Ciência

Macacos 'bêbados'? Frutas indicam caminho para teoria

Estudo sugere que consumo de frutas fermentadas por chimpanzés pode ter ligação com a evolução humana

Chimpanzés: metabólito do etanol é detectado em primatas selvagens após consumo de frutos naturalmente fermentados (Ian Waldie/Getty Images)

Chimpanzés: metabólito do etanol é detectado em primatas selvagens após consumo de frutos naturalmente fermentados (Ian Waldie/Getty Images)

Publicado em 26 de fevereiro de 2026 às 06h04.

Os chimpanzés ingerem álcool na natureza — e a evidência está na urina. Um estudo publicado na revista científica Biology Letters detectou subprodutos metabólicos do etanol em amostras coletadas de primatas no Parque Nacional de Kibale, em Uganda.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade da Califórnia, Berkeley, que já haviam estimado que algumas frutas consumidas pelos chimpanzés podem conter o equivalente a até duas doses padrão de bebida alcoólica (14 gramas de etanol). Para confirmar a ingestão real, os pesquisadores recorreram à análise de urina.

O que o estudo revelou

Durante 11 dias de trabalho de campo, a equipe coletou 20 amostras de urina de 19 chimpanzés identificados. O material foi analisado com tiras comerciais capazes de detectar etilglucuronídeo, um composto formado pelo organismo após a metabolização do álcool.

Das 20 amostras, 17 apresentaram resultado positivo para concentrações iguais ou superiores a 300 nanogramas por mililitro. Em testes com limite mais alto, 10 das 11 amostras analisadas indicaram níveis acima de 500 nanogramas por mililitro.

Em humanos, concentrações nessa faixa podem ser registradas após o consumo de uma ou duas doses padrão nas 24 horas anteriores. Segundo os pesquisadores, níveis semelhantes seriam esperados em chimpanzés que consumiram frutas levemente fermentadas ao longo do dia.

Machos e fêmeas apresentaram resultados positivos, embora os níveis negativos tenham sido proporcionalmente mais frequentes entre fêmeas e juvenis.

A hipótese do 'macaco bêbado'

Os cientistas associam os resultados ao consumo de frutas naturalmente fermentadas, como a maçã-estrela africana (Gambeya albida), comum na região estudada. A fermentação produz etanol, que passa a integrar a dieta dos primatas.

A chamada hipótese do "macaco bêbado" propõe que a capacidade de metabolizar álcool pode ter sido favorecida ao longo da evolução dos primatas, já que frutas maduras e fermentadas são fontes calóricas relevantes. Segundo essa teoria, a atração por odores associados ao etanol poderia ter representado vantagem adaptativa.

O estudo ainda não comprova se os chimpanzés selecionam intencionalmente frutas com maior teor alcoólico. Essa é apontada como a próxima etapa da pesquisa.

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