Ciência

A moda do 'alto teor de proteína' funciona para todos? Entenda os debates na ciência

Segundo uma revisão de estudos sobre o tema, consumir proteína além do necessário, especialmente por quem tem uma rotina sedentária, está associado a problemas metabólicos e redução do tempo de vida

Estudo: a restrição também reduz a atividade de uma proteína chamada mTORC1, que normalmente estimula o crescimento celular. (Getty Images)

Estudo: a restrição também reduz a atividade de uma proteína chamada mTORC1, que normalmente estimula o crescimento celular. (Getty Images)

Naty Falla
Naty Falla

Repórter

Publicado em 31 de julho de 2026 às 17h11.

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Prateleiras de supermercado estão cada vez mais tomadas por produtos "ricos em proteína". No entanto, estudos em animais sugerem que restringir o consumo da substância pode ser o que realmente ajuda a viver mais e envelhecer com mais saúde.

"Temos a impressão de que a proteína na dieta é uma espécie de coisa universalmente boa", disse Dudley Lamming, pesquisador da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, à NewScience.

Mas, segundo a mais recente revisão de estudos sobre o tema, conduzida por Lamming, consumir proteína além do necessário, especialmente por quem tem uma rotina sedentária, está associado a problemas metabólicos e à redução do tempo de vida.

Lamming e sua equipe analisaram mais de 300 estudos, a maioria feita com roedores sedentários, sobre os efeitos de restringir a proteína ao mínimo necessário para evitar deficiências nutricionais.

Nesses experimentos, os animais recebiam o equivalente ao mínimo recomendado pelas diretrizes americanas, 0,8 grama de proteína por quilo de peso corporal, ou o dobro disso, quantidade próxima ao que hoje é indicado para uma alimentação considerada ótima (entre 1,2 e 1,6 grama por quilo).

Em um dos estudos, ratos que consumiram a menor quantidade de proteína viveram quase 120 dias a mais, um aumento de mais de 50% na expectativa de vida, em comparação aos que ingeriram o dobro. 

Uma possível explicação, segundo Lamming, está no hormônio FGF21, que tem sua produção estimulada pela restrição proteica. Em roedores, esse hormônio atua no cérebro, no tecido adiposo e no fígado, melhorando os níveis de açúcar no sangue e reduzindo a quantidade de células senescentes, aquelas que param de se dividir e passam a provocar inflamação crônica no organismo à medida que se acumulam com a idade.

A restrição também reduz a atividade de uma proteína chamada mTORC1, que normalmente estimula o crescimento celular. Diminuir sua atividade, no entanto, favorece o reparo das células.

"Basicamente, isso muda as células de um estado proliferativo, de muito crescimento e metabolismo, para um estado de divisão mais lenta, ou nenhuma, com foco em reparo", explicou Lamming à revista NewScience, acrescentando que esse mecanismo reduziria o risco de doenças ligadas à idade e prolongaria a vida em camundongos.

Para Lamming, isso sugere que a tendência recente de aumentar o consumo de proteína pode até fazer sentido para quem pratica exercícios regularmente, já que o corpo precisa reparar o desgaste muscular, mas pode causar danos em pessoas sedentárias.

Nem todo mundo concorda

Nem todos os especialistas veem a questão da mesma forma. Em entrevista à revista NewScience, Donald Layman, da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, ponderou que roedores e humanos metabolizam proteína de maneiras muito diferentes. 

A proteína mTORC1, por exemplo, é ativada pela alimentação mas, enquanto pessoas costumam fazer poucas refeições grandes ao longo do dia, roedores comem com mais frequência e em porções menores. Isso, segundo ele, pode alterar significativamente os efeitos da restrição proteica de uma espécie para outra.

Layman lembra ainda que humanos estão expostos a fatores que aceleram o envelhecimento, como infecções e calor extremo, de forma muito mais intensa do que animais de laboratório. Ele também critica o fato de a revisão não incluir a maior parte dos estudos feitos em humanos que associam o consumo de proteína acima do mínimo a um menor risco de fragilidade física.

Lamming rebateu: segundo ele, nenhum estudo foi deixado de fora intencionalmente. "Nosso foco foi a restrição de proteína, não os diversos estudos sobre níveis mais altos de consumo", afirma.

Ele reconheceu que, além da construção muscular e da prevenção da fragilidade, as evidências sobre os efeitos de uma dieta rica em proteína no processo de envelhecimento ainda são mistas.

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