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Cientistas da USP descobrem substância que evita evolução do Parkinson

Chamado de AG-490, composto impediu 60% da morte celular cerebral e poderá ser usado em futuros medicamentos
 (Getty Images/LPETTET)
(Getty Images/LPETTET)
Por Agência O GloboPublicado em 20/04/2022 11:07 | Última atualização em 20/04/2022 11:07Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) descobriram uma nova substância que impede o agravamento da doença de Parkinson. A novidade traz uma perspectiva promissora em direção à cura, afirmam os cientistas.

Publicada na revista Molecular Neurobiology, a pesquisa foi desenvolvida no Laboratório de Neurobiologia Celular, sob a coordenação do professor Luiz Roberto G. Britto, em conjunto com pesquisadores do Instituto de Química da USP e da Universidade de Toronto, no Canadá. No trabalho, os cientistas afirmam que a substância sintética à base da molécula tirfostina, chamada de AG-490, conseguiu diminuir cerca de 60% da morte celular cerebral em camundongos. O resultado ocorreu porque a substância conseguiu inibir o TRPM2 — um dos canais de entrada de cálcio nas células do cérebro.

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O Parkinson é caracterizado pela morte precoce ou degeneração das células na região do cérebro responsável pela produção de dopamina. A ausência ou diminuição deste neurotransmissor afeta o sistema motor, causando tremores, lentidão de movimentos, rigidez muscular, desequilíbrio, além de alterações na fala e na escrita. Há também sintomas não-motores, como alterações gastrointestinais, respiratórias e psiquiátricas, por exemplo. Até o momento, não há cura para a doença. O tratamento consiste em apenas controlar os sintomas.

“Os camundongos que não receberam a substância apresentaram um resultado 70% pior nos testes comportamentais”, afirmou Britto, em um comunicado à imprensa.

A estratégia, segundo ele, interferiu com uma das quatro vertentes conhecidas pela ciência pelas quais o Parkinson promove a morte dos neurônios. Entre as causas estão algumas disfunções metabólicas e acúmulo anormal de proteínas, a neuroinflamação do cérebro, o estresse oxidativo provocado pelo acúmulo de espécies reativas de oxigênio e o aumento na atividade dos canais de entrada de cálcio — que foi impedida no trabalho dos cientistas brasileiros.

“Em todas as células do organismo, quando esses canais estão muito ativos, a tendência é que ocorra uma sobrecarga de cálcio. Isso ativa uma série de enzimas que degradam as estruturas das células, levando à sua morte”, explica Britto.

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O estudo mostrou que, quando o canal de entrada de cálcio é bloqueado, a degeneração de neurônios, especificamente naquelas regiões onde os neurônios são mortos pela doença, diminui consideravelmente.

“O mesmo aconteceu nos locais onde aqueles neurônios se projetam e têm contatos sinápticos, o que ajudou a preservar a dopamina, um neurotransmissor fundamental para os movimentos, entre outras funções”, complementa o pesquisador.

Próximos passos

Os testes foram realizados em camundongos que receberam injeção da toxina 6-hidroxidopamina, que simula os efeitos da Doença de Parkinson. Os animais foram então divididos em dois grupos. Em um deles foi aplicada a substância AG-490; no outro, não. Após seis dias, passaram a ser realizados testes para avaliar a capacidade de equilíbrio e outros comportamentos motores dos animais. Depois de sacrificados, foi feita a contagem de neurônios que produzem dopamina na substância negra, que classicamente está envolvida com a Doença. A região onde elas se conectam, o estriado, também foi estudada em termos da presença de sinapses dopaminérgicas. Em ambas as regiões, houve menor prejuízo com a administração do AG-490, tanto em termos comportamentais como em termos do número de células e terminais degenerados.

Segundo Britto, antes de avançar para testes clínicos serão necessários muito mais estudos. “Para que tenhamos um fármaco à base de AG-490, precisamos ter certeza de que essa substância funciona depois da aplicação da toxina, já que por enquanto ela foi administrada ao mesmo tempo da injeção da toxina que produz o modelo de Parkinson. Vamos também testar animais geneticamente modificados para o TRPM2, esperando que eles sejam mais resistentes em termos da morte neuronal neste modelo. Além disso, é preciso estudar as possíveis consequências colaterais da injeção da substância.”

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O estudo é fruto de uma linha de pesquisa de Britto, que investiga o assunto há mais de dez anos. Esta etapa da pesquisa foi desenvolvida durante a tese de doutorado da bióloga Ana Flávia Fernandes Ferreira. Em um estudo anterior, feito pelo mesmo grupo, foi obtido um resultado similar com outra substância, o carvacrol, para bloquear outro canal celular, o TRPM7, que faz parte da mesma família de canais para o íon cálcio que o TRPM2.

Avanços nos estudos que buscam a cura da Doença de Parkinson são urgentes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a condição atinge 1% das pessoas com mais de 65 anos e chega a 4% entre a população com mais de 80 anos. Um estudo publicado na revista Lancet mostra que entre 1990 e 2015 os casos de Parkinson dobraram em virtude do envelhecimento da população mundial, saltando de cerca de 26 mil para cerca de 62 mil a cada um milhão de habitantes.