Os russos comem hambúrguer de luvas; devemos seguir o exemplo?

Quase sempre, elas são feitas de uma borracha sintética chamada nitrilo; Moscou começou hábito para comer hambúrgueres

Moscou – Quando você chega à casa de alguém em Moscou, tira os sapatos; quando vai ao teatro, tem de deixar o casaco na chapelaria; quando come hambúrguer, tem de calçar luvas.

Uma vez que a Europa Oriental, em geral, leva muito a sério as normas de higiene, muita gente ali considera falta de educação e porquice comer o sanduíche com as mãos. A solução costumava ser garfo e faca, mas a pandemia parece ter acelerado uma tendência que despontou há um ano: se você pedir um hambúrguer de Kiev, na Ucrânia, a Kamchatka – e, se bobear, em Brighton Beach, no Brooklyn –, há grandes chances de receber um par de luvas descartáveis com o prato.

Quase sempre, elas são feitas de uma borracha sintética chamada nitrilo. E no Black Star Burger, que lançou o fenômeno em Moscou, em 2016, são pretas, embrulhadas individualmente em pacotinhos de plástico. Na filial de Kiev, elas são verdes (ou rosa no Dia dos Namorados). No Butterbro, um gastropub em Minsk, na Bielorrússia, vêm embrulhadas discretamente dentro do guardanapo ao lado do prato, feito do tronco de freixo.

“Acho que as luvas são tão essenciais que deveriam ser um acessório obrigatório de qualquer lanchonete ou hamburgueria. O que me surpreende é saber que nem todo estabelecimento em todo país oferece”, confessa a gerente do Butterbro, Alina Volkolovskaya.

Para os visitantes norte-americanos, o hábito sempre parece estranho, beirando a heresia; entretanto, este mês, com o fim do bloqueio na capital russa, saí para comemorar – apesar de nervoso – com um cheeseburger para viagem e, de repente, a coisa meio que fez sentido.

Encontrei um banco ao sol ao longo do calçadão, abri a embalagem e, equilibrando-a no colo, abri o frasco de álcool gel e esfreguei nas mãos com força. Mesmo assim, imaginando os vírus minúsculos agarrados à minha mão, pela primeira vez fiz uso das tais luvas de nitrilo.

“Não vou dizer que sou um gênio, mas é uma sacada bem conveniente, bem prática”, disse-me mais tarde o fundador do Black Star Burger, Yuri Levitas.

Garçom com roupa de proteção no Black Star Burger, em Moscou

Garçom com roupa de proteção no Black Star Burger, em Moscou (Sergey Ponomarev/The New York Times)

Na verdade, quanto mais tempo se leva para comer, mais esquisita é a sensação: as mãos começam a suar, o molho grudado na luva causa uma sensação gelada desagradável e lamber os dedos se torna uma opção cada vez menos tentadora. Conversei com George Motz, um especialista em hambúrgueres de Nova York, e ele foi categórico em afirmar que as luvas nos negam a “experiência extremamente sensorial” de comer o dito sanduíche.

“Tire as luvas e chegue perto do seu hambúrguer! A sensação e o toque fazem parte da mordida; você tem de sentir o pão, o calor da carne. Tem de criar uma conexão com o que está prestes a saborear”, ensina Motz.

Já os especialistas em segurança alimentar de restaurantes norte-americanos ficaram intrigados, pois nunca ouviram falar de algum estabelecimento que oferecesse luvas descartáveis. Duvidam que a moda pegue nos EUA – afinal, pelo que se sabe, o coronavírus não se dissemina por meio da comida –, mas alguns disseram que, usadas da forma correta, elas podem, sim, ajudar a proteger de vários vermes aqueles que não lavam as mãos.

“Elas podem ser benéficas no caso de o consumidor não ter condição nenhuma de lavar as mãos”, diz Robert Williams, professor associado de microbiologia alimentar da Virginia Tech.

Em Moscou, onde o prefeito mandou que os habitantes usassem luvas em março, como medida de contenção do coronavírus, o número de restaurantes que servem hambúrguer à moda norte-americana está caindo. A cadeia BB&Burgers, por exemplo, apesar de já servir o sanduíche embrulhado em papel-manteiga e cortado ao meio, deve passar a oferecer luvas também, segundo uma porta-voz.

“Continuamos a acreditar que a melhor forma de comer um hambúrguer é com as mãos, com direito a molho escorrendo e tudo; devido à pandemia, porém, é claro que algumas mudanças tiveram de ser feitas”, confirma o diretor de marketing, Valentin Mitrofanov.

Mas foi a vaidade, e não a preocupação com a saúde, que propagou a modinha do sanduba com luvas: Levitas, do Black Star Burger, recrutou Timati, astro do rap russo com ligações no Kremlin, para dar peso de celebridade à sua nova hamburgueria, que hoje conta com 67 endereços espalhados pela antiga União Soviética e um em Los Angeles.

