Ciência

Bebidas energéticas oferecem benefícios além da cafeína?

Categoria alcançou 38% dos lares em 2024 e atinge 22% dos brasileiros fora de casa, segundo a Kantar

Consumo de energéticos cresceu 54% no Brasil em 2023 (Pixabay/Reprodução)

Consumo de energéticos cresceu 54% no Brasil em 2023 (Pixabay/Reprodução)

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 13h50.

O consumo de bebidas energéticas tem crescido no Brasil. Segundo dados da Kantar, o número de consumidores aumentou 54% em 2023, e 22% dos brasileiros tomam essas bebidas fora de casa — comprando em supermercados, adegas e de vendedores ambulantes.

Jovens da Geração Z (1995-2010) respondem por até 60% do público consumidor de energéticos do Brasil, segundo a Times Brasil. Relatórios de mercado indicam que a preferência desse público se desloca para fórmulas com menor teor de açúcar e rótulos que destacam ingredientes que vão além do fator "energia", como a cafeína, e oferecem também "foco" e "bem-estar".

A estratégia comercial acompanha esse movimento: marcas passaram a destacar vitaminas do complexo B, aminoácidos e extratos vegetais como diferenciais. Especialistas ouvidos pelo New York Times, porém, apontam que há poucas evidências de que esses ingredientes ofereçam benefícios adicionais relevantes em comparação ao efeito da própria cafeína.

Cafeína é o principal efeito

As bebidas energéticas podem conter entre 100 mg e 300 mg de cafeína por porção, mais do que uma xícara de café preto. No entanto, as marcas atribuam esses efeitos a um "blend" de ingredientes, o que é contestado por especialistas.

É o caso do toxicologista Joe Zagorski, da Universidade Estadual de Michigan, que diz que há poucas evidências científicas de que vitaminas e aditivos presentes nos energéticos tragam benefícios adicionais à saúde. Para ele, muito provavelmente, "a grande maioria dos efeitos que você obtém de uma bebida energética se deve à cafeína".

Pode ser difícil avaliar a composição real dos energéticos porque parte dos produtos é vendida como bebida e outra como suplemento, o que implica em regras diferentes para rotulagem. Enquanto bebidas precisam informar os ingredientes, suplementos podem usar descrições genéricas, como "mistura energética" ou "mistura para foco", sem detalhar cada componente.

O que entra na fórmula?

A composição varia entre marcas, mas é comum a presença de extratos vegetais como guaraná, erva-mate e chá verde.

Segundo o cardiologista John Higgins, da Universidade do Texas em Houston, esses ingredientes podem atuar como estimulantes ou apenas acrescentar cafeína não contabilizada no rótulo. Isso eleva o risco do consumidor ultrapassar 400 mg por dia, limite máximo para a maioria das pessoas.

Algumas bebidas incluem ginseng e ginkgo biloba, que não são estimulantes, mas podem aumentar o fluxo sanguíneo. Combinados à cafeína, podem provocar efeitos adversos, como palpitações e elevação da pressão arterial, segundo a cardiologista Anna Svatikova, da Clínica Mayo.

Vitamina B

As fórmulas também costumam concentrar vitaminas do complexo B; em parte dos produtos, as doses superam o valor diário recomendado. No longo prazo, o consumo elevado pode estar associado a diferentes quadros, como hipotensão (pressão baixa) e danos ao fígado.

A maioria das pessoas, porém, obtém vitaminas B suficientes por meio da alimentação. Não há evidências de que consumir mais do que o necessário consiga aumentar a energia ou concentração.

Em casos de deficiência — mais comuns em idosos, pessoas com problemas gastrointestinais ou dietas restritivas —, a recomendação médica é o uso de suplemento específico, e não de bebidas energéticas.

Taurina e L-teanina

Aminoácidos como taurina e L-teanina aparecem em algumas marcas. Há evidências limitadas de que, combinadas à cafeína, possam melhorar desempenho físico, humor e foco, mas faltam estudos de maior escala e acompanhamento de longo prazo.

A taurina pode interagir com antidepressivos e outros medicamentos e, em pesquisas com animais, foi associada a arritmias quando combinada à cafeína.

Açúcar e risco metabólico

Parte das bebidas energéticas concentra altas quantidades de açúcar adicionado, que podem chegar a 60 gramas por porção. Diretrizes de saúde nos EUA recomendam limitar açúcares adicionados e evitar bebidas adoçadas. O consumo excessivo está associado ao aumento do risco de obesidade e comorbidades como diabetes e hipertensão.

Quem deve ter mais cuidado com os energéticos?

O consumo ocasional tende a não trazer problemas para adultos saudáveis, desde que haja atenção ao tamanho da porção, que pode concentrar múltiplas doses de cafeína e açúcar. Pessoas com doenças cardíacas, crianças, adolescentes e gestantes são mais sensíveis aos efeitos estimulantes.

Especialistas recomendam evitar misturar energéticos com álcool, que pode mascarar a sensação de embriaguez, e priorizar versões com menor teor de açúcar. Como alternativa, café e chá oferecem estímulo com melhor perfil de benefícios, segundo os especialistas ouvidos pelo NYT.

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