Ciência

Planta carnívora confirma hipótese de Charles Darwin após 150 anos

Estudo revela que espécie do gênero Saxifraga atrai, captura e digere insetos, comprovando uma suspeita levantada por Darwin em 1875

Planta carnívora: a Saxifraga candelabrum captura insetos com pelos pegajosos e depois os digere (Xin-Jian Zhang/Divulgação)

Planta carnívora: a Saxifraga candelabrum captura insetos com pelos pegajosos e depois os digere (Xin-Jian Zhang/Divulgação)

Publicado em 15 de agosto de 2026 às 08h03.

Charles Darwin suspeitava, ainda no século XIX, que algumas plantas do gênero Saxifraga poderiam ser carnívoras. Na época, porém, ele não conseguiu reunir evidências suficientes para comprovar essa hipótese. Agora, cerca de 150 anos depois, cientistas demonstraram que o naturalista estava certo.

Em um estudo publicado na revista Nature Communications, pesquisadores identificaram que a espécie Saxifraga candelabrum atrai, captura, digere insetos e absorve os nutrientes provenientes dessas presas, preenchendo todos os critérios que definem uma planta carnívora.

Como a descoberta foi feita

A Saxifraga candelabrum cresce em regiões montanhosas do Planalto Qinghai-Tibete e das montanhas Hengduan, no sudoeste da China.

Os pesquisadores mostraram que a planta utiliza tricomas glandulares — estruturas semelhantes a pequenos pelos que liberam uma substância pegajosa — para prender pequenos mosquitos atraídos pelo aroma de suas flores. Depois da captura, a planta produz a enzima fosfatase, responsável por digerir os insetos.

Para confirmar que os nutrientes das presas eram realmente absorvidos, a equipe utilizou uma técnica de marcação isotópica com nitrogênio-15. O experimento mostrou que o nitrogênio presente nos insetos era incorporado aos tecidos da planta, demonstrando que ela obtém nutrientes diretamente das presas.

Hipótese de Darwin há um século e meio atrás

Em 1875, Darwin havia observado que espécies como Saxifraga rotundifolia e Saxifraga umbrosa possuíam tricomas muito parecidos com os encontrados em plantas carnívoras.

Embora essas estruturas conseguissem prender insetos, ele não conseguiu provar que as plantas também eram capazes de digeri-los e absorver seus nutrientes — requisito essencial para classificá-las como carnívoras.

Segundo os autores do novo estudo, a confirmação só foi possível graças a técnicas modernas de análise química, genética e rastreamento isotópico. A botânica Susan Myers, do Jardim Botânico de Pittsburgh, que não participou da pesquisa, afirmou que o trabalho confirma com tecnologia atual aquilo que Darwin havia deduzido apenas por observação.

DNA sugere que mais plantas carnívoras podem existir

Além dos experimentos, os pesquisadores compararam o DNA da Saxifraga candelabrum com o de outras plantas carnívoras. A análise revelou genes associados à atração de presas, digestão e absorção de nutrientes, características já compartilhadas por diferentes grupos de plantas insetívoras.

Quando ampliaram a investigação para outras espécies, os cientistas encontraram dezenas de genes relacionados à digestão de insetos, sugerindo que o carnivorismo pode ser mais comum entre as plantas com flores do que se imaginava.

Segundo o autor sênior do estudo, Hang Sun, da Academia Chinesa de Ciências, algumas espécies consideradas apenas "pegajosas" podem, na realidade, possuir mecanismos digestivos ainda não identificados.

Adaptação ajuda planta a sobreviver em solos sem nutrientes

A Saxifraga candelabrum vive entre 2.500 e 3.300 metros de altitude, em áreas rochosas e com baixa disponibilidade de nutrientes, sobretudo nitrogênio. Nesse ambiente, capturar pequenos insetos representa uma estratégia eficiente para complementar a nutrição.

Os pesquisadores também observaram que a planta atrai principalmente pequenos mosquitos, enquanto polinizadores maiores conseguem visitar suas flores sem ficarem presos nos tricomas pegajosos.

Segundo a equipe, a descoberta não apenas confirma uma antiga hipótese de Darwin, mas também amplia o entendimento sobre a evolução independente do carnivorismo nas plantas. Atualmente, são conhecidas mais de 750 espécies de plantas carnívoras, mas o novo estudo indica que esse número pode crescer à medida que outras espécies sejam investigadas com a ajuda de técnicas modernas.

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