Por que Beyoncé é a rainha do pop (e do afrofuturismo)

Em álbum visual lançado pela plataforma Disney+, a cantora abraça a ancestralidade negra em conceito futurista

No último dia 30 de julho, a cantora norte americana Beyoncé lançou na plataforma de streaming Disney+ o álbum visual “Black Is King”. O lançamento tem rendido discussões, duas semanas depois. O filme musical, com duração 85 minutos, reconta a história do filme Rei Leão, com atores negros revivendo os personagens da trama. Curiosamente, a própria Beyoncé participou da versão live-action do filme, lançado em 2019, dando voz à personagem Nala, além de ter lançado um álbum musical com canções inspiradas no filme, The Lion King: The Gift (2019). E são justamente estas canções que permeiam durante todo o "Black Is King", exaltando a diáspora africana e reverenciando a ancestralidade negra.

Para contar esta história, a cantora utilizou-se de um movimento estético cultural chamado afrofuturismo, que apesar de estar em evidência atualmente, principalmente após o sucesso de bilheteria do filme "Pantera Negra", lançado em 2018, baseado no personagem negro das histórias em quadrinhos da Marvel, a estética afrofuturista é conhecida desde a década de 1960. Um dos precursores do afrofuturismo na cultura, foi o jazzista estadunidense Sun Ra (1914-1993), que nos anos 1960 fazia uma música futurista inspirada na “filosofia cósmica”.

Entretanto, a primeira vez que o termo afrofuturismo foi utilizado, foi na década de 1990, através do estudo “Black To The Future: Ficção científica e Cybercultura do século XX a Serviço de uma Apropriação Imaginária da Experiência e da Identidade Negra”, que apesar de ser de autoria do Mark Dery, escritor e crítico cultural de pele branca, ele contou com o auxílio de três intelectuais negros, os escritores Samuel Delany, Greg Tate e Tricia Rose. No texto, o autor questiona a ausência de negros na ficção científica, seja na direção, na produção e na atuação de filmes do gênero, e através deste estudo ele descobre obras de autores e artistas negros que trabalham a identidade do passado, reverenciando a ancestralidade, criando uma ideia de futuro.

Assim surge o termo afrofuturismo. Além da obra de Sun Ra, o estudo de Dery também reconhece o afrofuturismo nas obras da escritora Octavia Butler (1947-2006), considerada a primeira dama da ficção científica, além do músico George Clinton, fundador das bandas funk psicodélico Funkadelic e Parliament, nos anos 1970, e do rapper nova iorquino Afrika Bambaataa, que revolucionou o gênero com álbum "Planet Rock" (1986), com batidas eletrônicas futuristas influenciadas pelo grupo de música eletrônica alemã Kraftwerk.

 Para o escritor Ale Santos, autor do livro "Rastros de resistência: Histórias de luta e liberdade do povo negro", e também do conto afrofuturista "Cangoma" (2019) o afrofuturismo vai muito além de uma cerne exclusiva na literatura, na música ou no cinema: “O afrofuturismo surge como um movimento social e uma ação política de artistas negros. Ele, basicamente, traz a perspectiva negra, sob os aspectos da estética e sob os aspectos culturais da ancestralidade negra, para as discussões da ciência, para as discussões da ficção científica e para as discussões da tecnologia. Ele acaba utilizando tudo isso para produzir algumas narrativas, que questionam a sociedade, e que colocam o negro em um futuro que ele nunca foi imaginado para estar”.

Ale Santos: “O afrofuturismo surge como um movimento social e uma ação política de artistas negros” Ale Santos: “O afrofuturismo surge como um movimento social e uma ação política de artistas negros”

Ale Santos: “O afrofuturismo surge como um movimento social e uma ação política de artistas negros” (Ale Santos/Divulgação)

O filme "Pantera Negra" teve uma das maiores arrecadações da história do cinema, ocupando a 12ª posição das 100 maiores bilheterias mundiais, com um total de US$ 1.349 bilhões. Além disso, o filme saiu como um dos grandes vencedores do Oscar, em 2019, ganhando prêmios nas categorias de Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino, com o seu visual afrofuturista que mesclava artefatos tecnológicos com tradicionais vestimentas africanas. “O que Pantera Negra representa é o ápice do afrofuturismo e, principalmente, desta luta de vários nomes da indústria do cinema por demonstrar que filmes negros, feitos por negros, com temáticas e narrativas negras, eles tem tanto sucesso quanto filmes de ficção científica, totalmente ocupado por brancos, e inseridos no contexto de narrativas brancas”, afirma Ale.

Tanto "Black Is King", quanto "Pantera Negra" são duas produções cinematográficas feitas por negros. Para explicar essa relação, Ale Santos cita o autor Thomas Cripps e a sua obra "Black Film as Genre" (O Gênero dos Filmes Negros), de 1979: “Há uma variação do que seria filmes com negros e filme de negros. Quem faz essa variação é Thomas Cripps, dizendo que um ‘filme negro’ tem um produtor, um diretor, um escritor e um artista negro e ele fala com o público negro e, atingindo acidentalmente, também, o público branco. Mas o objetivo principal, é colocar o contexto de experiência de vida negra dentro destas obras. Iisso começou a crescer bastante após a década de 1990, quando começaram a ter mais oportunidades de ocupar estes espaços da ficção e da fantasia para narrativas negras”.

