Ciência

Doentes eram excluídos na Idade Média? Descoberta revela outra realidade

Análise de quase mil esqueletos na Dinamarca indica que pessoas com doenças eram enterradas em áreas de prestígio

Castelos medievais: imagem ilustrativa da Idade Média (Divulgação/Divulgação)

Castelos medievais: imagem ilustrativa da Idade Média (Divulgação/Divulgação)

Publicado em 26 de março de 2026 às 21h14.

A forma como pessoas com doenças eram tratadas na Idade Média pode ter sido diferente do que sugere o imaginário popular. Um estudo publicado na revista científica Frontiers in Environmental Archaeology analisou cemitérios medievais na Dinamarca e identificou que indivíduos com lepra e tuberculose eram enterrados em áreas de alto prestígio, próximas a igrejas.

A pesquisa foi conduzida por cientistas liderados por Saige Kelmelis, da Universidade de Dakota do Sul, que investigaram o comportamento funerário em relação a doenças historicamente associadas ao estigma.

O que mostram os túmulos

Na Dinamarca medieval, o local de sepultamento estava ligado ao status social. Túmulos mais próximos de igrejas eram considerados mais valorizados e, em muitos casos, exigiam pagamento.

Ao analisar 939 esqueletos de cinco cemitérios — três urbanos e dois rurais —, os pesquisadores mapearam a posição das sepulturas e identificaram sinais de doenças nos ossos.

Os resultados indicam que indivíduos com lepra e tuberculose não foram sistematicamente enterrados em áreas menos prestigiadas. Em diversos casos, estavam nos mesmos espaços que outros membros da comunidade.

Como as doenças foram identificadas

A equipe utilizou marcas deixadas nos ossos para identificar doenças. A lepra pode causar lesões faciais e danos em extremidades, enquanto a tuberculose costuma afetar regiões próximas aos pulmões e articulações.

Além disso, os pesquisadores estimaram a idade dos indivíduos e compararam a distribuição das sepulturas em cada local analisado.

Diferenças entre cidades e áreas rurais

Os dados mostram que as cidades medievais apresentavam maior concentração de doenças, possivelmente devido à densidade populacional mais alta.

Mesmo assim, a relação entre enfermidades e posição do túmulo não foi consistente. Apenas no cemitério urbano de Ribe foi identificado um padrão: áreas de menor prestígio concentravam maior proporção de casos de tuberculose.

Segundo os pesquisadores, esse resultado pode estar relacionado à exposição à doença, e não necessariamente a práticas de exclusão social.

De acordo com Saige Kelmelis, o estudo contrasta com a ideia comum de que pessoas doentes eram isoladas após a morte. Ela afirma que, em muitas comunidades analisadas, os indivíduos foram enterrados junto aos demais, sem distinção aparente.

A pesquisadora também destaca que a tuberculose, por apresentar menos sinais visíveis, pode ter sido percebida de forma diferente em relação à lepra, que costuma causar alterações físicas mais evidentes.

Com isso, os autores apontam que nem todas as infecções deixam marcas nos ossos, o que pode limitar a identificação completa dos casos.

Segundo Kelmelis, métodos genômicos podem ampliar a compreensão sobre a presença dessas doenças nas populações analisadas.

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