Tarcísio de Freitas: “Se quiser carimbar de vermelho, não importa” (Celso Silva / Governo do Estado de SP/Flickr)
Repórter
Publicado em 18 de agosto de 2026 às 19h21.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), defendeu nesta terça-feira, 18, uma postura "pragmática" na política e usou o projeto do túnel Santos-Guarujá para fazer uma crítica indireta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Durante a 27ª Conferência Anual do Santander, evento voltado a investidores e lideranças do mercado financeiro, Tarcísio afirmou que, em projetos de interesse público, pouco importa quem ficará com o crédito pela realização da obra.
Ao relembrar uma conversa com Lula sobre o projeto no litoral paulista, contratado no início do ano, o candidato à reeleição disse ter defendido que o projeto fosse conduzido pelo governo paulista, sob o argumento de que São Paulo teria condições de viabilizá-lo mais rapidamente que a União.
"Presidente, eu vou falar para você o seguinte", disse o chefe do Executivo paulista, ao reproduzir sua conversa com Lula. "A gente tem que fazer o leilão do túnel e nós temos seu poder concedente por uma razão. A gente consegue fazer e você não."
Segundo Tarcísio, a diferença estaria nas garantias necessárias para uma parceria público-privada (PPP), na necessidade de autorização legislativa e nos prazos de análise dos órgãos de controle. "Estamos falando de uma parceria público-privada e, como é parceria com a iniciativa privada, a gente tem que apontar garantia. A União sempre tem dificuldade de apontar garantia. São Paulo tem uma empresa garantidora e essa empresa está capitalizada", disse.
O governador também afirmou que São Paulo já teria a autorização legislativa necessária para o projeto, enquanto a União precisaria de aval do Congresso. Outro ponto citado pelo republicano foi a análise dos tribunais de contas. "O senhor vai ter que submeter ao TCU [Tribunal de Contas da União], que todas as desestatizações passam pela análise prévia do TCU. E nessa brincadeira você vai perder meses. Aqui em São Paulo, o TCE faz análise a posteriori, então ganhamos prazo", afirmou.
Ao comentar a negociação, Tarcísio aproveitou para ironizar uma eventual disputa política pelo mérito da obra."E quanto mais rápido a gente fizer, mais rápido a gente inicia a obra, mais rápido a gente atende o cidadão. E aí o senhor bota na propaganda que fez, não importa, a gente tem que fazer. Se quiser carimbar de vermelho, botar três estrelas na entrada do túnel, não vai fazer nenhuma diferença para nós. A gente tem que tocar esse negócio", afirmou.
O governador relatou ainda que, diante da decisão de avançar com o projeto, a discussão passou a ser sobre como viabilizar a obra.
Na avaliação do governador, o episódio representa a visão pragmática que, segundo ele, deveria orientar a política brasileira. "O túnel está contratado. A obra vai começar, vai virar uma realidade, dinheiro está aportado", disse.
O governo de São Paulo assinou o contrato da PPP do Túnel Santos-Guarujá no final de janeiro com o grupo português Mota-Engil. O projeto prevê quase R$ 7 bilhões em investimentos e contempla a construção de um túnel de 870 metros sob o canal portuário, com três faixas por sentido, passagem para pedestres e ciclistas e galeria de serviços.
O contrato tem duração de 30 anos e inclui as etapas de operação e manutenção da infraestrutura. A previsão é de que a produção dos módulos de concreto comece em 2027, com a montagem da estrutura imersa até 2030. A conclusão da obra e o início da operação estão previstos para 2031.
O leilão foi realizado na B3 em setembro de 2025 e vencido pela Mota-Engil, com desconto de 0,5% sobre a contraprestação pública máxima anual de R$ 438,3 milhões. A licença ambiental prévia também já foi emitida pela Cetesb.
Em junho, a Autoridade Portuária de Santos (APS) e o Governo de São Paulo assinaram um termo de compromisso que estabelece as regras para o depósito dos R$ 2,6 bilhões do governo federal nas obras do Túnel Imerso Santos-Guarujá. O investimento total previsto para a obra é de R$ 6,8 bilhões.
A expectativa é que a obra reduza para até cinco minutos o tempo de travessia entre Santos e Guarujá. Atualmente, a ligação rodoviária tem cerca de 40 quilômetros e pode levar aproximadamente uma hora.
A defesa do pragmatismo apareceu em uma fala mais ampla de Tarcísio sobre a disputa presidencial e o cenário político brasileiro. O governador questionou quais projetos para o país estarão efetivamente colocados na eleição e defendeu que candidatos apresentem propostas concretas para temas como responsabilidade fiscal e segurança jurídica.
"A gente está indo para uma eleição presidencial. E a pergunta que eu faço é: qual o plano de Brasil que está na mesa? O que está realmente na mesa? Como é que a gente vai atacar? Qual a nossa capacidade de estabelecer consenso acerca de um grande tema?", questionou.
O governador também afirmou que o Brasil perdeu capacidade de construir consensos políticos e relacionou essa dificuldade à desorganização institucional. "Talvez a última vez que o Brasil teve capacidade de estabelecer uma visão consensual, enfrentou um inimigo de forma conjunta, tenha sido o enfrentamento da hiperinflação, tenha sido do Plano Real".