Ciência

Queda de lixo espacial dispara com corrida de foguetes

Segundo o New York Times, avanço da indústria espacial aumenta o número de detritos que retornam ao planeta e desafia a legislação internacional

Lixo espacial: aumento dos lançamentos de foguetes e satélites amplia o risco de detritos atingirem áreas habitadas. (Nasa/Reprodução)

Lixo espacial: aumento dos lançamentos de foguetes e satélites amplia o risco de detritos atingirem áreas habitadas. (Nasa/Reprodução)

Publicado em 31 de julho de 2026 às 18h42.

O aumento do lixo espacial que retorna à Terra está acendendo um alerta entre especialistas e governos.

Impulsionado pela corrida global por satélites e pelo avanço dos lançamentos de foguetes, o fenômeno amplia o risco de destroços atingirem áreas habitadas e expõe a falta de regras capazes de acompanhar a expansão da indústria espacial.

De acordo com o The New York Times, o número de objetos que reentram na atmosfera cresce rapidamente. Apenas no ano passado, a Força Espacial dos Estados Unidos emitiu alertas para quase 820 objetos em reentrada — dez anos antes, esse número era de 110.

Apesar de a chance de uma pessoa ser atingida ainda ser considerada pequena, especialistas afirmam que o risco aumenta à medida que mais satélites entram em órbita.

Um estudo da Administração Federal de Aviação (FAA) dos EUA estima que, até 2035, destroços de satélites da SpaceX poderão provocar uma morte ou ferimento grave, em média, a cada dois anos.

Casos recentes mostram avanço do problema

Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu no Quênia, quando um enorme anel metálico caiu em uma área agrícola próxima ao vilarejo de Mukuku. O objeto, parte da estrutura de um foguete, deveria ter se desintegrado durante a reentrada na atmosfera, mas atingiu o solo e assustou moradores, que inicialmente acreditaram estar diante do "fim do mundo".

Segundo o New York Times, esse está longe de ser um caso isolado. Em 2024, um fragmento da Estação Espacial Internacional caiu sobre uma casa na Flórida. No início de 2025, parte de um foguete da SpaceX atingiu uma região próxima a um shopping na Polônia, enquanto outro pedaço foi encontrado perto de um aeroporto do país.

Também houve registros de um satélite chinês desativado cruzando o céu das Ilhas Canárias antes de se fragmentar e de destroços ainda em chamas encontrados em uma estrada no deserto da Austrália. Esferas metálicas atribuídas a equipamentos espaciais também apareceram em praias australianas.

O crescimento da atividade espacial explica o aumento dos casos. Mais de 300 foguetes foram lançados no mundo no último ano, quase quatro vezes mais do que uma década atrás. Paralelamente, cerca de 16 mil satélites estão atualmente em órbita e boa parte deles retornará à Terra ao fim de sua vida útil.

A SpaceX, de Elon Musk, lidera esse movimento, com mais de 10 mil satélites em operação e planos de ampliar significativamente sua constelação. Blue Origin, de Jeff Bezos, e projetos chineses também pretendem expandir suas redes de satélites nos próximos anos.

Leis não acompanharam a expansão da indústria

Especialistas ouvidos pelo New York Times afirmam que a legislação internacional ficou defasada. Os principais tratados que tratam da responsabilidade por danos causados por objetos espaciais foram elaborados durante a Guerra Fria, quando a atividade em órbita era muito menor. As diretrizes mais recentes da ONU sobre lixo espacial, publicadas em 2007, não têm caráter obrigatório.

Outro desafio é prever onde os destroços irão cair. Um erro de apenas um minuto na estimativa da reentrada pode deslocar o ponto de impacto em quase 500 quilômetros, tornando praticamente impossível determinar com precisão onde um objeto atingirá o solo.

Especialistas defendem que governos passem a exigir o uso de materiais que se desintegrem completamente durante a reentrada na atmosfera, reduzindo o risco de grandes fragmentos sobreviverem à queda.

Quem paga quando um objeto cai na Terra?

Quando um destroço espacial causa danos, a responsabilidade depende de sua origem. Se o equipamento pertence a uma empresa ou agência do próprio país, a indenização segue a legislação nacional.

Nos casos internacionais, entram em vigor tratados da ONU que permitem aos governos buscar compensação junto ao país responsável pelo objeto.

No caso do Quênia, as autoridades levaram meses para identificar que o anel encontrado em Mukuku pertencia a um foguete francês lançado mais de 16 anos antes.

Apesar da confirmação, moradores da região afirmam que ainda não receberam qualquer compensação pelos danos provocados pelo impacto.

Acompanhe tudo sobre:EspaçoSatélites

Mais de Ciência

Como é o supertufão Dolphin, um dos mais impressionantes de 2026

A moda do 'alto teor de proteína' funciona para todos? Entenda os debates na ciência

Navio japonês com mais de 1.000 prisioneiros é encontrado após 80 anos no Pacífico

Chuva de meteoros: qual o melhor horário para observar nesta sexta, 31?