Cachorro sem raça definida (SRD) com pelagem caramelo em área externa, usado para ilustrar a análise sobre a ancestralidade genética dos cães no Brasil. (Freepik)
Repórter
Publicado em 10 de agosto de 2026 às 19h34.
Qualquer apaixonado por cães dirá que seu companheiro de quatro patas consegue perceber seu humor e suas emoções.
Agora, cientistas descobriram com mais precisão o que acontece no cérebro de um cão quando ele vê um ser humano, inclusive um completo desconhecido, sorrindo ou demonstrando desaprovação.
A pesquisa divulgada no jornal iScience envolveu 14 cães, que permaneceram imóveis dentro de um equipamento de ressonância magnética enquanto observavam imagens de rostos humanos.
As fotografias de pessoas sorrindo ativaram uma região cerebral associada ao sistema de recompensa. Essa área é responsável por processar experiências positivas e prazerosas, como receber elogios ou desfrutar de uma refeição saborosa.
Nos seres humanos, esse mecanismo está relacionado à sensação de satisfação provocada por acontecimentos agradáveis, como vencer uma competição ou receber um comentário positivo em uma rede social.
Estudos anteriores já haviam mostrado que a mesma região cerebral dos cães era ativada quando eles esperavam receber um petisco ou sentiam o cheiro de alguém familiar.
“Ela controla nossa motivação para agir e fazer determinadas coisas”, explicou Laura Cuaya, uma das principais pesquisadoras do estudo, da Universidade de Viena, à BBC. “Essa descoberta sugere que rostos felizes, mesmo os de estranhos, têm um valor positivo para os cães.”
Cuaya e o coautor da pesquisa, Raúl Hernández-Pérez, também investigaram como os cães reagem a outras emoções humanas. Os animais foram expostos a imagens de pessoas demonstrando felicidade, raiva, medo e tristeza.
Os resultados mostraram que o sistema de recompensa respondeu apenas às expressões de felicidade.
“Os cães conseguem distinguir emoções positivas de todas as demais, mas não parecem ser capazes de diferenciar claramente os diferentes tipos de emoções negativas”, afirmou Hernández-Pérez, também pesquisador da Universidade de Viena, à BBC.
Segundo Cuaya, o cérebro canino é especialmente fascinante do ponto de vista da neurociência.“Eles são extremamente bons em compreender emoções humanas, apesar de pertencerem a uma espécie completamente diferente da nossa.”
Os pesquisadores acreditam que esses estudos ajudam a explicar como milhares de anos de convivência ao lado dos seres humanos moldaram os circuitos cerebrais dos cães, tornando possível esse nível de compreensão social.
“Quando comparamos humanos com outros primatas, estamos analisando habilidades que podem ter sido herdadas de um ancestral comum”, explicou Cuaya à BBC. “Com os cães, a história é totalmente diferente. Eles seguiram um caminho evolutivo distinto, mas, por meio da domesticação, desenvolveram as habilidades sociais necessárias para nos compreender e cooperar conosco”, disse.
De acordo com o estudo publicado na revista The CRISPR Journal, os cães nasceram saudáveis, não apresentaram anomalias e deixaram de produzir a proteína considerada a principal responsável por sintomas como espirros, coriza e lacrimejamento em pessoas alérgicas.
A equipe utilizou a ferramenta de edição genética CRISPR para desativar o gene responsável pela produção da proteína Can f 1 em células da pele de uma cadela da raça beagle.
Depois, essas células editadas foram usadas em um processo de clonagem conhecido como transferência nuclear de células somáticas. Ao todo, os pesquisadores produziram 25 embriões com a alteração genética e os implantaram em uma fêmea que atuou como barriga de aluguel.
Dois embriões completaram o desenvolvimento, dando origem aos filhotes Bailey e Alfie.