Recifes de coral: acidificação dos oceanos afeta principalmente organismos com esqueletos de cálcio (ThinkStock)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 11 de janeiro de 2026 às 06h39.
Última atualização em 14 de janeiro de 2026 às 11h56.
Quando uma pessoa tem refluxo gástrico, um tratamento comum para o desconforto gerado pela acidez estomacal são os antiácidos, em geral substâncias básicas como o bicarbonato de sódio ou o hidróxido de magnésia. O princípio por trás do uso desses remédios são as reações ácido-base, que formam soluções de sais de pH neutro.
Em um nível global, os mares estão basicamente com "refluxo". A acidificação dos oceanos ultrapassou em junho de 2025 o limite de equilíbrio planetário, de acordo com estudo do Laboratório Marinho de Plymouth, no Reino Unido.
Esse é um dos efeitos mais graves do aumento da concentração de gás carbônico (CO2) na atmosfera. É um tipo de "ciclo vicioso", em que mais CO2 na atmosfera se dissolve na água do mar, prejudicando a fauna e flora oceânica, o que, por sua vez, diminui a capacidade dos oceanos de absorver o CO2.
Para combater esse fenômeno, um grupo de cientistas está testando uma estratégia controversa, semelhante a tomar um antiácido.
A proposta envolve a liberação controlada de soda cáustica (NaOH) diretamente no mar com o objetivo de neutralizar a maior acidez da água e ampliar sua capacidade de absorver CO₂ da atmosfera, segundo reportagem do The New York Times.
Essa técnica faz parte de um conjunto de intervenções conhecido como “aumento da alcalinidade oceânica”, um tipo de geoengenharia que busca imitar e acelerar processos naturais do planeta.
Os pesquisadores destacam, no entanto, que a iniciativa não substitui a necessidade urgente de reduzir emissões de gases de efeito estufa, mas poderia atuar como um complemento diante do agravamento da crise climática.
Em agosto de 2025, o oceanógrafo Adam Subhas, do Woods Hole Oceanographic Institution, liderou um experimento no Golfo do Maine, nos Estados Unidos.
A equipe bombeou cerca de 61,3 mil litros de uma solução de hidróxido de sódio no oceano. O líquido era tingido de vermelho para se acompanhar a dispersão da substância. A mancha gerou preocupação em alguns moradores do Golfo, que associaram a cor vermelha a sangue.
O borrão carmim chegou a ocupar uma área de aproximadamente 10 km de largura e elevou temporariamente o pH da água de 7,95 para 8,3.
“O que podemos dizer até agora é que criamos exatamente as condições certas para que o oceano de superfície absorvesse dióxido de carbono da atmosfera”, afirmou Subhas ao New York Times. “Não há dúvida de que houve um fluxo. A grande questão agora é: conseguimos quantificá-lo?”, completou o pesquisador, ressaltando que os dados ainda estão em análise.
Segundo o jornal, o experimento foi cuidadosamente planejado para minimizar riscos ambientais. A soda cáustica, embora corrosiva em altas concentrações, foi rapidamente diluída no mar.
A equipe estimou que a intervenção poderia resultar na morte de apenas nove peixes a mais do que ocorreria naturalmente, impacto considerado insignificante pelos especialistas consultados.
Para o oceanógrafo David Ho, da Universidade do Havaí em Mānoa, a remoção de carbono em larga escala exigirá esforços sem precedentes.
“Se estivermos falando sério sobre remover dióxido de carbono, isso vai ser a maior coisa que a humanidade já fez”, disse Ho ao New York Times. “Deveria ser algo em que governos investissem como no Projeto Manhattan”, comparou.
A urgência dessas pesquisas está ligada ao avanço acelerado da acidificação dos oceanos.
O estudo britânico do Laboratório Marinho de Plymouth mostrou que esse fenômeno ultrapassou em 2020 o chamado limite de equilíbrio planetário, conceito que define fronteiras ambientais seguras para a humanidade.
Desde a Revolução Industrial, o pH médio da superfície oceânica caiu de cerca de 8,2 para 8,04, o que representa um aumento de aproximadamente 40% na acidez.
“A gente tem uma informação robusta, de alcance mundial, revelando algo que infelizmente não sabíamos antes”, explicou Alexander Turra, pesquisador do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, em entrevista à Agência Brasil.
Segundo ele, a acidificação é um processo silencioso, mas extremamente perigoso para os ecossistemas marinhos.
A redução do pH diminui a disponibilidade de carbonato de cálcio, substância essencial para a formação de conchas e esqueletos de organismos como corais, moluscos e crustáceos.
“Isso significa menos crescimento de recifes de coral, conchas mais frágeis e estruturas ósseas de peixes menos desenvolvidas”, detalhou Turra à Agência Brasil.
Embora especialistas reconheçam que o aumento da alcalinidade oceânica não seja capaz de devolver os mares às condições pré-industriais, a estratégia pode ajudar a frear o avanço da acidificação em regiões mais sensíveis.
“Não acho realista falar em mitigar a acidificação em escala global”, afirmou Nina Bednarsek, cientista do Instituto Jozef Stefan, ao New York Times. “É preciso identificar as áreas mais vulneráveis e protegê-las primeiro, tanto pelo ecossistema quanto pelas comunidades humanas que dele dependem”, concluiu.