Ciência

QI antes do nascimento? Startups apostam em testes genéticos de embriões

Empresas oferecem exames para estimar riscos de doenças e outras características genéticas, mas especialistas questionam a precisão e a ética da tecnologia

Genética: especialistas discutem a eficácia e os impactos éticos da seleção de embriões com base no DNA

Genética: especialistas discutem a eficácia e os impactos éticos da seleção de embriões com base no DNA

Publicado em 16 de agosto de 2026 às 17h33.

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A possibilidade de escolher embriões com menor risco de doenças genéticas e até estimativas de inteligência, altura e longevidade já começou a ser oferecida por startups de fertilidade do Vale do Silício. A tecnologia, disponível durante a fertilização in vitro (FIV), reacende o debate sobre os limites da genética na reprodução humana.

Segundo informações do The Economist, empresas como Nucleus, Orchid e Herasight afirmam que conseguem analisar embriões para identificar predisposição a doenças hereditárias e estimar características influenciadas por múltiplos genes, como QI, estatura e até a cor dos olhos.

A tecnologia, porém, ainda gera controvérsias entre geneticistas, médicos e especialistas em bioética, que questionam tanto sua precisão quanto suas implicações éticas.

Como funciona a triagem genética de embriões

A seleção genética de embriões depende da fertilização in vitro, procedimento em que os embriões são formados em laboratório antes de serem implantados no útero.

Além dos testes já utilizados para detectar alterações cromossômicas (PGT-A) e doenças causadas por um único gene, como fibrose cística e doença de Huntington (PGT-M), algumas empresas passaram a oferecer o chamado PGT-P, um exame que avalia doenças e características influenciadas por centenas ou milhares de variantes genéticas.

Segundo as empresas, a tecnologia utiliza pontuações de risco poligênico, construídas a partir de grandes estudos de associação genômica (GWAS), para estimar a probabilidade de um embrião desenvolver determinadas doenças ao longo da vida e prever características como altura e desempenho cognitivo.

Mercado atrai mais investimentos

O interesse pelo setor aumentou nos últimos anos. De acordo com a PitchBook, os investimentos de capital de risco em empresas americanas de fertilidade passaram de US$ 254 milhões em 2019 para US$ 496 milhões em 2022, embora tenham desacelerado posteriormente.

A reportagem do The Economist destaca que os investidores Peter Thiel e Elon Musk passaram a financiar startups de fertilidade diante da preocupação com a queda das taxas de natalidade.

Hoje, apenas 2,8% dos bebês nascidos nos Estados Unidos são concebidos por fertilização in vitro, segundo dados de 2024 citados pelo jornal. Ainda assim, especialistas do setor acreditam que a redução dos custos da FIV poderá ampliar significativamente esse mercado nas próximas décadas.

Cientistas questionam precisão das previsões

Apesar das promessas das empresas, muitos pesquisadores afirmam que a capacidade de prever características complexas ainda é limitada. Isso porque atributos como inteligência, altura e risco para doenças comuns dependem da interação entre milhares de variantes genéticas e fatores ambientais, como alimentação, educação, estilo de vida e acesso à saúde.

Especialistas ressaltam que as pontuações de risco poligênico foram desenvolvidas para estimar tendências em grandes populações e que sua capacidade de prever características em um único indivíduo ainda é alvo de debate científico.

Um estudo publicado na revista Cell em 2019 estimou que, mesmo quando os pais podem escolher entre dez embriões viáveis, a seleção genética aumentaria, em média, cerca de 2,9 centímetros na altura prevista e aproximadamente três pontos de QI. Os próprios autores destacam que esses ganhos tendem a ser muito menores quando há menos embriões disponíveis — situação comum na fertilização in vitro, em que muitos casais obtêm apenas dois ou três embriões viáveis por ciclo.

Outro ponto levantado por especialistas é que variantes genéticas raras e fatores ambientais continuam exercendo influência importante sobre o desenvolvimento humano, limitando o poder preditivo desses testes.

Debate ético ganha força

Além disso, as críticas vão além das limitações científicas. Em diversos países, como o Reino Unido, a seleção de embriões para características físicas ou cognitivas é proibida por lei. Já nos Estados Unidos, onde a regulamentação é mais permissiva, o avanço desses testes tem alimentado discussões sobre bioética, desigualdade de acesso e possíveis riscos de uma nova forma de eugenia.

Especialistas também alertam para a pleiotropia, fenômeno em que uma mesma variante genética pode influenciar diferentes características biológicas. Isso significa que selecionar um embrião para reduzir o risco de determinada doença pode alterar, de forma ainda pouco compreendida, a probabilidade de outros efeitos sobre a saúde.

As empresas afirmam que seu principal objetivo é reduzir o risco de doenças e ampliar as informações disponíveis para futuros pais, e não criar os chamados "superbebês".

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