Casual

O valor milionário por trás da restauração um superiate clássico

Malahne, Christina O e outros clássicos mostram o preço de devolver a vida a embarcações que atravessaram guerras, décadas de abandono e trocaram várias vezes de dono

Iate clássico ancorado, com casco branco, detalhes em madeira e bandeira grega no mastro (DIvulgação)

Iate clássico ancorado, com casco branco, detalhes em madeira e bandeira grega no mastro (DIvulgação)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 12 de julho de 2026 às 09h28.

Tudo sobreIates
Saiba mais

Em Porto Hércules, em Mônaco, dezenas de iates modernos disputam espaço com cascos menores, forrados de teca e latão, que parecem pertencer a outra época. São eles que prendem o olhar de quem caminha pela marina, mesmo cercados por embarcações maiores e mais tecnológicas.

"Cada iate clássico tem sua própria personalidade, história e presença", diz Hemmo Bloemers, diretor de correspondência da Roccabella Yachts ao Financial Times. "Eles chamam atenção em qualquer porto e oferecem uma autenticidade cada vez mais rara hoje em dia."

Os anos de ouro da construção naval

A maioria dessas embarcações remanescentes foi construída entre as décadas de 1920 e 1930, encomendada por magnatas da indústria, donos de veículos de comunicação e figuras políticas de peso. Poucas sobreviveram até hoje, e as que restam se tornaram ativos raros e disputados. "Há algo especial em ter um iate bonito dos anos 1930", diz Nicholas Edmiston, fundador e presidente da corretora de iates que leva seu nome.

Poucas embarcações têm uma história tão rica quanto a do Malahne. Construído em 1937 pelo estaleiro Camper & Nicholsons, o iate de 50 metros foi feito para o empresário William Lawrence Stephenson, que comandava as operações da rede Woolworth no Reino Unido. Stephenson usava a embarcação para viajar entre o Mediterrâneo e Nova York antes da Segunda Guerra Mundial, período em que o Malahne chegou a participar da evacuação de Dunkirk. Sobrevivente do conflito, foi comprado em 1960 pelo produtor de cinema Sam Spiegel, vencedor de múltiplos prêmios da Academia, que o usou como escritório flutuante por 23 anos. A bordo do Malahne, Spiegel recebeu nomes como Elizabeth Taylor, Grace Kelly, Kirk Douglas, Frank Sinatra e Jack Nicholson.

Do casco vazio à restauração completa

Iate restauração

Vista aérea do convés de popa com piscina, área de estar coberta e bandeira içada na proa (DIvulgação)

"Embora ela tivesse se deteriorado ao longo dos anos, tive a sorte de encontrar um proprietário disposto a encarar o desafio", conta Edmiston, que conduziu a restauração do Malahne a partir de 2012. "Esvaziamos tudo. Ela virou uma casca vazia, e a partir daí tivemos que substituir toda a parte hidráulica, elétrica e de engenharia por tecnologia moderna."

A reforma custou mais de £30 milhões, o equivalente a cerca de R$ 207 milhões, ao longo de 30 meses. A superestrutura voltou ao desenho original e a acomodação da tripulação foi remodelada. Os interiores ficaram a cargo de Guy Oliver, responsável também pelas salas de Estado do número 10 de Downing Street, que instalou dez telefones Bakelite originais dos anos 1930 e 122 luminárias art déco feitas sob medida. As ferragens do convés foram redesenhadas, as vigias originais recuperadas e a pintura devolvida ao branco gelo típico da década.

"É preciso ter muito respeito pelo material", diz Edmiston, que também participou da restauração do Nahlin, iate de 1930 com 91,4 metros, hoje pertencente ao inventor britânico James Dyson. "É pegar algo que é praticamente um destroço e trazer vida de volta a ele." Enquanto o Nahlin permanece de propriedade privada, o Malahne está disponível para charter pela Edmiston a partir de €155 mil por semana, cerca de R$ 916 mil.

De navio de guerra a símbolo de luxo

O Christina O, de 99 metros, começou a vida em 1943 como fragata canadense antissubmarino usada na Segunda Guerra Mundial, batizada HMCS Stormont. O magnata grego Aristóteles Onassis o comprou no início dos anos 1950 por US$ 34 mil, cerca de R$ 176 mil pela cotação atual, e teria investido outros US$ 4 milhões, hoje próximos de R$ 20,7 milhões, para transformá-lo em seu iate pessoal, batizado com o nome da filha.

Hoje a embarcação está à venda por €52 milhões, cerca de R$ 307 milhões, pela Fraser Yachts. O Talitha, de 80 metros, seguiu caminho parecido. Construído em 1929 para Russell Alger, vice-presidente da Packard Motor Car Company, serviu como canhoneira da Marinha americana durante a guerra antes de chegar às mãos da família Getty, com quem permanece.

O projeto mais recente de Edmiston é o Amazone, último iate a motor do período pré-guerra, ainda sem restauração. Menor que o Malahne, foi construído em 1936 para o adido naval belga em Londres e está atualmente esvaziado, pronto para uma reforma completa. Edmiston estima dois a três anos de trabalho. "Quem comprar provavelmente vai precisar da maior parte de £30 milhões no bolso", diz, valor próximo de R$ 207 milhões.

Custódia, não posse

Iate restauração

Corredor lateral coberto de um iate clássico, com deck de teca e portas em madeira envernizada (DIvulgação)

"Sempre me vi como um custodiante, não como um dono", diz Hugh Morrison, estrategista de comunicação e companheiro da estilista Amanda Wakeley. Ele é proprietário do Shamrock V, desafiante da América's Cup dos anos 1930 conhecido como "a rainha da classe J", encomendado pelo magnata do chá Thomas Lipton em 1929.

Morrison comprou o Shamrock V depois que a embarcação sofreu danos estruturais durante uma regata nas Bermudas em 2021. Após uma reforma completa de quatro anos, descrita por ele como "épica", o iate foi recomissionado nesta primavera europeia. "Ela passou por uma restauração até o último parafuso. Vamos velejar e competir com ela, fazendo justiça à sua herança e ao seu lugar na história da vela", diz Morrison.

Acompanhe tudo sobre:IatesLuxo

Mais de Casual

As lições de Joan Miró para uma era de excesso de imagens

A LOUIE ganha enfim uma loja física. E não é em qualquer lugar

O cachorro-quente de R$ 500 que virou atração nos EUA

Exclusivo: Color WOW, fenômeno da Geração Z e febre de Hollywood, chega ao Brasil