Ciência

O gêmeo maligno do placebo: entenda como o efeito nocebo se espalha na web

Expectativas negativas podem influenciar sintomas reais, enquanto relatos e informações sobre saúde ganham alcance nas redes sociais

Efeito nocebo: expectativas negativas podem influenciar a percepção de sintomas físicos (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Efeito nocebo: expectativas negativas podem influenciar a percepção de sintomas físicos (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Publicado em 28 de agosto de 2026 às 16h28.

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Uma expectativa negativa pode ser suficiente para fazer o corpo reagir. É o que acontece no efeito nocebo, fenômeno em que crenças, medos e percepções desfavoráveis podem contribuir para o surgimento ou agravamento de sintomas.

O efeito nocebo é considerado o contraponto do efeito placebo. Enquanto o placebo está associado a expectativas positivas que podem contribuir para uma melhora, o nocebo envolve expectativas negativas e pode aumentar a percepção de sintomas ou de efeitos adversos.

A influência pode aparecer em diferentes situações, incluindo tratamentos médicos. Um estudo publicado no JAMA Network Open analisou 12 ensaios clínicos de vacinas contra a Covid-19, com 45.380 participantes. Entre os grupos que receberam placebo, 35,2% relataram pelo menos uma reação sistêmica após a primeira dose.

Ao comparar os grupos, os pesquisadores estimaram que respostas associadas ao efeito nocebo correspondiam a 76% das reações sistêmicas registradas após a primeira dose e a 51,8% após a segunda. Dor de cabeça e fadiga estavam entre os sintomas mais frequentes.

Como o efeito nocebo afeta o organismo

O fenômeno ocorre quando expectativas negativas influenciam a maneira como o organismo percebe e responde a determinadas situações.

Uma pessoa que espera sentir dor, náusea ou cansaço pode ficar mais atenta aos sinais do próprio corpo. Sensações comuns também podem ganhar maior importância quando são associadas a um medicamento ou doença.

Os sintomas são reais, mesmo quando não existe uma alteração física capaz de explicar completamente a manifestação. Para isso, os pesquisadores estudam a participação de fatores como experiências anteriores, ansiedade e interpretação das sensações corporais.

Quando os sintomas se espalham

Em algumas situações, manifestações semelhantes podem surgir em várias pessoas de um mesmo grupo. Esse fenômeno é conhecido como doença psicogênica em massa.

A BBC Science Focus cita episódios históricos em que grupos passaram a apresentar sintomas semelhantes sem que investigações identificassem uma causa infecciosa, tóxica ou ambiental capaz de explicar todos os casos.

Um dos exemplos mencionados ocorreu na Bélgica, em 1999. Mais de cem crianças apresentaram dor de cabeça, palpitações e dor abdominal depois de consumir Coca-Cola.

A bebida chegou a ser retirada do mercado, mas as investigações não encontraram uma contaminação capaz de explicar o episódio.

O caso da Síndrome de Havana

A chamada Síndrome de Havana é outro episódio discutido no contexto da hipótese de doença psicogênica em massa.

A partir de 2016, diplomatas e agentes de inteligência dos Estados Unidos relataram sintomas como dor de cabeça, tontura, náusea, pressão nos ouvidos, problemas de equilíbrio e dificuldades de memória.

Uma das hipóteses levantadas foi a exposição a uma fonte de energia direcionada. A reportagem, porém, destaca que não existe uma explicação definitiva para todos os episódios.

O neurologista Robert Baloh, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, considera a doença psicogênica em massa uma possível explicação para o padrão observado em Cuba e em outros locais.

Redes sociais podem acelerar o fenômeno

A internet criou uma nova forma de disseminação desses episódios. Um vídeo sobre determinado sintoma pode alcançar milhares de pessoas e continuar disponível por tempo indeterminado.

O estudo menciona jovens que desenvolveram movimentos e vocalizações semelhantes a tiques depois de assistir a vídeos de pessoas que mostrava seus próprios sintomas.

A neurologista Kirsten Müller-Vahl, da Escola de Medicina de Hannover, acompanhou alguns desses pacientes. Segundo ela, os casos apresentavam características diferentes das normalmente observadas na síndrome de Tourette.

Durante a pandemia, clínicas de diferentes países também registraram aumento nos encaminhamentos de jovens com manifestações semelhantes. O fenômeno ficou conhecido como “tiques do TikTok”.

Conhecer o fenômeno pode fazer diferença

Um estudo publicado na revista Environmental Research avaliou o efeito de informações sobre supostos riscos do infrassom de turbinas eólicas. Os participantes foram informados sobre possíveis efeitos antes da exposição ao ruído. Durante o experimento, alguns relataram os sintomas.

Em uma etapa posterior, parte deles recebeu uma explicação sobre o efeito nocebo antes de ouvir novamente o mesmo ruído. Os sintomas retornaram aos níveis observados antes da exposição.

Os autores concluíram que explicar o mecanismo do nocebo pode reduzir sintomas atribuídos ao infrassom.

O resultado não significa deixar de informar sobre os riscos de medicamentos, vacinas ou tratamentos. A questão é apresentar essas informações de forma clara, sem transformar possibilidades em previsões de que determinado sintoma necessariamente ocorrerá.

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