 "Black Is King" e a África que a história apagou

Sendo objeto de discussão desde o seu lançamento, "Black Is King" levantou questões acaloradas de alguns grupos, ao mostrar Beyoncé cantando sobre a ancestralidade negra,  enquanto trajava estampas de oncinha, em uma África revestida de luxo e riqueza. Entretanto, é preciso compreender que antes do período colonial e da invasão européia no continente africano, o mesmo era formado por reinos: “Antes da presença colonialista no século 16, e depois da segunda fase e mais aprofundada desse colonialismo sob bases imperialistas, no século 19, a África teve de fato grandes impérios, grandes reinos e também teve organizações tribais que sempre tiveram um patamar tecnológico e um desenvolvimento de técnicas autônomas, para viabilizar a sua existência, a sua produção e a sua sobrevivência”, diz o historiador Samuel Galiego.

Tanto que alguns reinos se destacaram e deixaram um legado tecnológico que está presente até hoje na prática e também em documentos e vestígios históricos: “O reino do Mali começou trabalhando a questão da astronomia, com os movimentos das estrelas sirius e sirius B, que depois foi instrumentalizada pelos egípcios e pelos etíopes. O próprio Egito trabalhou com a questão dos hieróglifos e dos mapas lunares para controlar as cheias dos rios, além da engenharia e das navegações, da qual eles são pioneiros também. A escrita e o sistema de alfabeto começa na Etiópia, a matemática tem origem nas tribos próximas do reino do Congo, através do Osso de Ishango. Além disso, você tem a metalurgia em Gana e no reino Banto do Congo e o conhecimento médico no Mali e no Egito”, completa Samuel.

Samuel Galiego: “A África teve grandes impérios, grandes reinos e também teve organizações tribais tecnológicas” Samuel Galiego: “A África teve grandes impérios, grandes reinos e também teve organizações tribais tecnológicas”

Samuel Galiego: “A África teve grandes impérios, grandes reinos e também teve organizações tribais tecnológicas” (DIvulgação/Divulgação)

Esse apagamento da história tecnológica negra na África, em que muito se assemelha ao conceito de afrofuturismo, se dá pelo processo de colonização no continente a partir do século 19: “Quando a Europa passa a avançar no litoral africano e fica incitando guerras por escravidão, submetendo diretamente a certos reinos, o complexo industrial europeu vai tomar a África e vai dividi-la, sob a alegação de que está levando progresso ao continente”, diz Samuel. Este “progresso” que tem como base a tecnologia industrial subordinou todo o território e os povos africanos: “De fato, a tecnologia européia chegou na África e ela passa a ter trem e máquinas, mas a grande questão é que isso não foi realizado no interesse dos africanos, isto foi realizado no interesse de viabilizar o escoamento de riquezas da África para acumulação de capital européia”, finaliza Samuel.

O legado de Black Is King e a genialidade de Beyoncé

Nas canções de "Black Is King", Beyoncé canta a origem negra no mundo, canta sobre ancestralidade e louva as religiões de matriz africana, além de exaltar o empoderamento feminino e tratar de temas profundos com o colorismo (as diferentes pigmentações na etnia negra) na canção "Brown Skin Girl", que conta com a participação especial da sua filha Blue Ivy Carter,

Aliás, outro ponto alto de "Black Is King" são as contribuições musicais, que trazem ainda mais pluralidade musical ao álbum visual, além dos artistas norte americanos, Childish Gambino, Pharrell Williams, Kendrick Lamar e do rapper, e esposo de Beyoncé, Jay-Z, o disco traz participações de artistas africanos como Wizkid, Shatta Wale, Burna Boy, Salatiel, Tekno, Tiwa Savage, entre outros. Diante de todos esses conceitos, a cantora foi aclamada nas redes sociais recebendo o título de gênia e autora de uma obra “revolucionária”. A curadora, pesquisadora e artista visual Ana Beatriz Almeida, rechaça esse elogio: “A Beyoncé não é uma artista genial, mas ela é uma grande empresária, uma das melhores mentes do mercado. Ela pressupõe demandas, que de fato surgem, e a partir desta escuta ela consegue produzir um material que o público realmente precisa. Então ela antecipa necessidades e esta capacidade dela a torna uma grande empresária como a apresentadora Oprah Winfrey, e uma grande estrategista política como a Michelle Obama”. À respeito da alcunha “revolucionária” que o filme musical recebeu, Ana Beatriz, que inclusive escreveu uma análise detalhada sobre "Black Is King" aqui, afirma: “Todos os movimentos feitos agora são automaticamente revolucionários, porque a gente vive hoje uma revolução racial. O fato de eu, uma mulher negra, dar esta entrevista, é um ato revolucionário. Nós precisamos democratizar a revolução”.

