Gato: coluna '360' serve de inspiração para robótica (Karen Bleier/AFP)
Publicado em 15 de março de 2026 às 09h44.
A capacidade dos gatos de cair de pé intrigou cientistas por mais de um século. Agora, pesquisadores da Universidade de Yamaguchi, no Japão, oferecem a explicação mais detalhada até hoje: a chave está na estrutura da coluna vertebral do animal.
O estudo, publicado no periódico The Anatomical Record, analisou as propriedades mecânicas da espinha de cinco gatos mortos e filmou, com câmeras de alta velocidade, dois gatos vivos sendo soltos de cerca de um metro de altura. "Para evitar lesões, colocamos uma almofada grossa e macia no local de pouso", explicou Yasuo Higurashi, fisiologista e autor principal do estudo, ao New York Times. "Um dos nossos alunos de graduação fazia o arremesso."
A descoberta central é que a coluna felina não é uniformemente flexível. A região torácica superior pode girar até 360 graus com muito pouco esforço, enquanto a região lombar é significativamente mais rígida. Essa combinação permite que o gato gire primeiro a cabeça e as patas dianteiras em direção ao solo e, em seguida, o restante do corpo acompanhe o movimento — com a lombar funcionando como um estabilizador.
"A coluna torácica do gato pode girar como o nosso pescoço", afirmou Higurashi ao New York Times.
De acordo com a Wired, as análises confirmam uma sequência precisa durante a queda: "a rotação do tronco anterior foi concluída antes da rotação do tronco posterior", conclui o estudo.
Os resultados são consistentes com o modelo conhecido como legs in, legs out — segundo o qual os gatos estendem os membros traseiros antes de retraí-los, num giro sequencial do tronco superior e depois do inferior para assumir a postura correta.
O estudo também revelou um dado curioso: os gatos parecem ter uma preferência pelo lado direito. Um deles se reorientou girando à direita em oito de oito quedas; o outro, em seis de oito.
Greg Gbur, físico da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte e especialista no tema, classificou o estudo como o primeiro a explorar "o que a estrutura da coluna do gato nos diz sobre como ele se vira durante a queda".
Além de elucidar um enigma centenário, os pesquisadores apontam aplicações práticas: os achados podem ajudar veterinários a tratar lesões na coluna e até inspirar o desenvolvimento de robôs mais ágeis. A próxima etapa, segundo Higurashi, é construir modelos matemáticos e tridimensionais atualizados a partir de novos dados.