Ciência

Fungos mucilaginosos 'sem cérebro' desafiam o que se sabe sobre inteligência

Experimentos com organismos sem neurônios mostram capacidade de aprendizado, memória e adaptação, reacendendo o debate sobre os limites da cognição

Fungos mucilaginosos: organismos sem neurônios apresentam comportamentos que desafiam as definições tradicionais de inteligência (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Fungos mucilaginosos: organismos sem neurônios apresentam comportamentos que desafiam as definições tradicionais de inteligência (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Publicado em 13 de setembro de 2026 às 11h30.

Priorizar nos meus resultados Google
Tudo sobreNeurociência
Saiba mais

Um organismo sem cérebro e formado por uma única célula consegue encontrar alimentos, adaptar seu comportamento e até percorrer labirintos. Essas características colocaram os fungos mucilaginosos no centro de um debate sobre os limites da inteligência. A discussão foi abordada pelo The Guardian.

Um dos principais organismos estudados é o Physarum polycephalum, espécie que se tornou conhecida por apresentar comportamentos associados a aprendizagem, memória e tomada de decisões.

O interesse científico pelo organismo começou a crescer nos anos 2000, quando experimentos mostraram que ele conseguia encontrar caminhos eficientes em busca de alimento. Desde então, pesquisadores passaram a investigar como uma célula sem neurônios consegue responder a estímulos do ambiente.

Um organismo sem cérebro que encontra caminhos

O Physarum polycephalum pertence ao grupo dos mixomicetos, também chamados de fungos mucilaginosos. Apesar do nome popular, eles não são fungos.

O organismo pode formar uma estrutura única com muitos núcleos. Seu corpo cresce como uma rede de tubos de protoplasma, que transportam nutrientes e respondem às condições do ambiente.

Em 2000, o pesquisador Toshiyuki Nakagaki colocou o Physarum em um labirinto com alimento. O organismo conseguiu estabelecer uma conexão eficiente entre o ponto inicial e a fonte de alimento.

O resultado chamou atenção porque o caminho escolhido se aproximava da rota mais curta disponível. O experimento ajudou a transformar o Physarum em um modelo para estudar comportamentos sem sistema nervoso.

Fungos mucilaginosos também parecem guardar informações

Outros experimentos sugerem que o organismo consegue modificar seu comportamento com base em experiências anteriores. Chris Reid, pesquisador da Universidade Macquarie, investigou o uso da própria secreção do Physarum durante a exploração do ambiente. A hipótese é que o muco deixado pelo organismo funcione como uma espécie de registro espacial.

Em experimentos, o Physarum evitou áreas cobertas com sua própria secreção. O comportamento pode indicar que o organismo consegue distinguir regiões já exploradas de áreas ainda não percorridas.

Pesquisadores também observaram respostas antecipadas a estímulos repetidos. Em um experimento, o organismo recebeu rajadas de ar frio e seco em intervalos regulares.

Depois de algumas repetições, o Physarum reduziu sua movimentação no momento em que esperava o estímulo. O mecanismo responsável por essa antecipação ainda não é completamente compreendido.

A inteligência precisa de neurônios?

É nesse ponto que começa a principal divergência entre os pesquisadores. Durante muito tempo, a ciência associou cognição e inteligência ao funcionamento de neurônios e do cérebro. Essa perspectiva considera que processos como memória e tomada de decisões dependem de redes nervosas.

Outra corrente defende uma definição mais ampla. Para esses pesquisadores, formas básicas de cognição podem existir em organismos sem cérebro e até em células individuais.

A filósofa Pamela Lyon, da Universidade de Adelaide, chama essa posição de abordagem “biogênica”. O conceito propõe que capacidades relacionadas à cognição podem estar presentes em diferentes formas de vida.

Michael Levin, da Universidade Tufts, é um dos principais defensores dessa ideia. Para ele, células conseguem perceber o ambiente, responder a mudanças e resolver problemas em diferentes níveis.

Cientistas discordam sobre o uso da palavra 'inteligência'

A principal crítica não é necessariamente sobre o comportamento do Physarum. O problema está em como interpretar essas ações. O zoólogo Alex Kacelnik, da Universidade de Oxford, argumenta que termos como “cognição” possuem significados específicos. Aplicá-los indiscriminadamente a organismos sem cérebro poderia tornar o conceito menos preciso.

Outros pesquisadores também questionam experimentos que apresentam o comportamento do Physarum como uma forma de resolução de problemas. No caso do labirinto, por exemplo, o organismo não necessariamente “entende” a estrutura como um animal faria. Ele cresce por diferentes caminhos e depois mantém as conexões mais eficientes. Para críticos da interpretação cognitiva, esse processo pode ser explicado por propriedades físicas e químicas do organismo.

A discussão também envolve pesquisas sobre memória em células nervosas e outros organismos.

David Glanzman, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles, realizou experimentos com neurônios da lesma-marinha Aplysia. Seus resultados levantaram a hipótese de que determinadas informações associadas à memória podem persistir mesmo após alterações nas conexões entre neurônios.

Em outro estudo, sua equipe transferiu RNA de lesmas treinadas para animais que não haviam passado pelo mesmo treinamento. As lesmas receptoras apresentaram mudanças de comportamento após o procedimento.

Os resultados foram interpretados por Glanzman como evidência de que a memória pode envolver mecanismos celulares além das sinapses. A interpretação, porém, também provocou resistência entre outros pesquisadores.

Debate pode mudar a definição de inteligência

A discussão sobre os fungos mucilaginosos faz parte de uma questão científica mais ampla. Pesquisadores também investigam comportamentos complexos em plantas, bactérias, insetos e outros organismos.

O problema é estabelecer quais características realmente definem inteligência, cognição, memória e aprendizagem. Não existe consenso amplo sobre uma definição única capaz de abranger todos esses casos. Para os defensores de uma visão mais ampla, impor uma fronteira rígida entre organismos inteligentes e não inteligentes pode esconder mecanismos importantes da natureza.

Para os críticos, ampliar demais esses conceitos pode fazer com que qualquer resposta biológica ao ambiente seja chamada de cognição. O Physarum permanece, assim, no centro de uma pergunta que vai além dos fungos mucilaginosos. Entender como uma célula sem cérebro percebe o ambiente pode ajudar a esclarecer quantas formas diferentes de comportamento complexo a vida desenvolveu.

Acompanhe tudo sobre:Pesquisas científicasNeurociênciaBiologia

Mais de Ciência

Gosta de café bem quente? Hábito pode triplicar risco de câncer de esôfago, diz estudo

Novo 'interruptor' dos ossos pode abrir caminho para tratar osteoporose

Novo efeito do Ozempic: estudo encontra relação com menos crises de asma

Fumar para socializar? Estudo mostra que hábito traz mais solidão