Múmias: pesquisadores analisaram a posição dos corpos para reconstruir séculos de reutilização da tumba egípcia (Universidade de La Laguna/Jared Carballo-Pérez)
Redatora
Publicado em 23 de agosto de 2026 às 09h05.
O interior de uma antiga tumba no Egito revelou que centenas de anos de reutilização não transformaram o espaço em um amontoado desorganizado de corpos. Ao contrário, pesquisadores descobriram que 16 múmias humanas, os restos mortais de pelo menos outras quatro pessoas e um cachorro mumificado foram depositados segundo uma lógica que preservava a memória dos sepultamentos anteriores.
A descoberta foi publicada pela revista Frontiers in Environmental Archaeology e resulta da análise da Tumba Tebana 209 (TT 209), localizada na Necrópole de Tebas, na margem oeste do rio Nilo, em frente à atual Luxor.
A tumba foi construída durante a 25ª Dinastia egípcia, entre 754 e 656 a.C., e continuou sendo utilizada até o período ptolomaico, entre 305 e 30 a.C.
Para entender como a câmara funerária foi utilizada ao longo dos séculos, os pesquisadores escavaram o local, fotografaram cada múmia e registraram detalhadamente a posição, a orientação e a relação entre os corpos e os objetos funerários.
Ao todo, foram identificados nove conjuntos de sepultamentos, compostos por enterros individuais e coletivos, além de objetos associados aos mortos.
Segundo o primeiro autor do estudo, Jared Carballo-Pérez, a distribuição dos corpos mostra que os novos enterramentos respeitavam aqueles realizados anteriormente, em vez de simplesmente ocupar qualquer espaço disponível.
Os pesquisadores observaram que a forma de utilizar a tumba mudou conforme diferentes períodos históricos.
Os primeiros indivíduos enterrados ocupavam áreas mais espaçadas e eram colocados dentro de caixões, acompanhados por redes funerárias, amuletos e objetos considerados valiosos, como ânforas fenícias. Segundo os autores, essas características sugerem que pertenciam a grupos de posição social elevada.
Com o passar do tempo, sobretudo entre o final da 25ª Dinastia e o período persa, a ocupação tornou-se mais intensa. Os corpos passaram a ser depositados nos espaços disponíveis e, em muitos casos, empilhados verticalmente para acomodar novos sepultamentos.
Além disso, os pesquisadores identificaram mudanças na posição dos corpos. Enquanto os indivíduos mais antigos costumavam ser enterrados com os braços estendidos, alguns sepultamentos posteriores apresentavam um dos braços dobrado ou ambos cruzados sobre o peito, na chamada posição osiriana.
Um dos achados que mais chamou a atenção da equipe estava em um conjunto funerário datado do período ptolomaico. No local, quatro múmias humanas e um cachorro mumificado foram encontrados empilhados, sendo o animal colocado diretamente sobre os corpos de um homem e de uma mulher.
Os pesquisadores afirmam que o significado desse enterro ainda não pode ser determinado com certeza. Para Carballo-Pérez, a posição do cachorro pode indicar uma relação próxima entre o animal e os indivíduos sepultados.
Já Molinero Polo levanta outra possibilidade: o cão poderia representar um elemento ritual, desempenhando simbolicamente o papel de psicopompo — um guia responsável por conduzir os mortos em sua jornada para a vida após a morte.