Primeiro porco clonado do Brasil nasceu em laboratório em Piracicaba e faz parte de projeto para transplantes (Reprodução)
Redatora
Publicado em 25 de abril de 2026 às 06h10.
O xenotransplante é um procedimento que envolve a transferência de órgãos, tecidos ou células de animais para humanos. A técnica surge como uma alternativa promissora para reduzir as filas de espera, diante da escassez crônica de doadores.
O termo vem do grego "xenos" (estrangeiro) e se refere a qualquer transplante entre espécies diferentes. Embora seja estudado há décadas, o xenotransplante avançou de forma significativa nos últimos anos com o desenvolvimento de tecnologias de edição genética.
Apesar dos primatas serem mais próximos dos humanos do ponto de vista evolutivo, o porco se tornou a principal aposta da ciência para esse tipo de procedimento.
Isso ocorre por uma combinação de fatores. Os órgãos suínos têm tamanho, peso e funcionamento semelhantes aos humanos, o que facilita a adaptação no organismo receptor. Além disso, os porcos se reproduzem rapidamente, com gestação de cerca de quatro meses e ninhadas numerosas, o que permite escala de produção.
Outro ponto relevante é o fato de serem animais domesticados e já utilizados na medicina há décadas, como no uso de válvulas cardíacas e insulina de origem suína.
O maior desafio do xenotransplante sempre foi a rejeição imunológica. O organismo humano reconhece órgãos de outras espécies como invasores e pode atacá-los de forma imediata.
Com o avanço de ferramentas como o CRISPR-Cas9, os cientistas passaram a modificar geneticamente os porcos para reduzir esse risco. Na prática, genes suínos ligados à rejeição rápida — especialmente os responsáveis pela produção de moléculas como o açúcar alpha-gal, associado à rejeição imediata — são desativados.
Ao mesmo tempo, genes humanos são inseridos no genoma do animal para ajudar a regular processos como coagulação sanguínea, inflamação e resposta do sistema imune. Essas alterações tornam os órgãos mais compatíveis com o corpo humano.
Modificações adicionais também podem ser feitas para controlar o crescimento dos tecidos após o transplante, evitando complicações fisiológicas. Essas intervenções são o que permitem que o xenotransplante avance de forma mais segura nos estudos atuais.
Apesar dos avanços, o procedimento ainda enfrenta desafios importantes. Entre eles estão diferentes formas de rejeição do órgão:
Outro risco relevante é a possibilidade de transmissão de vírus entre espécies, o que exige protocolos rigorosos de biossegurança.
O xenotransplante já foi testado em diferentes momentos da história. Nas décadas de 1960 e 1980, foram realizados transplantes experimentais com órgãos de primatas, com sobrevida limitada.
Mais recentemente, avanços tecnológicos permitiram novos testes com órgãos de porcos geneticamente modificados. Entre os marcos estão:
Esses casos indicam progresso, mas também mostram que a técnica ainda está em fase experimental.
O Brasil entrou nesse campo com o nascimento do primeiro porco clonado no país, em um laboratório em Piracicaba (SP). O feito faz parte de um projeto liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP).
A iniciativa busca desenvolver suínos geneticamente modificados para fornecer órgãos ao Sistema Único de Saúde (SUS), com foco inicial em rim, córnea, coração e pele — que concentram a maior parte da demanda por transplantes.
O país já possui um dos maiores sistemas públicos de transplantes do mundo, mas ainda enfrenta longas filas. Atualmente, milhares de pacientes aguardam por um órgão, e muitos não resistem ao tempo de espera.