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Brasil chega a encontro climático com promessa vencida no bolso

Diálogo de Petersberg abre em Berlim com roteiro de transição energética do Brasil em atraso e conflito no Oriente Médio ampliando pressão sobre dependência dos fósseis

Simon Stiell, Secretário-executivo da ONU Mudanças climáticas: "Cooperação climática  é fundamental para evitar ao mesmo tempo o aquecimento global e o caos econômico gerado pela dependência dos fósseis." (UNFCCC/Flickr)

Simon Stiell, Secretário-executivo da ONU Mudanças climáticas: "Cooperação climática é fundamental para evitar ao mesmo tempo o aquecimento global e o caos econômico gerado pela dependência dos fósseis." (UNFCCC/Flickr)

Lia Rizzo
Lia Rizzo

Editora ESG

Publicado em 21 de abril de 2026 às 10h45.

Teve início nesta terça, 21, em Berlim, o Diálogo Climático de Petersberg, um dos principais encontros preparatórios que precedem as conferências do clima da ONU.

O Brasil chega à reunião em condição bem diferente da que ocupava na edição anterior, há um ano, quando se preparava para receber o mundo em Belém. Contudo, o país que sediou a COP30 em novembro passado desembarca agora na Alemanha ainda devendo uma das promessas centrais que fez ao encerrar a cúpula.

No último Diálogo, houve pressão sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas - à época ainda sob avaliação do Ibama, que liberaria a autorização para a fase de testes somente em outubro, cerca de vinte dias antes da COP30.

Já em Belém,  o país não conseguiu incluir o tema dos combustíveis fósseis no acordo final, e assumiu o compromisso de liderar uma agenda paralela sobre a transição energética.

Em discurso de abertura do evento, Simon Stiell, Secretário Executivo da ONU para Mudanças Climáticas, contextualizou o momento sem economizar nas palavras. Citou o conflito no Oriente Médio como fator que agravou a dependência global dos fósseis e elevou seus custos por meses, possivelmente anos.

Falou também sobre a estagflação impulsionada pelos combustíveis fósseis eleva preços, reduz o crescimento e afunda orçamentos em dívidas crescentes. A cooperação climática, disse Stiell, é fundamental para evitar ao mesmo tempo o aquecimento global e o caos econômico gerado por essa dependência.

E é justamente nesse debate que o Brasil ocupa hoje uma posição incômoda.

Promessa em dezembro, silêncio em fevereiro

Logo após o encerramento da COP30, em dezembro, o presidente Lula assinou um decreto que formalizou uma de suas promessas ao mundo: o Brasil teria seu próprio roteiro para reduzir gradualmente a dependência de combustíveis fósseis.

O documento determinava que os ministérios de Minas e Energia, Fazenda, Meio Ambiente e Casa Civil apresentassem, em 60 dias, uma proposta ao Conselho Nacional de Política Energética com diretrizes para uma transição justa e planejada.

O prazo venceu em fevereiro e nenhum documento foi apresentado. Nos bastidores, conforme apurado pela EXAME há semanas, as razões que travaram o processo estão claras.

Enquanto Fazenda e Meio Ambiente defendiam um processo robusto e participativo, Minas e Energia preferia diluir o roteiro nos instrumentos de planejamento energético já existentes, que preveem ampliação dos investimentos em fósseis. O que, na prática, equivaleria a não ter mapa algum.

O cenário político atual tornou o impasse ainda mais agudo. Com a saída de Fernando Haddad e Marina Silva para disputar as eleições deste ano, Alexandre Silveira é hoje o único dos três ministérios centrais ao debate no cargo, e a tendência é que suas orientações prevaleçam na definição do rumo do processo.

O que Petersberg deve cobrar

A ausência do roteiro não é um problema restrito à gestão interna. Ela se soma a uma série de episódios que já desgastaram a imagem do país no exterior.

No Diálogo de Petersberg do ano passado, o embaixador André Corrêa do Lago, então presidente-designado da COP30, foi questionado sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

Sua resposta, de que a decisão seria de ordem nacional e não um consenso multilateral, repercutiu na imprensa internacional como contradição com o discurso do "mutirão global" que o próprio Brasil defendia.

O encontro desta semana reúne representantes de cerca de 40 países e funciona como termômetro diplomático entre COPs, no momento em que o conflito no Oriente Médio é o lembrete mais recente de que o custo político de não agir subiu.

Na pauta, estarão o prazo para entrega das NDCs, o financiamento climático para nações em desenvolvimento e o avanço das metas de transição energética. E, claro, como a instabilidade geopolítica e as dificuldades domésticas de cada país condicionam o ritmo e a ambição dessas entregas.

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