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Brasil pode economizar US$ 200 bilhões se transformar sistema alimentar, revela estudo

Systemiq aponta que país pode reduzir perdas bilionárias, mas a transição para modelos mais sustentáveis ainda esbarra no alto custo das tecnologias e na falta de coordenação

Agricultura brasileira enfrenta o desafio de conciliar produtividade, sustentabilidade e viabilidade econômica (Camila Batista/Divulgação)

Agricultura brasileira enfrenta o desafio de conciliar produtividade, sustentabilidade e viabilidade econômica (Camila Batista/Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 7 de abril de 2026 às 17h15.

Última atualização em 7 de abril de 2026 às 17h22.

A transição para um sistema alimentar mais sustentável e resiliente no Brasil não esbarra mais na falta de recursos, mas no custo de soluções e tecnologias.

“Não é uma questão de financiamento, e sim de economia e competitividade”, diz Marta Bandeira, analista sênior de sustentabilidade do BNDES, em entrevista à EXAME.

A avaliação ajuda a explicar um desafio estrutural que ganha dimensão em um novo estudo divulgado com exclusividade pela consultoria Systemiq: o país pode reduzir em mais de US$ 200 bilhões por ano os custos econômicos, sociais e ambientais do seu sistema alimentar até 2050, caso avance em uma transformação do modelo atual.

Hoje, esses "custos invisíveis" chegam a cerca de US$ 500 bilhões anuais, fruto de um sistema que combina alta produtividade com insegurança alimentar, pressão ambiental e ineficiências ao longo da cadeia. Globalmente, ultrapassam US$ 10 trilhões por ano. 

“Temos todas as condições para liderar globalmente a transição, mas isso exige redirecionar fluxos financeiros e alinhar políticas públicas”, destaca Patricia Ellen, sócia-presidente da Systemiq LATAM.

Apesar de ser um dos maiores produtores de alimentos do mundo e concentrar até 20% da biodiversidade global, o Brasil enfrenta contradições.

Cerca de 74% das emissões de gases de efeito estufa nacionais estão associadas à agricultura e ao uso da terra, enquanto 24% dos domicílios ainda enfrentam algum nível de insegurança alimentar.

Ao mesmo tempo, o crédito rural segue concentrado: 54% dos recursos são direcionados às cadeias de soja, gado e milho e reforçam um modelo baseado em monocultura e exportação.

E os desafios vão além da produção. A análise aponta falhas em toda a cadeia: do campo ao consumo.

O país desperdiça cerca de 66 kg de alimentos por pessoa ao ano, número que pode chegar a 76 kg até 2050 se não houver mudanças estruturais.

Outro fator que preocupa é o padrão de consumo. A participação de ultraprocessados na dieta brasileira subiu de 14% para 19% entre 2003 e 2018. Além disso, 41,5% dos pesticidas utilizados no país são proibidos na União Europeia, trazendo luz para um problema que se torna também de saúde pública. 

O custo da transição

Na prática, a mudança para modelos mais sustentáveis ainda enfrenta um gargalo: viabilidade econômica.

“As novas técnicas e tecnologias para impulsionar a agricultura regenerativa ainda são mais caras que as convencionais”, afirma a especialista do BNDES, que cita que o setor privado ainda não é maduro o suficiente para sustentar essa transição sozinho. 

Isso ajuda a explicar por que, apesar do crescimento recente, o financiamento climático ainda tem alcance limitado.

Entre 2021 e 2023, o estudo revelou que os aportes no setor somaram US$ 17,1 bilhões por ano, um valor considerado insuficiente frente à escala necessária.

A Systemiq estima que cerca de 70% destes recursos vem de fontes privadas domésticas, o que reforça a necessidade de coordenação pública para viabilizar mudanças sistêmicas. 

Ao mesmo tempo, programas do governo federal como o RenovAgro cresceram 4% nos últimos anos, mas ainda representam apenas 2% do total do crédito rural.

O papel das políticas públicas

Para Marta, a transformação do sistema alimentar depende de ação coordenada e não apenas de decisões de mercado.

“Para a agricultura regenerativa se tornar amplamente adotada, é preciso política pública", garante a executiva.

Isso inclui desde linhas de financiamento mais acessíveis até programas estruturantes, como recuperação de pastagens degradadas. Atualmente, o Brasil tem cerca de 40 milhões de hectares com a oportunidade bilionária de restauração e incentivo ao uso de tecnologias como bioinsumos, biochar e pó de rocha.

Outro instrumento-chave é o mercado de carbono, agenda que ganhou um impulso em 2025 e saiu do guarda-chuva do Ministério do Meio Ambiente para ganhar corpo no Ministério da Fazenda sob a coordenação da renomada economista Cristina Reis.

Para analistas, isso traz uma sinalização importante para a agenda econômica.

"A precificação do carbono pode tornar viáveis práticas regenerativas que hoje ainda são mais caras", acrescenta Marta.

No caso do BNDES, instrumentos como o Fundo Clima e programas ligados ao Plano Safra atuam no financiamento da transição, mas não são exclusivos para o agro.

Especialistas são unânimes: o que falta é alinhamento entre incentivos, mercado e políticas públicas. Sem essa coordenação, a transição tende a permanecer mais cara e mais lenta do que o necessário, ampliando custos e desigualdades em um sistema que já dá sinais de esgotamento.

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