Ciência

Vencedor do Nobel e ex-Google vai criar computador mais poderoso do mundo

John Martinis defende mudanças na fabricação de chips e na arquitetura para reduzir fios, ampliar escala e tornar a tecnologia mais confiável

Computadores quânticos: descoberta pode ajudar no desenvolvimento de tecnologias futuras (Getty Images)

Computadores quânticos: descoberta pode ajudar no desenvolvimento de tecnologias futuras (Getty Images)

Publicado em 9 de fevereiro de 2026 às 21h34.

O físico John Martinis, vencedor do Prêmio Nobel e um dos nomes mais influentes da história da computação quântica, afirmou que pretende construir o que chama de “computador quântico mais poderoso do mundo”. Em entrevista ao New Scientist, ele disse que trabalha em uma nova abordagem para tornar a tecnologia mais confiável, escalável e com menor custo, com foco em mudanças profundas na fabricação e no desenho de chips.

Martinis foi peça central em dois momentos marcantes do setor: nos anos 1980, participou de experimentos que ajudaram a demonstrar efeitos quânticos em sistemas maiores do que partículas subatômicas; décadas depois, liderou o time do Google que construiu a máquina associada ao primeiro experimento de “supremacia quântica”. Agora, próximo dos 70 anos, ele diz que busca um novo salto na área.

A estratégia atual passa pela QoLab, empresa que ele cofundou em 2024. Segundo Martinis, o objetivo é repensar a computação quântica como um sistema completo, sobretudo na parte que ele considera um dos maiores gargalos para o avanço: a forma como os qubits são produzidos e conectados - qubit é a unidade básica de informação na computação quântica.

O plano da QoLab

Na entrevista ao site, Martinis afirma que uma das barreiras para a criação de computadores quânticos realmente úteis é o desafio de construir máquinas com um número muito grande de qubits, potencialmente na casa dos milhões. Para ele, a indústria ainda depende de métodos de fabricação considerados antigos para a complexidade do objetivo.

A QoLab, segundo o pesquisador, aposta em duas frentes principais: novas técnicas de manufatura para chips quânticos e uma arquitetura que ajude a reduzir a quantidade de cabos e componentes externos. Em computadores quânticos baseados em circuitos supercondutores, o excesso de fios e conexões é frequentemente citado como um obstáculo para ampliar o sistema com estabilidade.

Martinis também diz que o projeto tem recebido ceticismo, mas interpreta a resistência como sinal de que a proposta realmente rompe com o padrão atual. Ele afirma ainda que a empresa busca colaboração com companhias de hardware e especialistas em produção em escala - o objetivo é aproximar o desenvolvimento de um modelo industrial.

Computador quântico realmente útil

Questionado sobre o que faria com um computador quântico grande e com baixa taxa de erro, Martinis afirmou ao New Scientist que seu interesse principal está em aplicações de química quântica e materiais. Ele citou estudos que investigam como essas máquinas poderiam ajudar a extrair informações mais úteis de experimentos de ressonância magnética nuclear (NMR), técnica amplamente usada em análises químicas.

Para ele, esse tipo de uso tem uma vantagem importante: é mais bem definido do ponto de vista teórico, com estimativas mais claras sobre o tamanho necessário do computador e sobre quais algoritmos podem ser aplicados. Em comparação, áreas frequentemente mencionadas no debate público, como otimização e inteligência artificial quântica, foram descritas como caminhos mais incertos, em que ainda seria preciso “testar e ver se funciona”.

Ao longo da entrevista, Martinis também destacou que o principal obstáculo para tornar a computação quântica uma ferramenta prática continua sendo o hardware. Na avaliação do pesquisador, ruídos físicos, limitações de engenharia e problemas de fabricação ainda dificultam a criação de qubits confiáveis em larga escala.

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