Lua: Nasa voltou à órbita do satélite neste ano (Nasa/Divulgação)
Repórter
Publicado em 7 de abril de 2026 às 05h43.
Na noite desta segunda-feira, 6, a Lua voltou a ser cenário de uma operação tripulada inédita em décadas. A cápsula Orion, com quatro astronautas a bordo, cruzou o espaço profundo e realizou sua passagem pelo satélite, repetindo — sob novas condições tecnológicas — um feito que não ocorre desde a era Apollo.
A aproximação marca o ponto central da missão Artemis II, lançada pela Nasa no dia 1º de abril. O voo, com duração prevista de cerca de dez dias, não inclui pouso, mas funciona como teste completo dos sistemas que deverão sustentar o retorno humano à superfície lunar ainda nesta década.
E, obviamente, levar humanos ao espaço não foi uma tarefa barata.
Segundo auditoria do Office of Inspector General (OIG) da Nasa, cada lançamento do conjunto SLS (Space Launch System) com a cápsula Orion custa cerca de US$ 4,1 bilhões. No agregado, o programa Artemis já consumiu aproximadamente US$ 93 bilhões entre 2012 e 2025, apontam as estimativas oficiais mais recentes da Planetary Society.
Os números refletem décadas de desenvolvimento. Desde meados dos anos 2000, foram investidos cerca de US$ 23,8 bilhões no SLS, US$ 20,4 bilhões na Orion e US$ 5,7 bilhões em sistemas terrestres, segundo dados compilados por organizações independentes.
A estrutura de custos difere de modelos comerciais recentes. O SLS utiliza contratos tradicionais com grandes fornecedores, o que eleva o custo por lançamento em comparação a foguetes reutilizáveis desenvolvidos pelo setor privado.
O financiamento da missão vem majoritariamente do orçamento federal dos Estados Unidos, via dotações da Nasa aprovadas pelo Congresso.
A cadeia industrial envolve múltiplos contratantes. A Boeing é responsável pelo estágio central do SLS, a Northrop Grumman produz os foguetes auxiliares, e a Aerojet Rocketdyne — hoje parte da L3Harris — fornece os motores RS-25. Já a Lockheed Martin lidera o desenvolvimento da cápsula Orion.
Parceiros internacionais participam com contribuições diretas em hardware. A Agência Espacial Europeia (ESA), por meio da Airbus, fornece o módulo de serviço europeu, responsável por propulsão, energia e suporte de vida. O Canadá, por sua vez, contribui com tecnologias e garante presença na missão.
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A missão Artemis II seguiu um perfil de voo semelhante ao das missões Apollo, com adaptações modernas. Após o lançamento, a cápsula Orion entrou em órbita terrestre em cerca de oito minutos.
A nave realizou duas órbitas ao redor da Terra — uma de aproximadamente 90 minutos e outra de cerca de 23,5 horas — antes da injeção translunar, manobra que a colocou em trajetória rumo à Lua.
O percurso até o satélite durou cerca de quatro dias. A nave realizou um flyby lunar, passando a aproximadamente 6.550 quilômetros da superfície, e retornou à Terra em uma trajetória de retorno livre, que utilizou a gravidade lunar para garantir o caminho de volta.
No total, a missão percorreu cerca de 1,12 milhão de quilômetros e atingiu uma distância máxima de 252.760 milhas da Terra, superando o recorde da Apollo 13.
O objetivo central foi validar sistemas de suporte à vida, navegação, comunicação e operação humana em espaço profundo.
A missão levou quatro astronautas: Reid Wiseman (comandante), Victor Glover (piloto), Christina Koch e Jeremy Hansen (especialistas de missão).
A composição marca uma mudança histórica. Trata-se da primeira missão ao entorno da Lua com uma mulher e uma pessoa negra.
Durante o voo, além de operar sistemas e executar procedimentos, a tripulação realiza experimentos sobre saúde humana, radiação e desempenho em ambiente de espaço profundo.
A Artemis II funciona como ponte entre o teste não tripulado da Artemis I, realizado em 2022, e futuras missões com pouso lunar, como a Artemis III.
O investimento elevado alimenta debates sobre custo-benefício. Críticos apontam que o valor por lançamento supera alternativas comerciais mais baratas. Por outro lado, a Nasa argumenta que o programa consolida infraestrutura estratégica para presença humana sustentável na Lua.
O projeto também tem dimensão geopolítica. Enquanto os Estados Unidos avançam com o Artemis, a China desenvolve sua própria base lunar em parceria com a Rússia.
A Artemis II, ao validar sistemas e cooperação internacional, estabelece as bases operacionais para essa nova fase. O sucesso da missão pode determinar o ritmo da exploração lunar — e o futuro de projetos que visam levar humanos a Marte nas próximas décadas.