Ana Carolina Almeida: “A Beyoncé não é gênia, mas ela é uma grande empresária” Ana Beatriz Almeida: “A Beyoncé não é uma artista genial, mas ela é uma grande empresária”

Ana Beatriz Almeida: “A Beyoncé não é uma artista genial, mas ela é uma grande empresária” (Divulgação/Divulgação)

Apesar do filme contar com a assinatura de Beyoncé como diretora, o filme é dirigido pelo ganês Kwasi Fourdjour, que já trabalhou com a artista no clipe da canção "Drunk In Love" (2013), e co-dirigido pelos também ganeses, Emmanuel Ajei e Blitz Bazawule, em parceria com os nigerianos Jenn Nkiru e Ibra Ake. Para Ana, isso dá muito mais tônica ao filme, do que chamá-lo de afrofuturista: “Quando a gente tem um diretor ganês, como o Fourdjour, trabalhando em parceria com mais dois ganeses, sendo eles as cabeças pensantes do filme, a gente precisa lembrar que Gana teve Kwame Nkrumah (um dos fundadores do Pan-Africanismo, primeiro-ministro entre 1957 e 1960 e presidente de Gana de 1960 a 1966), ele é o cara que vai tornar Gana o que ela é hoje, ele é a grande referência de Gana, fazendo o país ter uma narrativa própria de descolonização, que nada mais é que um movimento de escala global antirracista. Então a gente precisa sair desta narrativa norte-cêntrica de que a única referência que a gente tem é o afrofuturismo, o Nkrumah é muito anterior ao conceito de afrofuturismo. Então não dá pra dizer que 'Black Is King' não debate racismo, e nem que ela é afrofuturista”, afirma Ana Beatriz.

Em trabalho voltado para as minorias, Ana Beatriz disse apenas sentir falta de uma representatividade no filme: “Não há presença de trans, travestis e não tem uma representação visualmente e simbolicamente das mulheres lésbicas no vídeo, sendo tudo muito heteronormativo. O que eu considero um problema, dentro desta disputa de narrativa de herdar um mundo democraticamente, ainda mais considerando que se trata do público que movimenta a economia da Beyoncé. Portanto faltou a representatividade delas”.

Para a consultora política Mariana Janeiro, o filme demonstra um grande amadurecimento da Beyoncé, não apenas como artista, mas, principalmente, como ativista da causa negra: “A Beyoncé demorou muito para se dizer negra e, principalmente, para se assumir como uma artista negra, porque ela sabia da dificuldade que isso traria. Ela foi boicotada no 'Lemonade', por, justamente, se dizer negra e por levar a pauta do movimento negro para as suas  músicas”. Lançado em 2016, "Lemonade" foi o primeiro álbum da cantora a usar do recurso do álbum visual. Na sequência, a artista ainda trabalhou com o esposo Jay-Z, no álbum visual "Everything Is Love" (2018), assinando como The Carters: “Eu vejo o 'Lemonade' como um aprendizado dela na história da militância dos Panteras Negras e da história do apartheid norte-americano, já o álbum dos Carters trata-se de uma exaltação à negritude e, por fim, o 'Black Is King' é um caminho de aprendizado para as nossa raízes, retomando a ancestralidade”.

Mariana Janeiro: “Black Is King demonstra um grande amadurecimento da Beyoncé, não apenas como artista, mas, principalmente, como ativista da causa negra” Mariana Janeiro: “Black Is King demonstra um grande amadurecimento da Beyoncé, não apenas como artista, mas, principalmente, como ativista da causa negra”

Mariana Janeiro: “Black Is King demonstra um grande amadurecimento da Beyoncé, não apenas como artista, mas, principalmente, como ativista da causa negra” (Divulgação/Divulgação)

Sem citar o afrofuturismo como referência, Mariana relembra outra artista, que também teve uma trajetória musical forjada na militância negra e que deve ter inspirado o novo direcionamento artístico de Beyoncé: “Quando eu vejo uma mulher negra como Beyoncé utilizando de toda a plataforma midiática, além do poderio de dinheiro, para fazer militância, me lembra muito da Nina Simone. Porque houve uma época, na década de 1960, em meio à luta dos direitos civis, ela dedicou tudo que fazia artisticamente para o movimento negro, porque ela entendeu a urgência de usar a voz dela e de usar os privilégios que ela conseguiu, através justamente do dinheiro, para a luta antirracista”.

Quanto às críticas que o filme tem recebido, Mariana é bem pontual: “O desconforto das pessoas brancas é pelo fato deles não serem o foco dela no momento. Tudo isso que a Beyoncé faz hoje, é justamente para o público negro”, diz, ressaltando mais uma vez o amadurecimento da artista ao longo da carreira: “Quando a gente olhava pra Beyoncé em clipes de hits como "Crazy In Love" (2003), ou até mesmo, anteriormente, na sua carreira com as "Destiny's Child", era uma coisa de gente negra fazendo música para pessoa branca, com uma hipersexualização tanto nas letras quanto no visual. Mas agora que ela faz uma coisa de negro para negro, as críticas estão postas”.

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