Remakes de filmes e séries: há limite para troca de etnias?

Em Alta Fidelidade, a atriz negra Zoë Kravitz ocupa o lugar que foi de John Cusak e levanta a discussão

A série Alta Fidelidade, lançada e produzida pelo serviço de streaming norte-americano Hulu, rival da Netflix, teve uma curtíssima vida útil. Remake do filme de 2000, que, por sua vez, é baseado no best seller do britânico Nick Hornby, lançado em 1995, a série de dez episódios foi cancelada na primeira temporada, apesar da boa aceitação dos fãs e críticos e da aprovação de 86% no site Rotten Tomatoes. Mesmo durando apenas uma temporada, Alta Fidelidade trouxe novamente à tona, um assunto que sempre gera acaloradas discussões em produções audiovisuais: a troca de etnia e gênero em adaptações e remakes de filmes e séries.

Alta Fidelidade, a série, traz a atriz Zoë Kravitz (de X-Men Primeira Classe, Big Little Lies e franquia Divergente), uma mulher negra, reprisando o papel que no cinema foi do ator John Cusack, um homem branco. Na série, Zoë se chama Rob Brooks, e assim como o Rob Gordon do cinema, é aficionada por música e dona de uma loja de discos. A troca de gênero e etnia dividiu opiniões entre os fãs da obra original, o que leva ao questionamento sobre os limites para troca de étnicas em adaptações audiovisuais.

Para Raul Perez, roteirista e co fundador do Instituto Nicho 54, de formação e inserção de profissionais negros no audiovisual brasileiro e integrante do Porém Preto, podcast sobre cinema, cultura pop e negritude, existem duas discussões acontecendo e é preciso diferenciá-las para não criar uma falsa simetria e a ideia de que ela são lados opostos do mesmo debate: “De um lado, você tem personagens e figuras históricas originalmente negras, que são interpretados nas telas por atores caucasianos. Nesse caso, a discussão é sobre o apagamento de personalidades racializadas para atender ao que a indústria do cinema estabelece como o padrão, notadamente branco, cisgênero, heterossexual, masculino. É o chamado whitewashing, tornar personagens brancos para atender as demandas da indústria”.

O roteirista Raul Perez O roteirista Raul Perez, do Instituto Nicho 54: falsa simetria e duas discussões paralelas

O roteirista Raul Perez, do Instituto Nicho 54: falsa simetria e duas discussões paralelas (Divulgação/Divulgação)

Quando Raul cita o whitewashing no cinema, é possível lembrar imediatamente da adaptação cinematográfica de Othello feita em 1965, baseada na obra Otelo, O Mouro de Veneza de William Shakespeare, lançada em 1603. Na história, o personagem principal é um general mouro cristão do exército veneziano de pele escura. No filme, dirigido por Stuart Burge, Othello é interpretado pelo ator britânico Laurence Olivier, que faz uso da prática chamada blackface, ou seja, se pintou de preto por completo.

O ator Laurence Olivier O ator Laurence Olivier: blackface para interpretar o personagem negro Othello no filme de 1965

O ator Laurence Olivier: blackface para interpretar o personagem negro Othello no filme de 1965 (Divulgação/Divulgação)

Entretanto, quando a troca étnica é inversa, como foi o exemplo da série Alta Fidelidade, Raul compreende o outro lado da discussão. “Como roteirista, esta me parece uma chance de explorar novos caminhos para as subjetividades desses personagens. Quando você muda o gênero de um protagonista, você traz com ele outra bagagem de experiências. A mesma coisa quando você transforma um personagem branco em negro, novos atravessamentos surgem, que podem tornar a história ainda mais interessante.”

Para o casal Cal Alves e Felipe Gonçalves, produtores de conteúdo e idealizadores do canal de cinema e cultura pop Sessão Set, o caso específico de troca de etnia e gênero na série Alta Fidelidade é o que pode ser chamado de reparação histórica, considerando o baixo número de negros em produções cinematográficas durante décadas.“O argumento de que é preciso respeitar as origens da criação não deve ser mais um limitador, porque se formos adaptar à risca tudo o que foi criado no século passado, realmente os negros e latinos continuarão sem chance de fazer parte do audiovisual”, diz Felipe.

“A maioria esmagadora dos personagens protagonistas são homens e brancos, e por se tratar de uma adaptação, ou seja, uma versão daquela caracterização, pode-se corrigir isso nos próximos anos, como o que foi feito no caso dessa série”, completa Cal.

Os produtores Cal Alves e Felipe Gonçalves Os produtores Cal Alves e Felipe Gonçalves: reparação histórica

Os produtores Cal Alves e Felipe Gonçalves: reparação histórica (Weslei Mscedo/Divulgação)

A falta ou a ausência de pessoas negras e latinas no audiovisual é algo discutido e apresentado em números até hoje, como relembra bem Raul Perez. “O que vemos nas telas é também um reflexo da ausência de profissionais negros envolvidos nessas produções atrás das câmeras. A UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) fez uma pesquisa que aponta que só 5,5% dos filmes nos EUA foram dirigidos por pessoas negras em 2019”, afirma.

