Ciência

Sem cérebro, mas com sono: águas-vivas dormem como humanos

Estudo publicado na Nature revelou que animais marinhos sem cérebro entram em estados de sono para reduzir danos ao DNA

Água-viva: estudo mostra que o animal entra em estados de sono semelhantes aos humanos (Julie Larsen Maher / WCS)

Água-viva: estudo mostra que o animal entra em estados de sono semelhantes aos humanos (Julie Larsen Maher / WCS)

Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 12h51.

Animais marinhos sem cérebro, como água-vivas e anêmonas-do-mar, entram em estados de sono semelhantes ao humano para reduzir danos ao DNA em neurônios, segundo um estudo publicado nesta quarta-feira, 7, na revista Nature.

A pesquisa reforça a hipótese de que o sono surgiu como um mecanismo celular de manutenção, anterior à evolução de cérebros complexos.

O trabalho mostra que, mesmo em organismos com redes neurais difusas, sem centro de comando, a atividade celular segue um padrão claro: o dano ao DNA aumenta durante a vigília e diminui durante o sono. Quando os pesquisadores induziram artificialmente danos genéticos, os animais passaram a dormir por mais tempo.

Sono antecede o cérebro e protege neurônios

Os experimentos analisaram duas espécies consideradas próximas das primeiras formas de vida com neurônios: a água-viva Cassiopea andromeda e a anêmona Nematostella vectensis. Ambas dormem cerca de um terço do dia, com ciclos regulares e previsíveis.

No caso da água-viva, o descanso se concentra à noite, com cochilos curtos ao meio-dia. Já a anêmona dorme principalmente ao amanhecer. Em todos os cenários, o padrão coincidiu com uma redução mensurável de danos ao DNA neuronal durante o período de repouso.

Segundo os autores, o dado é relevante porque neurônios não se regeneram por divisão celular, o que torna sua preservação crítica para a sobrevivência do organismo.

Evidência reforça função biológica essencial do sono

O sono é considerado um estado biologicamente custoso: expõe os animais a predadores, reduz tempo de alimentação e reprodução e limita a interação com o ambiente. Ainda assim, ele foi preservado ao longo da evolução em todos os organismos com sistemas nervosos estudados até hoje.

A nova evidência sustenta a tese de que o sono não surgiu para processar informação ou consolidar memória, mas como uma resposta à necessidade de reparação celular eficiente, especialmente em neurônios submetidos a estresse durante a atividade.

Pesquisas anteriores já haviam identificado estados semelhantes ao sono em água-vivas. Este é o primeiro estudo a caracterizar detalhadamente o fenômeno em anêmonas-do-mar e a demonstrar, em ambos os casos, um vínculo direto entre sono e integridade genética.

Impacto para medicina e pesquisa neurológica

Embora o estudo seja básico, os autores apontam implicações diretas para a compreensão de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, associadas ao acúmulo de danos celulares ao longo do tempo.

A pesquisa também contribui para o entendimento de fenômenos observados em humanos, como o “sono local”, em que regiões específicas do cérebro entram temporariamente em repouso mesmo durante a vigília.

Os próximos passos do grupo incluem testar a hipótese em esponjas marinhas, que não possuem sistema nervoso, e em peixes-zebra, amplamente usados como modelo em pesquisas neurológicas.

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