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Quem é o cientista que foi chamado de terrorista no Irã e venceu o prestigiado 'Nobel da Água'

Criador do conceito de falência hídrica, Kaveh Madani alerta que o mundo enfrenta riscos sem precedentes: "Só compartilhando nossa vulnerabilidade hídrica vamos encontrar a paz", diz

Aos 44 anos, Madani é o mais jovem laureado nos 35 anos de história do prêmio e o primeiro funcionário da ONU  (Kv Dhunna/UNU)

Aos 44 anos, Madani é o mais jovem laureado nos 35 anos de história do prêmio e o primeiro funcionário da ONU (Kv Dhunna/UNU)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 19 de março de 2026 às 13h00.

Última atualização em 19 de março de 2026 às 16h23.

“Ser laureado é uma honraria que compartilho com todos os iranianos que acreditaram em mim quando fui chamado de ‘ameaça’ por simplesmente dizer a verdade".

A declaração é de Kaveh Madani, cientista anunciado como vencedor do Prêmio Stockholm 2026, considerado o prestigiado "Nobel da Água" global e concedido anualmente a indivíduos ou organizações por contribuições ao uso sustentável e à proteção dos recursos hídricos. 

Arquiteto do conceito de falência hídrica, Madani hoje dirige o Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Organização das Nações Unidas (ONU) e se consolidou como uma das vozes mais potentes do mundo na agenda, combinando uma trajetória rara que combina ciência, influência e perseguição política.

Com milhões de seguidores nas redes sociais, o cientista é o mais jovem até hoje a receber a homenagem e amplia o alcance de um debate ainda muito restrito à academia. Sua voz chega a uma geração de cidadãos e ativistas da Geração Z que passam a cobrar de seus próprios líderes responsabilidade pelo mau uso dos recursos.

Sua história, no entanto, começa longe dos prêmios e dos holofotes. Nascido em Teerã, em 1981, filho de profissionais do setor hídrico, Madani se formou em Engenharia Civil na Universidade de Tabriz, seguiu para a Universidade de Lund, na Suécia, e completou seu doutorado na Universidade da Califórnia, Davis, com pesquisa de pós-doutorado na UC Riverside.

Ainda jovem, foi professor no Imperial College London, se especializando em modelagem matemática de sistemas humano-hídricos complexos e ganhou reconhecimento internacional.

Em 2017, Madani deixou uma carreira consolidada em universidades para assumir um cargo de alto escalão no governo do Irã, com a missão de enfrentar a degradação ambiental do país.

Foi eleito também vice-presidente do bureau da Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA), supervisionando decisões de todos os 193 Estados-membros da ONU.

Na COP23, se tornou o primeiro líder de delegação nacional a criticar publicamente a atenção limitada dada à água no Acordo de Paris, defendendo que a pauta fosse pilar central nas negociações climáticas. 

Ao defender transparência, reformas estruturais e alertar publicamente sobre o esgotamento dos recursos hídricos, passou a confrontar interesses políticos sensíveis.

A reação foi imediata: ele foi acusado por setores conservadores de ser “terrorista da água” e espião e se tornou alvo de uma campanha de difamação. Um ano depois, foi detido e exilado pelo Irã, o que marcou uma "inflexão" em sua carreira.

Fora do país, sua atuação ganhou escala internacional e impacto, após ele culminar o conceito que ajudou a reformular o debate: falência hídrica, um diagnóstico que embasou um relatório recente divulgado pela ONU às vésperas do Fórum Econômico de Davos, na Suíça.

Se por décadas a escassez de água foi tratada como uma “crise” temporária e passível de reversão, o cientista mudou esse paradigma: quando um evento se torna crônico, estrutural e persistente, o problema passa a ser sistêmico e os sistemas naturais perdem sua capacidade de regeneração.

Além da contribuição conceitual, o cientista iraniano ajudou a transformar a forma como a água é analisada na prática.

Seu trabalho integrou teoria dos jogos e ciência da decisão à gestão de recursos hídricos, evidenciando que o comportamento humano  e os conflitos de interesse são peças centrais para entender por que políticas frequentemente falham.

O foco deixa então de ser apenas gerir a falta do recurso hídrico e passa a ser em como lidar com a perda estrutural de resiliência frente à crise climática. 

Falência hídrica: um risco global sem precedentes

O alerta do cientista se traduz em impactos concretos. Segundo a ONU, o mundo já entrou em 2026 na era da “falência hídrica”, marcada pelo colapso da capacidade natural de recuperação dos sistemas.

Atualmente, cerca de 75% da população mundial vive sob algum grau de insegurança hídrica e 4 bilhões de pessoas enfrentam escassez severa de água ao menos um mês por ano.

As consequências vão desde a pressão sobre cadeias globais de alimentos ao aumento de riscos macroeconômicos e geopolíticos. Com a guerra no Irã, a crise hídrica histórica na região do Oriente Médio também se agrava e reposiciona a água como ativo estratégico do século.

No Brasil, episódios recentes de seca intensificados pelas mudanças climáticas também afetam grandes centros urbanos até regiões-chave do agronegócio e refletem um padrão de desequilíbrio entre demanda e capacidade de regeneração.

Hoje, Kaveh Madani fala para o mundo, alertando sobre os riscos da falência hídrica e o desequilíbrio que ameaça sociedades e economias. Sua mensagem mostra que a água não é apenas recurso, mas um ativo estratégico em colapso global.

"Vivemos uma ameaça comum que transcende toda linha militar. Devemos reconhecer nossa vulnerabilidade compartilhada se quisermos algum dia encontrar nossa paz", destacou no discurso do prêmio concedido em Paris, neste mês da água. 

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