As novas diretrizes recomendam um consumo diário de proteínas calculado entre 1,2 e 1,6 grama por quilo de peso corporal, com destaque para fontes animais integrais (Pixabay/Reprodução)
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Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 20h17.
A divulgação das Diretrizes Alimentares para Americanos (Dietary Guidelines for Americans 2025-2030) marcou uma inflexão importante na política alimentar dos Estados Unidos. Na capa, a pirâmide alimentar aparece invertida e sintetiza a principal mensagem do novo guia: priorizar alimentos integrais, reduzir ultraprocessados e açúcar adicionado e reposicionar o papel de proteínas, gorduras e carboidratos na dieta cotidiana.
Para o governo americano, trata-se de uma diretriz mais simples e direta. Para especialistas, porém, o impacto real vai além do desenho gráfico. Na avaliação do nutricionista Felipe Daun, do Instituto Nutrição Comportamental, a força do documento está menos na novidade conceitual e mais na forma como comunica prioridades.
“Nenhuma mensagem, por melhor que seja, consegue sozinha gerar mudanças sustentáveis de hábito alimentar em escala. Diretrizes ajudam a orientar, mas mudança de comportamento depende de contexto: rotina, acesso, cultura, emoções, relações com a comida e ambiente alimentar”, afirma.
Segundo ele, a informação é necessária, mas insuficiente sem estratégias que considerem a vida real das pessoas. “É justamente aí que a Nutrição Comportamental destaca o papel do nutricionista: traduzir diretrizes gerais em estratégias viáveis para cada indivíduo.”
Um dos pontos mais comentados da nova pirâmide é o aumento da recomendação diária de proteínas, agora calculada entre 1,2 e 1,6 grama por quilo de peso corporal, com destaque para fontes animais integrais. Para Daun, a mudança precisa ser lida com cautela. “Vale lembrar que reposicionamento não significa liberação do que era proibido. As diretrizes anteriores não vetavam alimentos, e equilíbrio alimentar não combina com lógica de proibição”, detalha.
Ele observa que, no contexto estadunidense, a recomendação anterior estava mais associada à prevenção de deficiências do que à otimização do consumo. Estudos recentes, segundo o nutricionista, indicam benefícios de uma ingestão adequada de proteínas — inclusive de origem animal e vegetal — especialmente para a saúde muscular ao longo do envelhecimento.
No debate sobre gorduras, o novo guia manteve o limite de até 10% das calorias diárias provenientes de gorduras saturadas, mas adotou uma linguagem mais direta ao citar alimentos integrais como carnes, laticínios e até abacate como fontes possíveis. Daun evita a ideia de permissividade. “Falar em ‘permitido ou proibido’ reativa uma lógica ruim para a saúde pública e para a mudança de comportamento alimentar”, pondera. Para ele, do ponto de vista técnico, não houve ruptura relevante em relação às recomendações anteriores.
Já no caso dos carboidratos, a diretriz americana reforça a redução dos refinados e incentiva grãos integrais, o que, segundo o nutricionista, precisa ser interpretado à luz do contexto cultural. “Essa aparente redução mira sobretudo os carboidratos refinados. Nos Estados Unidos, o consumo de grãos integrais não é tão automático quanto no Brasil, onde arroz e feijão estruturam a alimentação diária”, explica o nutricionista.
Ao eleger os ultraprocessados como alvo explícito, o documento se aproxima de debates já consolidados em outros países, inclusive no Guia Alimentar para a População Brasileira. Ainda assim, Daun reforça que diretrizes não operam milagres. “Elas orientam políticas públicas e programas institucionais, mas a mudança de hábito acontece quando essas recomendações encontram condições concretas de aplicação”, avalia.