Rachel Reid: autora dos livros que inspiraram a série viral conta que sofre de Parkinson e terá que atrasar o lançamento do próximo livro da saga (Getty Images)
Redação Exame
Publicado em 25 de fevereiro de 2026 às 06h59.
Última atualização em 25 de fevereiro de 2026 às 21h21.
Nos últimos dias, fãs da série "Heated Rivalry", adaptação televisiva canadense que virou fenômeno de cultura pop no final do ano passado, receberam uma notícia difícil.
Rachel Reid, pseudônimo de Rachelle Goguen, autora dos livros que originaram a série, anunciou em vídeo nas redes sociais que seus sintomas de Parkinson pioraram.
Por causa da doença neurodegenerativa, o lançamento do próximo livro da saga, "Unrivaled", foi adiado de setembro de 2026 para junho de 2027, pela editora HarperCollins.
"Quando coisas boas acontecem, às vezes o universo nos dá coisas piores para equilibrar, e para mim isso significou que meus sintomas de Parkinson pioraram um pouco e tornaram fisicamente difícil escrever", disse a escritora. "Definitivamente, estou muito mais lenta, e isso é algo com que preciso aprender a lidar e encarar, em vez de ignorar."
Reid recebeu o diagnóstico de Parkinson em 2023. A doença afeta diretamente a capacidade motora e a capacidade de concentração. Para uma escritora, isso representa um obstáculo concreto no próprio ato de trabalhar.
Mesmo assim, a autora garantiu que entregará o livro: "Acho que este livro valerá a espera", disse ela. "No fim das contas, será um livro muito melhor, e isso é o mais importante para mim."
Mas o que é exatamente o Parkinson, como ele progride e quais são as opções de tratamento disponíveis?
A doença de Parkinson é uma condição crônica, progressiva e degenerativa do sistema nervoso central.
Seu mecanismo central envolve a morte gradual de neurônios localizados em uma região do cérebro chamada substância negra. Essa área é responsável pela produção de dopamina, um neurotransmissor fundamental para o controle dos movimentos voluntários.
À medida que esses neurônios se deterioram e a produção de dopamina cai, o cérebro perde progressivamente sua capacidade de coordenar o movimento com precisão.
O resultado são os sintomas motores mais conhecidos da doença: tremor em repouso, lentidão dos movimentos (chamada de bradicinesia), rigidez muscular e instabilidade postural.
Mas o Parkinson não se limita ao corpo em movimento. A doença também provoca uma série de sintomas não motores que precedem muitas vezes os motores por anos: alterações no olfato, distúrbios do sono, constipação, depressão, ansiedade e, nos estágios mais avançados, comprometimento cognitivo e demência.
Estima-se que entre 25% e 40% dos pacientes com Parkinson desenvolvam demência ao longo da evolução da doença.
O Parkinson é mais comum do que muitos imaginam. A taxa de incidência global em pessoas com 40 anos ou mais é de aproximadamente 61 casos por 100 mil homens por ano e 37 por 100 mil mulheres, segundo o Ministério da Saúde. Esses números sobem acentuadamente com a idade: entre homens acima de 80 anos, chegam a 258 casos por 100 mil pessoas por ano.
No Brasil, um estudo conduzido em Bambuí estimou prevalência de 3,3% entre pessoas com mais de 64 anos.
Globalmente, a carga da doença mais que dobrou ao longo da última geração, impulsionada pelo envelhecimento da população e por fatores ambientais. Profissionais expostos a pesticidas, por exemplo, têm o dobro de risco de desenvolver a doença tardiamente.
A progressão do Parkinson é variável e não segue um roteiro único, porém, o Ministério da Saúde classifica os pacientes em três perfis:
Em termos práticos, a taxa estimada de morte dos neurônios dopaminérgicos na substância negra é de cerca de 10% ao ano. Isso significa que, com o tempo, novos sintomas emergem e a necessidade de medicamentos aumenta enquanto sua eficácia vai diminuindo.
Estudos epidemiológicos sugerem que o Parkinson reduz a expectativa de vida, com uma média estimada de 15 anos entre o diagnóstico e o óbito.
Um ponto importante: até o momento, não existe exame laboratorial ou de imagem que confirme o diagnóstico de Parkinson com certeza absoluta.
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na observação dos sintomas pelo médico especialista, guiado por critérios internacionais estabelecidos pela Movement Disorder Society (MDS).
A doença de Parkinson não tem cura. Até o momento, também não existe tratamento capaz de deter ou reverter a progressão da doença.
O que existe é um conjunto robusto de intervenções medicamentosas, cirúrgicas e de reabilitação para reduzir os sintomas, preservar a qualidade de vida e manter a funcionalidade pelo maior tempo possível.
No campo dos medicamentos, o principal e mais eficaz, para o Ministério da Saúde, é a levodopa, geralmente associada à carbidopa ou à benserazida. A levodopa funciona como um precursor da dopamina, ela atravessa a barreira que protege o cérebro e é convertida no neurotransmissor que os neurônios degenerados não conseguem mais produzir em quantidade suficiente.
Com o tempo e a progressão da doença, no entanto, o paciente pode desenvolver flutuações motoras (períodos em que o medicamento deixa de funcionar adequadamente) e discinesias (movimentos involuntários causados pelo próprio tratamento).
Para pacientes cujo controle medicamentoso se torna insatisfatório, existe uma alternativa cirúrgica: a estimulação cerebral profunda (DBS, na sigla em inglês).
O procedimento consiste no implante de eletrodos em regiões específicas do cérebro, conectados a um gerador que emite pulsos elétricos para modular a atividade neural.
O DBS não cura nem interrompe a progressão do Parkinson, mas pode reduzir significativamente os períodos em que o paciente fica sem resposta à medicação e as discinesias. É indicado apenas para casos selecionados.
Além das intervenções farmacológicas e cirúrgicas, o tratamento envolve uma equipe multiprofissional.
A fisioterapia tem papel central na manutenção do equilíbrio, da marcha e da força muscular. Há evidências de que técnicas como fisioterapia convencional, treino em esteira e Tai chi auxiliam no quadro.
A fonoaudiologia atua nos problemas de fala e deglutição, a terapia ocupacional ajuda a adaptar as atividades do dia a dia e a psicologia oferece suporte para os sintomas não motores, como depressão e ansiedade, que afetam a maioria dos pacientes em algum momento da doença.
Embora não haja tratamento preventivo estabelecido, há evidências de que o exercício físico regular traz benefícios tanto para retardar a progressão quanto para o bem-estar geral.
Dieta rica em antioxidantes, atividades cognitivas e sociais também são associadas à redução da velocidade com que a doença avança após o diagnóstico.