Timati se derreteu pelo acessório em cor preta, classificando-o no feed de sua conta no Instagram como “a experiência mais importante” do Black Star Burger, em meio a fotos de pranchas de surfe e jatinhos particulares. “Você não fica com as mãos cheirando a hambúrguer”, comemorou com seus milhões de seguidores quando o primeiro endereço abriu as portas, em 2016.

A seguir, foi a vez de Ramzan Kadyrov, o homem forte e abrutalhado da Tchetchênia, a dar seu testemunho sobre a suculência do hambúrguer no Instagram. “As luvas ajudam o cliente do Black Star a se sentir especial”, observa Levitas, como as estrelinhas que são acesas quando os garçons servem o sanduíche “VIP”, de US$ 11.

As luvas provaram ser imunes até à política: um restaurateur de Kiev, Gennady Medvedev, disse ter tido a ideia de oferecer o acessório com hambúrguer independentemente do Black Star Burger, anos depois de ter inaugurado sua cadeia Star Burger na capital ucraniana, no início de 2014 – durante a revolução anti-Putin de seu país.

“Não gosto de comer com as mãos, principalmente hambúrguer. Foi uma forma de ampliar nosso alcance para incluir aqueles que, como eu, preferem comer o sanduíche de talher”, afirma ele.

A moda pegou por trás da Cortina de Ferro, quando começaram a surgir lanchonetes em uma região que só foi conhecer o sanduíche depois da chegada do McDonald’s, nos anos 90. O moscovita Alexander Monaenkov, dono de um bar/hamburgueria em Praga, conta que oferece o acessório para evocar o refinamento dos garçons de luvas brancas dos restaurantes sofisticados do “Guia Michelin”. Mais prática, Corina Enciu, nascida na Moldávia, mas dona de um estabelecimento em Cracóvia, na Polônia, diz que passou a oferecer luvas porque a casa não tinha lugar para os clientes lavarem as mãos.

“Agora, com a história do coronavírus, essa é uma coisa de que o pessoal vai começar a fazer questão porque está com medo de se infectar, e por isso vai querer as luvas ou usar álcool gel”, comentou Enciu.

Gera Wise, nascido em Kiev, mas dono de um café e uma casa noturna no bairro de Brighton Beach, reduto russo do Brooklyn, diz que os clientes começaram a pedir luvas depois de terem visto Timati usando.

Logo depois, seus garçons passaram a oferecer a versão preta para todo mundo que pedia hambúrguer. “É sensacional poder se sentar aqui, de luva, comendo um hambúrguer, para ver e ser visto; parece que você está em Moscou.”

Motz, o especialista, conta que só tinha ouvido falar do fenômeno em lanchonetes na Polônia e na Rússia – e duvida que a moda pegue nos EUA, mesmo com toda a preocupação atual com a higiene, porque “os norte-americanos levam a cultura do hambúrguer muito a sério”.

De fato, Williams, da Virginia Tech, garante que o conceito não surgiu em nenhuma de suas inúmeras conversas sobre a adaptação à pandemia com restaurantes e lanchonetes.

As luvas não são necessariamente mais higiênicas que uma boa lavada nas mãos; além de tudo, geram lixo, observam os estudiosos. Sem contar que o funcionário vai reembalá-las e entregá-las ao cliente, o que pode representar outra via de transmissão. Entretanto, sabe-se que as pessoas disseminam o vírus principalmente pelo ar e, segundo a FDA (agência que controla a qualidade dos alimentos e remédios nos EUA), não há evidências de que o vírus se espalhe por intermédio da comida ou de alimentos embalados.

“O que não quero é que as pessoas fiquem tão preocupadas em comer de luvas que se esqueçam de que a maior parte do risco vem da proximidade de outras pessoas”, diz Donald Schaffner, professor de ciência alimentar da Rutgers.

Mas Isaac Correa, chef porto-riquenho que morou vinte anos em Moscou, acredita que o princípio tem futuro em âmbito global. Ele trabalhou com Medvedev em Kiev para abrir a cadeia Star Burger. “A princípio achei a ideia hilária, mas aí percebi que fazia sentido dentro de uma cultura que supervaloriza a limpeza e vê o comer com as mãos com maus olhos.”

Hoje dono de um restaurante em Sarasota, na Flórida, Correa percebe que seus clientes hesitam em pegar o cardápio e em entrar para retirar os pedidos.

“Até vejo alguns dos meus clientes dispostos a experimentar comer de luvas, mas quer saber? Eu, pessoalmente, adoro meter a mão no hambúrguer”, conclui.

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