Ciência

Mistério resolvido: estudo revela como algumas rãs vencem fungo mortal

Estudo publicado na Nature Chemical Biology mostra que a proteção começa ainda na fase de girino e pode abrir caminhos para novos medicamentos

Sapo-parteiro-comum: Pesquisadores da University College London descobriram que o momento em que o sistema imunológico amadurece define as chances de sobrevivência de anfíbios infectados (jrubacha/Thinkstock)

Sapo-parteiro-comum: Pesquisadores da University College London descobriram que o momento em que o sistema imunológico amadurece define as chances de sobrevivência de anfíbios infectados (jrubacha/Thinkstock)

Publicado em 18 de julho de 2026 às 07h27.

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Após décadas tentando entender por que algumas populações de rãs e sapos conseguem se recuperar de uma das doenças mais devastadoras da história da biodiversidade, cientistas finalmente encontraram a resposta. Um estudo liderado pela University College London (UCL), em parceria com a Zoological Society of London (ZSL) e o Imperial College London, revelou que a chave para a sobrevivência está no momento em que o sistema imunológico desses animais amadurece. A pesquisa foi publicada na revista científica Nature Chemical Biology.

Os resultados ajudam a explicar por que algumas populações conseguem coexistir com o fungo Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), responsável pela doença conhecida como quitridiomicose, enquanto outras seguem em declínio até desaparecer.

O fungo que mudou a história dos anfíbios

O fungo Bd é considerado uma das maiores ameaças já registradas para anfíbios em todo o planeta. Ele ataca a pele de sapos, rãs e salamandras, comprometendo funções essenciais como o equilíbrio de água, sais minerais e eletrólitos do organismo. Em milhares de regiões, a doença provocou colapsos populacionais e extinções locais.

Os pesquisadores analisaram populações do sapo-parteiro-comum (Alytes obstetricans) em quatro lagos localizados nos Pireneus, entre França e Espanha. Todos os locais haviam sofrido surtos severos do fungo no passado. A diferença estava na resposta das populações: em três lagos, os animais haviam se recuperado mesmo com a permanência do fungo no ambiente. No quarto, a população continuava diminuindo e estava próxima da extinção.

A imunidade começa antes da metamorfose

A descoberta central do estudo mostra que os animais sobreviventes desenvolvem suas principais defesas imunológicas ainda durante a fase de girino.

Os cientistas concentraram a investigação nos peptídeos antimicrobianos, pequenas moléculas produzidas pela pele dos anfíbios que atuam como uma barreira natural contra microrganismos. Eles observaram que as populações recuperadas produziam esses compostos muito mais cedo, antes mesmo da metamorfose.

Quando os girinos se transformavam em adultos e passavam a ter pele rica em queratina, tecido utilizado pelo fungo para se estabelecer, seu sistema de defesa já estava preparado para enfrentar a infecção. Nas populações que continuavam em declínio, essa maturação ocorria mais tarde e em menor intensidade, reduzindo a capacidade de reação diante do patógeno.

Segundo o autor principal do estudo, Dr. Phillip Jervis, da UCL, do Instituto de Zoologia da ZSL e do Imperial College London, o trabalho mostra que a recuperação das espécies depende do momento em que a imunidade se fortalece. "Nosso estudo mostra que espécies que sofreram grandes declínios por causa dessa doença ainda podem se recuperar. Elas têm as ferramentas para combater a infecção. Tudo depende do momento em que essas defesas amadurecem", afirmou Jervis.

O pesquisador acrescenta que a equipe pretende investigar agora quais fatores aceleram ou retardam esse processo. "O próximo passo é descobrir o que impede esses sistemas imunológicos de amadurecer mais cedo. Isso pode estar relacionado à genética ou a fatores ambientais, como temperatura ou a presença de trutas, que podem levar os girinos a completar a metamorfose mais rapidamente", explicou.

Mais de mil moléculas nunca vistas

Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores. Utilizando espectrometria de massas, a equipe conseguiu mapear os compostos químicos liberados pela pele dos anfíbios.

Foram identificados 1.152 peptídeos, dos quais apenas sete já eram conhecidos pela ciência. A enorme diversidade surpreendeu os autores e amplia significativamente o conhecimento sobre o sistema imunológico natural desses animais.

Os dados mostraram que os girinos que apresentavam uma variedade maior desses peptídeos tinham muito mais chances de sobreviver mesmo vivendo em ambientes onde o fungo continuava circulando.

Descoberta pode inspirar novos medicamentos

Além da importância para a conservação da fauna, a pesquisa abre uma nova frente para o desenvolvimento de tratamentos contra infecções humanas.

A autora sênior do estudo, professora Alethea Tabor, do Departamento de Química da UCL, destaca que os peptídeos encontrados representam uma fonte inédita de moléculas com potencial terapêutico. "Descobrimos uma diversidade de peptídeos muito maior do que esperávamos. Agora precisamos entender como eles controlam os patógenos e identificar quais possuem atividade antimicrobiana", afirmou.

Ela lembra que diversos medicamentos importantes tiveram origem em compostos encontrados na natureza."Muitos remédios usados por humanos foram descobertos inicialmente no mundo natural. A penicilina veio dos fungos, por exemplo. Esses peptídeos representam novos candidatos que podem beneficiar a saúde humana, especialmente diante do crescimento da resistência aos antimicrobianos", disse Tabor.

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