A façanha de Piu ganha contornos ainda mais dramáticos ao encerrar um longo período de jejum para o esporte brasileiro (Wander Roberto/COB/Divulgação)
Repórter
Publicado em 28 de agosto de 2026 às 15h50.
Última atualização em 28 de agosto de 2026 às 15h58.
Alison dos Santos, o "Piu", vive o ápice de sua carreira nas pistas e consolida-se como um dos nomes mais atraentes para o mercado publicitário global após bater o recorde mundial dos 400 metros com barreiras na Diamond League.
O sucesso do velocista brasileiro é impulsionado por um portfólio de marcas e apoios institucionais de longo prazo. Essa estrutura financeira e técnica garante que o atleta de 2 metros de altura foque exclusivamente em quebrar barreiras e conquistar medalhas para o atletismo nacional.
Agora, o atleta pode seguir o exemplo de outros esportistas e capitalizar em torno de novas marcas, visando principalmente os Jogos Olímpicos de 2028, em Los Angeles. Para chegar lá e realizar o sonho de brigar pela medalha de ouro, ele precisa cumprir os critérios de qualificação estabelecidos pela World Athletics (Federação Internacional de Atletismo) e ser convocado pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB). Caso não alcance o índice exato na janela estipulada, o atleta pode se classificar pela posição no ranking global da World Athletics na sua modalidade, em que Piu já figura historicamente entre os melhores do mundo.
Historicamente, atletas do atletismo enfrentam barreiras para atrair e reter patrocinadores, uma vez que os investimentos de marketing das grandes empresas costumam se concentrar quase em sua totalidade no futebol. Sem a visibilidade midiática constante da grande mídia tradicional, a maioria dos competidores de modalidades olímpicas de base depende quase que exclusivamente de outros recursos.
Piu já pode ser considerado uma exceção, mas bem longe se comparado a outros esportistas. A parceria comercial mais antiga de Alison com marcas globais de material esportivo é com a alemã Adidas, que começou a patrociná-lo oficialmente no primeiro semestre de 2022. O contrato foi firmado justamente no ano em que Piu explodiu internacionalmente ao conquistar o ouro no Mundial de Eugene, nos Estados Unidos. Desde então, a marca das três listras fornece as sapatilhas personalizadas e as roupas de alta tecnologia que o corredor utiliza em seus treinos diários e nas principais competições ao redor do planeta.
O reforço financeiro privado mais recente no uniforme do atleta chegou em abril de 2026, quando a seguradora Allianz Brasil anunciou um contrato de patrocínio de longo prazo válido até o fim de 2029. O acordo faz parte da estratégia da companhia ligada aos Movimentos Olímpico e Paralímpico.
Além dos patrocinadores privados de sua imagem, Alison dos Santos conta com uma rede de apoio institucional e de formação que começou muito antes do estrelato mundial. O velocista compete no cenário nacional representando o Esporte Clube Pinheiros desde 2017.
“Alisson é mais um dos grandes atletas brasileiros que têm nos clubes uma base fundamental para sua formação esportiva. Hoje, ele é um dos principais velocistas do mundo, e muito disso se deve à infraestrutura de ponta oferecida no início de sua carreira, que proporcionou o suporte necessário para seu desenvolvimento e para que pudesse alcançar os principais palcos do esporte em seu auge”, diz Paulo Maciel, presidente do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), entidade responsável por contribuir para a formação de atletas em diversas modalidades olímpicas.
Já o Governo Federal apoia o atleta por meio do programa Bolsa Atleta desde meados de 2015, quando Piu tinha apenas 15 anos e conquistou seu primeiro grande resultado no Campeonato Brasileiro Mirim. Por fim, a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) e o Comitê Olímpico do Brasil (COB) completam essa base, gerenciando a logística internacional e as premiações por desempenho que coroam a trajetória do atleta.
