Marte: evento solar extremo atingiu Marte e provocou aumento recorde de radiação na atmosfera do planeta vermelho (Derek Berwin/Getty Images)
Redatora
Publicado em 10 de março de 2026 às 12h36.
Uma supertempestade solar que atingiu Marte em maio de 2024 gerou uma dose de radiação equivalente a cerca de 200 dias normais em apenas 64 horas, segundo um estudo publicado na revista científica Nature Communications.
O fenômeno foi registrado por duas sondas orbitais da Agência Espacial Europeia (ESA): a Mars Express e a ExoMars Trace Gas Orbiter (TGO).
Durante o evento, um monitor de radiação a bordo da TGO detectou um aumento significativo na exposição a partículas energéticas. A tempestade fez parte de um período de intensa atividade solar que também atingiu a Terra, provocando auroras visíveis em regiões incomuns, como o México.
De acordo com os pesquisadores da ESA, os dados coletados pelas sondas permitiram observar em detalhes como uma tempestade solar extrema pode alterar a atmosfera do planeta vermelho.
A análise dos dados mostrou que a atmosfera superior de Marte respondeu de forma intensa à atividade solar.
De acordo com o pesquisador da ESA Jacob Parrott, o planeta apresentou a maior resposta já observada a uma tempestade solar, com forte aumento na presença de elétrons na atmosfera.
A supertempestade provocou elevação significativa na concentração de elétrons em duas camadas da atmosfera marciana localizadas a cerca de 110 e 130 quilômetros de altitude.
Os níveis cresceram aproximadamente 45% e 278%, respectivamente, representando os maiores valores já registrados nessas regiões.
Além das mudanças na atmosfera, o evento também provocou falhas temporárias nos computadores das sondas orbitais, um efeito típico do clima espacial, já que partículas altamente energéticas podem interferir no funcionamento de equipamentos eletrônicos.
Para investigar o fenômeno, os cientistas utilizaram uma técnica conhecida como ocultação de rádio. Nesse método, a sonda Mars Express envia um sinal de rádio para a ExoMars TGO no momento em que desaparece no horizonte do planeta.
Durante esse processo, o sinal atravessa diferentes camadas da atmosfera de Marte e sofre alterações. Ao analisar essas variações, os pesquisadores conseguem identificar características como densidade de partículas e composição atmosférica.
Os cientistas também observaram três tipos de eventos solares associados à tempestade: erupções de radiação, fluxos de partículas de alta energia e ejeções de massa coronal (EMC), que lançam grandes quantidades de plasma magnetizado no espaço.
Embora o fenômeno também tenha atingido a Terra, os efeitos foram mais intensos em Marte. Isso ocorre porque o planeta vermelho não possui um campo magnético global forte, como o da Terra, que funciona como uma proteção natural contra partículas energéticas vindas do Sol.
Na Terra, esse campo magnético desvia parte dessas partículas para os polos, onde elas interagem com a atmosfera e produzem auroras. Já em Marte, a falta dessa proteção permite que a energia solar penetre com mais facilidade na atmosfera.
Os pesquisadores destacam que esse processo pode estar relacionado à perda de grande parte da atmosfera e da água do planeta ao longo do tempo, resultado da exposição contínua ao fluxo de partículas emitidas pelo Sol.