande ativo de competitividade nacional é a natureza, seja em energia ou em materiais".
Um dos cases apresentados ilustra bem a tese. A Natura desenvolveu, em parceria com a Embrapa, um modelo de palmicultura regenerativa na Amazônia que combina plantio de palma com regeneração florestal.
Para Angela Pinhati, diretora de sustentabilidade da Natura, o caso mais promissor para chegar à COP31 é justamente o SAF (Sistema Agroflorestal). "Quando implemento o SAF, não só tenho um cultivo de palma regenerativo, mas contribuo para a meta climática do próprio Brasil, que tem grande dependência de soluções baseadas na natureza devido ao desmatamento da Amazônia", explicou.
A aposta é que o mesmo modelo possa ser replicado na Indonésia e em outros países asiáticos marcados por décadas de monocultura. "Queremos ir de mãos dadas com a Embrapa para levar essa influência mundo a fora", frisou a executiva da gigante de cosméticos.
É exatamente o perfil de iniciativa que a presidência brasileira quer levar à Turquia, desde que se mostre replicável e tenha além de uma metodologia validada, um resultado mensurável. O trabalho dos próximos meses é justamente esse: filtrar as 128 soluções mapeadas, identificar quais estão maduras o suficiente e entender sinergias entre os setores rumo à descarbonização.
A mensagem do Brasil é clara: a agenda ambiental é também de negócios — e o país tem condições de ser um grande exportador de soluções. Após passar o bastão da presidência da COP, o setor privado não deve esperar sinal verde de Brasília para avançar.