Marte: Perseverance guarda amostra que pode conter uma bioassinatura potencial (Nasa/Divulgação)
Redatora
Publicado em 13 de outubro de 2026 às 17h38.
Uma pequena amostra de rocha armazenada pelo rover Perseverance, da Nasa, pode ajudar a responder se Marte já abrigou vida. O material apresenta marcas que, na Terra, podem estar associadas à atividade de microrganismos.
Batizada de Sapphire Canyon, a amostra foi retirada de uma rocha chamada Cheyava Falls, na região de Neretva Vallis. O local abrigou rios que desaguavam em um antigo lago na Cratera Jezero há mais de 3 bilhões de anos.
A rocha chamou a atenção por apresentar pequenas manchas semelhantes às de um leopardo. Na Terra, estruturas parecidas podem surgir em sedimentos devido a reações associadas à atividade microbiana.
Por isso, cientistas consideram o material uma bioassinatura potencial. A classificação indica que as características podem ter origem biológica, mas também podem ser explicadas por processos químicos ou geológicos sem participação de organismos.
As características da rocha foram descritas em um estudo publicado na revista científica Nature e divulgado pela Nasa. As dificuldades para recuperar a amostra foram detalhadas pela CNN com base em entrevistas com pesquisadores ligados à missão Perseverance.
O problema é que os instrumentos do rover não conseguem determinar sozinhos qual das explicações está correta. Para chegar a uma resposta mais conclusiva, os pesquisadores precisam analisar a amostra em laboratórios na Terra.
O Perseverance coletou a Sapphire Canyon em julho de 2024 durante a exploração de uma antiga região fluvial de Marte. A amostra, aproximadamente do tamanho de um bastão de giz, foi retirada da Cheyava Falls, uma rocha coberta por pequenas manchas claras cercadas por bordas escuras.
Segundo o estudo, a rocha contém minerais e compostos associados a reações químicas que podem ocorrer na presença de matéria orgânica. Na Terra, alguns processos semelhantes podem estar ligados à atividade de microrganismos.
Essa combinação tornou a amostra relevante para a busca por possíveis vestígios de vida antiga em Marte. A presença dessas características, porém, não comprova que existiu vida no planeta. Processos não biológicos também podem produzir parte dos sinais observados.
Determinar qual dessas explicações corresponde ao que ocorreu na Cheyava Falls exige análises mais detalhadas.
O Perseverance pousou na Cratera Jezero em fevereiro de 2021 para investigar uma região que abrigou água líquida bilhões de anos atrás. Rochas formadas ou modificadas pela água podem preservar sinais químicos e minerais de ambientes que, no passado, poderiam ter sido habitáveis.
O rover consegue estudar a composição das rochas, identificar materiais promissores e armazenar amostras. Os instrumentos a bordo, entretanto, não foram projetados para realizar todas as análises necessárias para determinar se os sinais encontrados têm origem biológica.
Em laboratórios terrestres, os cientistas poderiam estudar a Sapphire Canyon com equipamentos mais sofisticados e diferentes técnicas. Mesmo assim, uma eventual análise na Terra não significa que a resposta será simples. Processos geológicos e químicos podem produzir características semelhantes àquelas associadas à atividade biológica.
O Perseverance já armazenou amostras de rochas, poeira e da atmosfera marciana em dezenas de tubos especiais. Parte desse material também foi depositada na superfície para eventual recuperação por uma missão futura.
A Nasa planejava trazer essas amostras por meio do Mars Sample Return, programa desenvolvido em parceria com a Agência Espacial Europeia (ESA).
O projeto, porém, enfrentou aumento de custos e dificuldades técnicas. Estimativas chegaram a apontar um custo de até US$ 11 bilhões, enquanto o retorno poderia ocorrer apenas por volta de 2040.
A proposta orçamentária da Nasa para o ano fiscal de 2026 indicou o encerramento do programa diante da inviabilidade financeira das arquiteturas avaliadas. A agência, no entanto, afirmou posteriormente à CNN que continua estudando alternativas para recuperar as amostras, incluindo possíveis contribuições comerciais e internacionais.
Não há, até o momento, um novo plano definido para trazer a Sapphire Canyon à Terra.
Enquanto o futuro das amostras do Perseverance permanece indefinido, a China desenvolve uma missão própria para coletar material de Marte. A Tianwen-3 tem como objetivo recolher amostras marcianas e transportá-las para laboratórios na Terra. Segundo informações reunidas pela CNN, o lançamento está previsto para 2028, com planos de retorno do material posteriormente.
A missão chinesa, porém, deverá explorar uma região diferente da Cratera Jezero. Dessa forma, as amostras não seriam equivalentes à Sapphire Canyon nem permitiriam determinar diretamente a origem das características encontradas na Cheyava Falls.
A Sapphire Canyon permanece especialmente relevante porque foi coletada em uma área que abrigou rios e um antigo lago há bilhões de anos. Se as marcas encontradas na rocha tiverem origem biológica, a amostra poderá fornecer evidências de que microrganismos existiram em Marte no passado.
Caso tenham origem não biológica, o material ainda poderá revelar detalhes sobre os processos químicos que ocorreram em um antigo ambiente com água.
Por enquanto, nenhuma das possibilidades foi confirmada. A amostra capaz de ajudar a esclarecer a questão já foi coletada. O principal obstáculo agora é trazê-la de Marte para análise na Terra.