O implante tem aproximadamente o tamanho da cabeça de um alfinete e é inserido sob a retina (Science Corporation/Divulgação/Internet)
Redatora
Publicado em 27 de julho de 2026 às 16h43.
Última atualização em 27 de julho de 2026 às 16h48.
A empresa americana Science Corporation acaba de receber, na Europa, a primeira aprovação regulatória do mundo para um implante capaz de recuperar parte da visão em pacientes com uma das formas mais comuns de cegueira relacionada à idade. A chamada marcação CE libera a comercialização do dispositivo na União Europeia e no Reino Unido.
O produto, batizado de PRIMA, foi projetado para tratar a atrofia geográfica, forma avançada e irreversível da degeneração macular relacionada à idade (DMRI) seca, condição que afeta cerca de 8 milhões de pessoas no mundo e para a qual não existe hoje nenhum tratamento capaz de devolver a visão perdida - apenas medicamentos que retardam sua progressão.
Do tamanho aproximado da cabeça de um alfinete, o implante é inserido cirurgicamente sob a retina e opera em conjunto com um óculos equipado com câmera. Segundo informações da New Scientist, a câmera captura as imagens e as projeta sobre o chip usando luz infravermelha, um comprimento de onda invisível ao olho humano, o que evita interferência com a visão remanescente do paciente.
O chip converte essa luz em pulsos elétricos que estimulam diretamente células da retina chamadas bipolares, normalmente preservadas mesmo em quadros avançados de degeneração macular. Na prática, o dispositivo contorna os fotorreceptores (bastonetes e cones) já destruídos pela doença.
Os óculos geram a própria eletricidade a partir da luz captada, de forma similar a um painel solar, dispensando fonte de energia externa.
Os óculos usados em conjunto com o implante. (Science Corporation/Reprodução)
Os resultados divulgados vêm de um estudo de porte pequeno, publicado em outubro do ano passado, que apontou melhora na acuidade visual central em cerca de 80% dos casos. Segundo Frank Brodie, um dos pesquisadores envolvidos, os pacientes tratados passaram, em média, de uma acuidade de 20/200, limiar considerado de cegueira legal nos Estados Unidos, para cerca de 20/160.
Segundo os pesquisadores, a maior parte dos efeitos colaterais relatados esteve associada ao próprio procedimento cirúrgico e regrediu em até dois meses.
Médicos independentes ao estudo, no entanto, pedem cautela. À New Scientist, Sunir Garg, do Wills Eye Hospital, na Filadélfia, classificou o avanço como "impressionante", mas ponderou que ainda são necessários testes com um grupo maior de pacientes e dados de segurança de longo prazo antes de uma adoção mais ampla. Também não está claro, segundo ele, se o benefício se limita a um subgrupo específico de pacientes.
A marcação CE obtida pela Science Corporation é válida para a União Europeia e o Reino Unido, mas não representa aprovação em outros países. Nos Estados Unidos, o PRIMA recebeu da FDA (agência responsável por proteger e promover a saúde pública no país) as designações de "Dispositivo Inovador" e "Dispositivo para Uso Humanitário", categorias que aceleram o processo de revisão regulatória, mas que ainda não equivalem à liberação comercial no mercado americano.
Segundo Darius Shahida, executivo da Science Corporation, a empresa já selecionou centros médicos e treinou cirurgiões na Alemanha, com plano de iniciar os primeiros procedimentos comerciais na Alemanha e no Reino Unido ainda neste ano.
A companhia também investiga a aplicação do implante em outras doenças oculares, como a doença de Stargardt, que atinge principalmente a mácula. O Brasil, até o momento, não foi citado.