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Pesquisa de Stanford para solução natural que substitui calcário, responsável por dois terços das emissões do setor de cimento (Chaiyaporn Baokaew/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 20 de abril de 2026 às 05h58.
Pesquisadores da Universidade Stanford desenvolveram uma nova fórmula de cimento capaz de reduzir em até 67% as emissões de carbono associadas à produção do material, um dos mais utilizados — e poluentes — da construção civil.
O avanço busca enfrentar um problema estrutural global. A produção de cimento responde por cerca de 7% das emissões globais de CO₂, segundo a Global Cement and Concrete Association (GCCA), e por 2,3% das emissões totais no Brasil, de acordo com o Inventário Nacional de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases de Efeito Estufa.
A solução proposta pela equipe liderada pela geofísica Tiziana Vanorio substitui o calcário, principal matéria-prima do cimento tradicional, por rochas vulcânicas praticamente livres de carbono. Esse tipo de material já passou por processos naturais de aquecimento geológico, o que reduz significativamente as emissões quando utilizado na produção industrial.
A pesquisa teve início há cerca de uma década, quando Vanorio estudava formações rochosas em Pozzuoli, na Itália, região vulcânica onde cresceu. As rochas, formadas a partir de cinzas vulcânicas, apresentavam propriedades semelhantes às do concreto romano, conhecido por sua durabilidade.
A partir dessas observações, a equipe desenvolveu uma fórmula de cimento de baixo carbono chamada Phlego, projetada para reproduzir características dessas formações naturais.
Na produção convencional, o cimento é obtido a partir do aquecimento do calcário, processo que libera dióxido de carbono tanto pela reação química quanto pelo uso de fornos industriais. Essa etapa responde por cerca de dois terços das emissões totais do material.
Dados do setor mostram que aproximadamente 60% das emissões vêm da calcinação do calcário — processo químico — enquanto cerca de 40% são resultado da queima de combustíveis.
Já a nova abordagem utiliza rochas que emitem pouco ou nenhum CO₂ quando aquecidas, permitindo a criação de um material com propriedades semelhantes ao cimento tradicional, mas com menor impacto ambiental.
Por conta do alto impacto climático, a indústria do cimento vem reduzindo sua intensidade de carbono ao longo das últimas décadas. Segundo a Associação Global do Cimento e Concreto, as emissões por tonelada de cimento caíram 25% desde 1990.
No Brasil, o setor apresenta um dos melhores desempenhos globais. Dados da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) e do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) indicam uma intensidade de 564 kg de CO₂ por tonelada em 2025, enquanto o setor ultrapassava os 600 kg no cenário mundial.
As entidades também estabeleceram metas de descarbonização: o objetivo é reduzir esse índice em 33% até 2050, chegando a 375 kg de CO₂ por tonelada, conforme o Roadmap Net Zero do setor.
Além do aspecto técnico, os pesquisadores destacam que a viabilidade econômica é um fator central para a adoção da tecnologia.
“Recolhi muitas informações nos eventos do Accelerator que me ajudaram a entender o cimento do ponto de vista de negócios”, afirmou Vanorio. “Descarbonizar o cimento não é apenas um desafio de materiais de baixo carbono. É, na verdade, um desafio de alocação de risco. Esse foi um momento decisivo para mim.”
Segundo ela, o setor opera com margens reduzidas e depende de processos contínuos, o que limita a adoção de soluções que aumentem custos ou exijam mudanças estruturais na produção.
Nesse contexto, a equipe aposta em soluções compatíveis com a infraestrutura existente. “Em setores difíceis de descarbonizar, como o cimento, o caminho mais rápido para um impacto transformador vem da compatibilidade, e não de mudanças radicais”, disse. “Algo que pode ser adotada diretamente reduz drasticamente o risco de implementação.”
Outro fator que impulsiona a pesquisa é a crescente escassez de materiais usados para reduzir a intensidade de carbono do cimento, conhecidos como materiais cimentícios suplementares.
Hoje, parte dessas alternativas vem de resíduos industriais, como cinzas de carvão, cuja oferta está em queda com a redução do uso de combustíveis fósseis. Já as cinzas vulcânicas naturais estão disponíveis apenas em regiões específicas e apresentam variação de qualidade.
“A disponibilidade e a consistência dos materiais cimentícios suplementares serão fundamentais para minimizar os riscos na cadeia de suprimentos do cimento de baixo carbono”, afirmou Vanorio.
Com isso, materiais projetados em laboratório, como o Phlego, podem se tornar uma alternativa mais previsível e escalável para o setor.