Ciência

Como atletas lidam com derrotas e frustrações após as Olimpíadas?

Psicólogos explicam por que o fracasso marca carreiras e como a resiliência é treinada ao longo dos Jogos

O que podemos aprender com a forma como atletas lidam com derrotas (picture alliance / Colaborador/Getty Images)

O que podemos aprender com a forma como atletas lidam com derrotas (picture alliance / Colaborador/Getty Images)

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 13h51.

A queda de Lindsey Jacobellis nos Jogos Olímpicos de Inverno de Turim, em 2006, virou um dos erros mais lembrados da história do snowboard cross. A atleta liderava a final quando tentou uma manobra na reta decisiva, caiu e perdeu o ouro.

O episódio passou a acompanhá-la ao longo da carreira e voltou a ser lembrado em todas as edições seguintes dos Jogos. É algo comum no esporte de alto rendimento: para cada medalha, há uma maioria de atletas que sai sem pódio e, até quem sobe nele, mas não vence, pode ficar intensamente frustrado.

O impacto da derrota vai além do universo olímpico, já que a frustração afeta pessoas em diferentes contextos. As estratégias usadas por atletas para lidar com esse sentimento ajudam a entender como enfrentar situações de pressão no dia a dia, segundo reportagem do New York Times.

Lidar com o fracasso faz parte

Especialistas ouvidos pelo jornal apontam que lidar com o fracasso é parte da carreira de atletas de elite. Para Michael Gervais, psicólogo que trabalha com esse público, muitos carregam um sonho desde a infância que "morre diante do mundo" quando o resultado não vem.

Já David Fletcher, professor de desempenho humano e saúde na Universidade de Loughborough, no Reino Unido, afirma que a principal diferença entre atletas de alto nível e "pessoas comuns" é que eles tendem a interpretar desafios como oportunidades de desenvolvimento, e não como ameaças.

Embora traços como otimismo e autoconsciência contribuam, os pesquisadores apontam que a resiliência não é apenas inata. Parte dela é construída com treino específico de habilidades mentais.

O que mais é possível fazer?

Segundo Jessica Bartley, diretora sênior de serviços psicológicos do Comitê Olímpico e Paralímpico dos Estados Unidos, os atletas são treinados para visualizar vitórias, mas também para imaginar falhas e planejar como reagir quando algo sai do controle. Tudo isso ajuda a reduzir o abalo emocional do momento e a acelerar a recuperação durante a prova.

Outra estratégia famosa é o diálogo interno. Gervais orienta atletas a preparar frases baseadas em evidências da própria trajetória. "Sou um competidor forte", por exemplo — bem como três experiências que comprovaram essa afirmação. "Precisa ser algo crível", disse ele.

Os especialistas ouvidos pelo NYT também destacam a importância de ampliar o sentido de propósito, já que os atletas que vinculam sua motivação apenas ao resultado tendem a sofrer impactos mais profundos diante da derrota. Metas ligadas ao processo ajudam a reduzir a sensação de fracasso quando o pódio não vem.

O planejamento para a vida fora das competições é outro elemento de proteção. O esquiador Ted Ligety, bicampeão olímpico, relatou ao New York Times que manter um negócio paralelo durante a carreira facilitou a transição após um desempenho abaixo do esperado nos Jogos de 2018. Ter projetos fora do esporte ajudou a reduzir o peso simbólico do resultado olímpico.

A rede de apoio também é apontada como fator central para lidar com a frustração. Michael Ungar, pesquisador da Universidade Dalhousie, no Canadá, destaca que o suporte de familiares, amigos e profissionais de saúde influencia diretamente a capacidade de recuperação emocional, especialmente em momentos de lesão ou exposição negativa.

Mesmo com estratégias de enfrentamento, psicólogos observam que a frustração dos atletas olímpicos pode ter efeitos duradouros. A decepção ativa áreas do cérebro associadas ao luto, e a recuperação emocional pode levar anos.

A trajetória de Jacobellis mostra como a preparação mental pode alterar o curso de uma carreira. Após desempenhos abaixo do esperado em 2010 e 2014, ela começou a investir em treinamento psicológico. Em 2018, voltou a uma final olímpica. Em 2022, aos 36 anos, conquistou duas medalhas de ouro, deixando para trás o ciclo marcado pela queda de 2006.

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