O cinema de super herói e a troca de etnias

Com a recente e precoce morte do ator Chadwick Boseman, no dia 28 de agosto, o assunto mais comentado nas redes sociais e na imprensa especializada, de modo geral, foi a forma como o seu personagem Pantera Negra, do filme lançado em 2018, sendo a 12ª maior bilheteria de todos os tempos com arrecadação de 1.349 bilhão de dólares, reforça o debate da importância da representatividade no cinema. “A história de Hollywood mostra como a indústria criou e reforçou estereótipos sobre mulheres, LGBTQI+, não-americanos. Pense em quantos filmes você já viu onde negros são figuras subalternizadas, criminosos, escravizados. Agora tente pensar em quantas super-heroínas negras e super heróis negros você lembra de ter visto no cinema antes dos anos 2000”, diz Raul.

Quando Hollywood voltou a investir de verdade em adaptações de histórias em quadrinhos, o filme que puxou a fila do hoje chamado cinema de super heróis, foi X-Men: O Filme, lançado em 2000, com a direção de Bryan Singer, e que no elenco contava com a atriz Halle Berry interpretando a mutante negra de origem africana Tempestade.

No ano de 2003 era lançada a adaptação de outro personagem dos quadrinhos da Marvel, o Demolidor. Se o personagem principal era vivido pelo ator Ben Affleck, uma outra escalação no elenco que chocou os fãs de quadrinhos foi a do personagem Wilson Fisk, conhecido também como o Rei do Crime. Se nas HQs o personagem era um mafioso e magnata branco, nas telas ele foi interpretado pelo saudoso Michael Clarke Duncan (À Espera de Um Milagre), como relembra Felipe Gonçalves.

“Eu lembro que fiquei ligeiramente incomodado com a escalação. Porém, ao assistir o filme e me deparar com uma qualidade de roteiro e produção de gosto altamente duvidoso, me surpreendi ao notar que uma das melhores coisas do filme é justamente a presença dele. Logo, com o passar do tempo, a gente nota que não existe mudança que não seja aceitável mediante a uma boa qualidade de atuação e de produção, de maneira geral”, afirma Gonçalves.

Outra troca de etnia no cinema de heróis, aconteceu em 2012, com a estreia do filme Vingadores, que reunia pela primeira vez nas telas o primeiro escalão de super heróis da Marvel. Na trama, o ator Samuel L. Jackson vivia o agente Nick Fury, que originalmente nos quadrinhos é um homem branco, que chegou a ter uma adaptação cinematográfica em 1998 com o ator David Hasselhoff no papel principal.

Para Cal Alves, a escalação de Samuel L. Jackson também foi certeira. “Primeiro que ela faz jus ao chamado Universo Ultimate da Marvel nos quadrinhos, que em 2001 criou um novo Nick Fury com as características do Samuel, e foi espetacular escolherem ele justamente pra interpretar esse papel. O Nick Fury do universo Marvel padrão é legal também, mas o Nick do Samuel é muito mais”.

Se as escolhas de Michael Clarke Duncan, Samuel L. Jackson e, posteriormente, também da atriz negra Teesa Thompson, que viveu a personagem Valquíria no filme Thor Ragnorok, que se passa no universo da mitologia nórdica, dividiram a opinião dos fãs que clamam por fidelidade nas adaptações, o mesmo crivo exigente não opinou quando a própria Marvel fez uso do whitewashing em 2013, ao escalar o ator Ben Kingsley para viver o vilão Mandarim no filme Homem de Ferro 3.

“Provavelmente foi a escalação mais problemática do universo cinematográfico da Marvel. O Mandarim nos quadrinhos é chinês, no filme eles tentaram transformar o personagem em um terrorista árabe e escalaram para o papel o Ben Kingsley que não é nem árabe e nem chinês, ele é britânico”, relembra Felipe Gonçalves.

Outro caso recente de troca étnica em adaptação de quadrinhos da Marvel ocorreu no recém lançado Os Novos Mutantes. Além de o filme amargar críticas negativas pelo roteiro inconsistente, sendo chamado pela crítica de “o pior X-Men de todos os tempos”, traz um caso de whitewashing ao escalar atores brancos para viverem dois mutantes originalmente negros. Nos quadrinhos, o personagem Roberto da Costa, conhecido como Mancha Solar, é negro, brasileiro e manifestou os seus poderes pela primeira vez, depois de sofrer racismo em uma partida de futebol, enquanto Cecilia Reyes é uma mutante negra nascida em Porto Rico.

Entretanto, Mancha Solar e Cecilia Reyes são interpretados pelos atores brasileiros Henry Zaga e Alice Braga, respectivamente. Ambos brancos. Para Raul Perez, pior que a escalação de dois atores brancos foi a defesa do diretor Josh Boone para o caso. “Ele disse que ‘quis encontrar um ator que se parecesse com alguém que cresceu em berço de ouro’, o que só mostra quanto os estereótipos negros estão arraigados no imaginário branco e que essa discussão precisa constantemente ser pautada”, afirma Perez.

