Cachorros: mudanças na regulação dos genes podem ajudar a explicar diferenças na longevidade (Getty Images/Getty Images)
Redatora
Publicado em 18 de outubro de 2026 às 17h07.
Cachorros de grande porte costumam viver menos do que cães pequenos, e uma nova pesquisa indica que parte dessa diferença pode estar relacionada a alterações na forma como o DNA funciona durante o envelhecimento.
Um estudo publicado na última quarta-feira, 8, na revista científica Science analisou modificações epigenéticas em quase 900 cães, incluindo animais de raça definida e vira-latas. Os resultados indicam que cachorros maiores tendem a apresentar uma idade biológica superior à idade cronológica.
A pesquisa foi coordenada por Noah Snyder-Mackler, da Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos, e identificou alterações em regiões do genoma associadas à instabilidade genética e ao desenvolvimento de doenças.
Para investigar o envelhecimento dos cães, os pesquisadores analisaram um processo chamado metilação do DNA. Esse mecanismo ocorre quando pequenas estruturas químicas, conhecidas como grupos metila, se ligam ao material genético e ajudam a regular a atividade dos genes.
Dependendo da região afetada, essas modificações podem reduzir a atividade de determinados genes sem alterar a sequência do DNA. Os padrões de metilação mudam ao longo da vida e podem fornecer informações sobre o envelhecimento biológico.
No estudo, os cientistas acompanharam amostras coletadas anualmente dos animais. Em alguns casos, os registros abrangeram quatro anos consecutivos. Com os dados, a equipe desenvolveu um relógio epigenético, ferramenta que utiliza as marcas químicas presentes no DNA para estimar a idade biológica.
O modelo apresentou uma diferença média de apenas 0,82 ano entre a idade estimada e a idade cronológica dos cães.Ao comparar os resultados, os pesquisadores observaram que cães de grande porte apresentavam, em média, uma idade epigenética mais elevada do que a esperada para seus anos de vida.
A tendência também foi identificada entre machos e cães de raça definida, embora diferentes mecanismos possam contribuir para essas diferenças.
Nos animais de raça, a seleção genética e os cruzamentos entre indivíduos aparentados podem aumentar a frequência de características hereditárias associadas a problemas de saúde. Já as diferenças entre machos e fêmeas podem envolver alterações epigenéticas no cromossomo X, segundo os pesquisadores.
A descoberta mais relevante para os cães maiores, porém, envolveu regiões específicas do DNA conhecidas como elementos transponíveis.
Os elementos transponíveis são sequências de DNA capazes de mudar de posição no genoma ou produzir cópias que se inserem em outras regiões do material genético. Por essa característica, também são conhecidos como genes saltadores.
Embora sua atividade nem sempre provoque danos, a movimentação dessas sequências pode interferir no funcionamento celular e contribuir para a chamada instabilidade genômica. Esse processo está associado a diferentes problemas de saúde, incluindo o desenvolvimento de alguns tipos de câncer.
Na pesquisa, os cientistas identificaram uma associação entre o envelhecimento de cães de grande porte e alterações epigenéticas relacionadas a esses elementos.
Segundo os resultados apresentados, a atividade de movimentação dessas sequências foi 31% maior nos cães grandes durante o envelhecimento, em comparação com os demais animais.
Os autores levantam a hipótese de que a seleção artificial utilizada para desenvolver raças maiores possa ter favorecido, indiretamente, características genéticas relacionadas a esse processo.
Os resultados oferecem novas pistas sobre as diferenças de expectativa de vida entre cães de tamanhos distintos.
A pesquisa também indica que o envelhecimento não depende apenas da idade cronológica, mas envolve mudanças moleculares que podem ocorrer em ritmos diferentes. Apesar da associação encontrada, o estudo não demonstra que as alterações epigenéticas sejam a única causa da menor longevidade dos cães grandes.
Fatores genéticos, características das raças e condições de saúde também podem influenciar a expectativa de vida. Os pesquisadores apontam que compreender essas mudanças poderá ajudar a investigar os mecanismos biológicos relacionados ao envelhecimento e à maior vulnerabilidade de determinados cães a doenças.