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Em meio à guerra, mundo gasta 2,5 vezes mais com combustíveis fósseis do que com energia limpa

Estudo inédito revela que os subsídios a fontes poluentes chegaram a US$ 313,6 bilhões, na contramão da transição energética e agravando a crise global causada pelo choque do petróleo

A Conferência de Santa Marta, na Colômbia, marca um momento chave para definir o futuro energético do planeta, com mais de 80 países comprometidos com o fim dos fósseis (Leandro Fonseca/Exame)

A Conferência de Santa Marta, na Colômbia, marca um momento chave para definir o futuro energético do planeta, com mais de 80 países comprometidos com o fim dos fósseis (Leandro Fonseca/Exame)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 21 de abril de 2026 às 11h00.

Em meio à pressão crescente pela transição energética com a guerra no Oriente Médio, as maiores economias do mundo ainda destinam muito mais recursos para sustentar combustíveis fósseis do que para acelerar alternativas limpas.

Dados divulgados nesta terça-feira, 20, pelo International Institute for Sustainable Development (IISD) mostram que nove dos dez maiores importadores de fontes fósseis poluentes gastaram US$ 313,6 bilhões (R$ 1,568 trilhões) em subsídios ao setor em 2024, o que amplia riscos econômicos e expõe países a novas crises.

No mesmo período, o apoio público às energias renováveis somou apenas US$ 121,7 bilhões (R$ 608,5 bilhões), cerca de 39 centavos para cada US$ 1 gasto com fósseis e 2,5 vezes menos. Juntas, essas economias respondem por aproximadamente 62% das emissões globais de gases de efeito estufa.

O desequilíbrio ocorre em um momento de instabilidade no mercado global de energia. O fechamento do Estreito de Ormuz, após os conflitos militares envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, provocou uma das maiores interrupções já registradas no fornecimento de petróleo, elevando os preços para acima de US$ 100 (R$ 500) por barril.

Para analistas do estudo, esse cenário não é surpresa e sim "uma consequência direta da dependência contínua de combustíveis fósseis". 

Mais gasto, mais risco

Segundo o relatório, subsídios a fósseis mantêm economias presas a sistemas energéticos mais caros, voláteis e vulneráveis a choques geopolíticos.

“Essas economias estão pagando duas vezes: primeiro pelos subsídios e depois quando ocorrem choques de preços”, afirmou Natalie Jones, assessora sênior de políticas do IISD.

O estudo também aponta distorções sociais relevantes. Em países de renda média, os 20% mais ricos da população recebem, em média, 11 vezes mais subsídios do que os 20% mais pobres, reforçando críticas sobre a eficiência desse tipo de política pública.

Por outro lado, há bons exemplos daqueles que reduziram sua exposição a crises energéticas ao investir em renováveis.

A Alemanha, que aposta em energia limpa desde a década de 1970, economizou cerca de €25 bilhões em importações de gás em 2022 graças a esses investimentos.

No primeiro trimestre de 2026, a economia líquida já alcançou €3,3 bilhões (R$ 17,2 bilhões) e pode superar €13 bilhões (R$ 67 bilhões) no ano, caso os preços do gás permaneçam elevados.

A Turquia, sede da COP31 em novembro, seguiu caminho semelhante. O país destinou US$ 8,5 bilhões (R$ 42,5 bilhões) à energia renovável em 2024, mais de três vezes o volume registrado em subsídios a fósseis.

Entre 2022 e 2025, políticas de incentivo à energia limpa evitaram US$ 12,9 bilhões (R$ 64,5 bilhões) em custos de importação de gás. No auge da crise de 2022, cada US$ 100 de apoio público geraram US$ 265 (R$ 1.325) em importações evitadas.

Na conta dos fósseis, quem gasta mais?

Entre os maiores responsáveis pelos subsídios estão China (US$ 86,7 bilhões), União Europeia (US$ 73 bilhões) e Índia (US$ 67,5 bilhões), que juntos concentram 72% do total analisado. Também aparecem na lista Japão (US$ 45,1 bilhões) e Reino Unido (US$ 23,5 bilhões).

No extremo oposto, o México aparece como o caso mais desequilibrado: o país destina mais de 330 vezes mais recursos para fontes poluentes do que para energia limpa.

"COP dos fósseis" na Colômbia ganha adesão de 80 países

Com mais de 80 países apoiando planos globais de transição energética, a conferência de Santa Marta, na Colômbia, surge como um momento-chave para transformar compromissos em ações concretas.

Segundo especialistas, a revisão dos subsídios aos combustíveis fósseis é o primeiro passo para essa mudança. Redirecionar parte desses recursos para políticas sociais, energia limpa e eletrificação pode reduzir custos no longo prazo, diminuir a pobreza energética e fortalecer a segurança econômica.

“Mais uma rodada de subsídios, mais uma crise, mais uma resposta emergencial: isso é uma escolha, não uma inevitabilidade”, disse Natalie Jones.

Mesmo com uma matriz energética majoritariamente limpa, o Brasil não está imune ao dilema global e corre para reduzir a dependência de fósseis no longo prazo ao mesmo tempo em que liberação a exploração da Foz do Amazonas.

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