Para especialistas em gestão e marketing esportivo, a procura por novas parcerias deve ser quase que automática neste momento, pois o recorde obtido nesta semana acontece já "visualizando" as próximas Olimpíadas, em 2028. Além disso, a imagem e o carisma de Piu fora das pistas também podem ser considerados um fator importante para a escolha de grandes empresas.
"Um recorde mundial transforma completamente o posicionamento de mercado de um atleta. O Alison passa a ser visto pelas marcas não apenas pelos resultados dentro das pistas, mas pela capacidade de inspirar pessoas, gerar identificação e representar valores como disciplina, superação e excelência. Com Los Angeles 2028 se aproximando, esse é um momento muito estratégico para a construção de novas parcerias, principalmente com empresas que buscam histórias autênticas e embaixadores com credibilidade", analisa Toninho Cecílio, sócio-fundador da AdSports, plataforma digital que conecta entidades e eventos esportivos a marcas interessadas em patrocínio.
Atualmente, Piu conta com 354 mil seguidores no Instagram e, apesar de ser um número pequeno, viu sua página crescer 10 mil inscritos nas últimas horas, o que pode representar também uma base para os patrocinadores que desejam tê-lo como garoto-propaganda.
Para Thales Rangel Mafia, gerente de Marketing da Multimarcas Consórcios, o recorde mundial muda a natureza do ativo que Piu oferece ao mercado. "No futebol, uma marca divide atenção com dezenas de estímulos dentro de uma mesma partida. No atletismo de elite, especialmente em uma prova decidida em menos de 46 segundos, a marca se associa a um feito único, com nome, data e propriedade histórica. Isso tem valor de posicionamento, e não apenas de exposição. O erro clássico do mercado é tratar o atleta olímpico como espaço de mídia e comprar centímetros de uniforme. Quem constrói contrato longo, com plano de conteúdo entre ciclos, presença nos treinos e conexão com a base da modalidade, captura um retorno que o logo em uniforme nunca entrega sozinho."
Alison dos Santos, conhecido popularmente como Piu, escreveu um dos capítulos mais importantes do esporte nacional ao quebrar o recorde mundial dos 400 metros com barreiras com o tempo de 45s80. O feito histórico aconteceu na icônica etapa de Zurique da Diamond League, na Suíça, onde o brasileiro superou seu principal rival na modalidade, o norueguês Karsten Warholm. Com uma reta final avassaladora, Piu reduziu em 14 centésimos de segundo a marca anterior, que pertencia ao próprio Warholm desde os Jogos Olímpicos de Tóquio.
Com este resultado, Alison atingiu o seleto patamar de ser apenas o quinto brasileiro na história a quebrar um recorde mundial adulto no atletismo. Ele agora integra uma galeria imortal de lendas nacionais ao lado de Adhemar Ferreira da Silva, Nelson Prudêncio e João Carlos de Oliveira (o João do Pulo) — todos atletas do salto triplo —, além do maratonista Ronaldo da Costa. Além disso, o paulista tornou-se o primeiro brasileiro a se estabelecer como recordista mundial em uma prova de pista.
A façanha de Piu ganha contornos ainda mais dramáticos ao encerrar um longo período de jejum para o esporte brasileiro. O país não via um de seus atletas quebrar um recorde mundial no atletismo há quase 28 anos. A última vez que um competidor do Brasil havia alcançado o topo estatístico da modalidade foi em setembro de 1998, quando Ronaldo da Costa cruzou a linha de chegada da Maratona de Berlim.
Piu conquistou sua primeira medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Lima, em 2019, quando ainda despontava na elite internacional da prova.
Nos anos seguintes, a evolução de Alison dos Santos foi meteórica. Faturou sua primeira medalha de bronze nas Olimpíadas de Tóquio, em 2021, sagrou-se campeão mundial em Eugene no ano de 2022 e repetiu o pódio olímpico com mais um bronze nos Jogos de Paris em 2024.