Se a opotunidade de dois atores negros brasileiros estrelarem um filme hollywoodiano de super heróis não foi possível, Raul traz a explicação em dados. “Temos que entender que o contexto para mulheres e pessoas negras sempre foi adverso em Hollywood. E no Brasil, onde segundo pesquisa do GEMAA-UERJ (Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro), menos de 3% dos cargos de direção e roteiro estão nas mãos de profissionais negros, com um cenário ainda pior para mulheres negras. Por isso é importante diferenciar as discussões de quando um ator/atriz negro(a) reprisa um personagem branco, e quando ocorre o inverso”, afirma.

O ator Henry Zaga O ator Henry Zaga: no papel de um mutante negro em Mancha Solar

O ator Henry Zaga: no papel de um mutante negro em Mancha Solar (Divulgação/Divulgação)

Essa troca de etnia também acontece na concorrente DC Comics. Alguns fãs reclamaram da escalação da supracitada Halle Berry, que em 2004 colocou mais uma super heroína em seu currículo, ao viver a Mulher Gato, que originalmente é branca e foi eternizada por Michelle Pfeiffer em Batman - O Retorno (1992). Os mesmos fãs se revoltaram com o ator Laurence Fishburne interpretando o jornalista branco Perry White, do Planeta Diário, em o Homem de Aço (2013). Mas na adaptação dirigida por Zack Snyder eles não questionaram a escalação de Liam Neeson para viver o personagem Ra’s al Ghum no filme Batman Begins (2005).

“Originalmente, nos quadrinhos, o personagem Ra’s al Ghum é de origem iraniana, enquanto o Liam Neeson é um homem branco de origem norte-irlandesa” diz Cal Alves. Raul Perez salienta que o whitewashing em Hollywood não ocorre apenas com personagens historicamente negros. “Também acontece com personagens de origem asiática, indígenas e não-brancos no geral, que são interpretados nas telas por atores caucasianos”.

Isso não fica restrito apenas a filmes de super heróis, mas principalmente em produções baseadas em fatos, como é o caso do filme Argo, dirigido por Ben Affleck e vencedor do Oscar em 2013. Na trama, o próprio Ben Affleck interpreta o agente de alto nível da CIA, Antonio J. Mendez, que orquestrou uma ação de resgate de seis reféns americanos do Irã em 1980. Antonio é de origem mexicana, enquanto Affleck é um homem caucasiano de origem europeia mista.

A troca étnica no remake de Brooklyn Nine-Nine

Ainda sobre a fala de Raul Perez de que o whitewashing atinge também os personagens latinos, a aclamada série de comédia Brooklyn Nine-Nine, exibida no canal norte-americano NBC e no Brasil no canal Warner e também na Netflix, acaba de ganhar um remake canadense intitulado Escouade 99. Assim como na série original norte-americana, o remake se passa em uma delegacia e mostra as peripécias de um grupo de policiais.

Porém, um fato chamou atenção, inclusive do elenco original, a falta de diversidade étnica. Se no elenco original há duas policiais latinas, Rosa Diaz e Amy Santiago, interpretadas respectivamente pelas atrizes Stephanie Beatriz (nascida na Argentina) e Melissa Fumero (filha de pais cubanos), na versão canadense, as duas policiais são vividas por Mylène Mackay e Bianca Gervais, duas atrizes brancas.

Atrizes das duas versões da série Brooklyn Nine-Nine Atrizes das duas versões da série Brooklyn Nine-Nine: troca de etnia na versão canadense

Atrizes das duas versões da série Brooklyn Nine-Nine: troca de etnia na versão canadense (Divulgação/Divulgação)

Nas redes sociais, Melissa Fumero fez uma postagem em tom de deboche: "Estou curiosa a respeito da população latina em Quebec". Para Cal Alves, a crítica feita pela intérprete de Amy Santiago tem fundamento. “Negros e latinos fazem parte da sociedade americana e da maioria dos países do Ocidente. Logo, a Melissa Fumero, uma mulher latina, se sente incomodada com razão”.

Para Felipe Gonçalves, o incômodo deveria ser de todos. “Nós também nos incomodamos com esse tipo de coisa por não refletir a realidade, mesmo que de maneira ficcional. Acaba faltando verosimilhança e isso fecha as portas para atores negros e latinos interpretarem personagens que já foram de brancos a exaustão”.

Obrigado por ler a EXAME! Que tal se tornar assinante?


Tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo de seu dia. Em poucos minutos, você cria sua conta e continua lendo esta matéria. Vamos lá?


Falta pouco para você liberar seu acesso.

exame digital

R$ 9,90/mês

  • Acesse onde e quando quiser.

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.
Assine

exame digital + impressa

R$ 29,90/mês

  • Acesse onde e quando quiser

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

  • Edição impressa mensal.

  • Frete grátis
Assine

Já é assinante? Entre aqui.

Atenção! A sua revista EXAME deixa de ser quinzenal a partir da próxima edição. Produziremos uma tiragem mensal. Clique aqui para saber mais detalhes.
Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e, ao continuar navegando, você concorda com estas condições.