Ciência

Estudo com mil ossos humanos revela canibalismo e rituais macabros na Espanha

Análise em três cavernas neolíticas aponta crânios usados como copos e restos fervidos; práticas alternavam massacres violentos e oferendas simbólicas

Copo de caveira: crânio humano modificado integra conjunto de restos analisados em cavernas neolíticas da Espanha (Antonio Rodríguez-Hidalgo/IAM-CSIC)

Copo de caveira: crânio humano modificado integra conjunto de restos analisados em cavernas neolíticas da Espanha (Antonio Rodríguez-Hidalgo/IAM-CSIC)

Publicado em 14 de setembro de 2026 às 05h00.

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Evidências de canibalismo encontradas em cavernas da Espanha indicam que a prática ocorreu em diferentes contextos durante o Neolítico. Um estudo com quase 1.000 ossos humanos identificou sinais associados tanto a episódios de violência quanto a possíveis práticas rituais.

A pesquisa analisou materiais das cavernas de Malalmuerzo, Carigüela e Majolicas, na província de Granada, no sul da Espanha. Segundo a Archaeology Magazine, uma equipe internacional combinou datação por radiocarbono com análises tafonômicas, que ajudam a investigar o que aconteceu com os restos após a morte.

Os pesquisadores buscaram marcas de corte, fraturas, golpes e dentes humanos. Também procuraram indícios de remoção de medula, fervura e danos deliberados aos crânios. Os resultados foram publicados no Journal of Archaeological Science.

Violência pode ter precedido o consumo de corpos

Em Malalmuerzo, os pesquisadores encontraram os sinais mais fortes de um episódio concentrado de violência. Os restos foram datados entre aproximadamente 5300 e 4950 a.C., durante o Neolítico Inicial. Entre os indivíduos representados estavam bebês, crianças e adultos.

Alguns ossos também apresentavam lesões provocadas por golpes no crânio. A combinação entre os traumas, as diferentes idades e a proximidade das datas sugere um acontecimento concentrado envolvendo violência entre pessoas. Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que um grupo tenha sido morto antes de alguns de seus integrantes serem consumidos.

Antonio Rodríguez-Hidalgo, do Instituto de Arqueologia de Mérida, destaca que evidências arqueológicas semelhantes podem estar associadas a realidades sociais muito diferentes. Por isso, as datas, o contexto de cada sítio e as marcas preservadas nos ossos são importantes para interpretar essas práticas.

Crânio humano encontrado em caverna na Espanha apresenta marcas de corte associadas ao processamento do corpo. Foto: Antonio Rodríguez-Hidalgo/IAM-CSIC

Crânio humano encontrado em caverna na Espanha apresenta marcas de corte associadas ao processamento do corpo. Foto: Antonio Rodríguez-Hidalgo/IAM-CSIC (Antonio Rodríguez-Hidalgo/IAM-CSIC)

Crânios foram transformados em ‘copos de caveira’

Em Carigüela, as evidências apontam para uma situação diferente. Os restos apresentam marcas de corte, fraturas e outros sinais de processamento de corpos em várias fases do Neolítico.

Dois crânios foram modificados para formar recipientes conhecidos como "copos de caveira". As evidências apontam para episódios repetidos, em vez de um único acontecimento.

Duas datações por radiocarbono sustentam essa interpretação. Uma terceira data, muito mais antiga, também foi obtida na caverna, mas é considerada mais difícil de interpretar.

Restos com pigmento vermelho sugerem possível ritual

A caverna de Majolicas reúne os vestígios mais recentes entre os três locais analisados. Os restos foram datados entre aproximadamente 3950 e 3760 a.C., durante o Neolítico Tardio.

Nesse caso, os ossos longos foram quebrados com menor intensidade do que nos outros sítios. Alguns restos humanos também apresentavam manchas vermelhas de cinábrio, um mineral raro associado a práticas simbólicas e mortuárias.

Diante dessas características, os pesquisadores consideram que Majolicas pode representar um cenário de tratamento ritual, e não um episódio relacionado à violência.

Canibalismo não foi prática contínua

O registro arqueológico europeu indica que o chamado canibalismo neolítico envolveu comportamentos diferentes e não ocorreu de maneira contínua.

As evidências aparecem concentradas em períodos separados, como no fim do sexto milênio a.C., em meados do quinto milênio a.C. e novamente perto do fim do terceiro milênio a.C., já próximo à Idade do Bronze.

A razão para essas recorrências ainda não é conhecida. O estudo relaciona esse padrão a mudanças nos grupos sociais, nas relações entre comunidades, em conflitos e em diferentes atitudes diante da morte e da violência.

Os ossos encontrados em Granada haviam sido escavados e estudados décadas atrás. Miguel C. Botella, um dos autores da pesquisa, já havia chamado atenção para as três coleções na década de 1970.

Mais de 50 anos depois, os mesmos restos foram analisados novamente com datação direta por radiocarbono e métodos tafonômicos modernos. As novas análises permitiram compreender melhor os diferentes contextos associados ao canibalismo nas três cavernas espanholas.

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