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As lições de Joan Miró para uma era de excesso de imagens

Neto do artista conta como ele buscava inspiração na poesia, na música e na natureza; exposição na FAAP reúne mais de 100 obras

Obra: Personnages, oiseaux, étoile (1978), em exposição no MAB FAAP (Successió Miró/ AUTVIS, Brasil, 2026/Divulgação)

Obra: Personnages, oiseaux, étoile (1978), em exposição no MAB FAAP (Successió Miró/ AUTVIS, Brasil, 2026/Divulgação)

Júlia Storch
Júlia Storch

Repórter de Casual

Publicado em 10 de agosto de 2026 às 17h07.

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Joan Miró não queria olhar para fora. Queria olhar para dentro. A ideia, repetida pelo neto Joan Punyet Miró ao falar sobre o artista espanhol, ajuda a entender a linguagem visual que transformou o catalão em um dos nomes mais reconhecidos da arte moderna. É também o fio que atravessa Miró: Mestre das Formas, exposição em cartaz no Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Alvares Penteado (MAB FAAP), em São Paulo, até 12 de outubro.

Com mais de 100 obras originais, a mostra reúne pinturas, gravuras, esculturas, tapeçarias e fotografias históricas. O conjunto vem de instituições e coleções europeias, entre elas as fundações Miró de Barcelona e Maiorca, além de acervos particulares. Dezenas das peças são inéditas no Brasil, incluindo trabalhos que nunca haviam deixado a Espanha.

Entre os destaques estão Mont-roig III (1974), Jeune fille s’évadant (1967), Centenary of the Mourlot Print Studio (1953), Album 19 (1961) e Personnages, oiseaux, étoile (1978). A exposição também reúne dez tapeçarias monumentais produzidas em parceria com Josep Royo, algumas com até dez metros de comprimento, além de oito obras da coleção particular da família de Miró.

Obra: 2 + 5 = 7, 1965, em exposição no MAB FAAP (Successió Miró/ AUTVIS, Brasil, 2026/Divulgação)

O artista por trás das obras

Para Punyet, porém, compreender o avô exige ir além das obras. “Para falar de Joan Miró, devo desnudar meu coração porque tenho o seu sangue, a sua memória”, afirmou durante um encontro em São Paulo. Ele tinha dez anos quando começou a perceber a força das cores ao lado do avô, então com 85 anos.

A relação de Miró com a cor era parte de uma busca mais ampla pela liberdade criativa. Segundo o neto, o artista procurava “limpar” sua linguagem até chegar a uma paleta marcada por cinco cores — vermelho, verde, azul, amarelo e preto — e buscava no gesto espontâneo uma forma de escapar das limitações da técnica e da razão.

“Uma vez que a máquina pode fazer um quadro, é preciso fazer como dizia Miró: tapar os olhos, olhar dentro do coração, dentro da alma”, disse Punyet. Para ele, esse princípio está sintetizado em uma obra pertencente ao Metropolitan Museum of Art, em Nova York, na qual Miró fez um gesto automático ao pintar uma tela de azul e escrever em francês “ceci est la couleur de mes rêves”, uma referência à “cor dos meus sonhos”.

A exposição do MAB FAAP organiza a produção do artista em cinco núcleos temáticos e apresenta trabalhos de diferentes momentos de sua trajetória, revelando a amplitude de uma produção que passou pela pintura, escultura, gravura, cerâmica e tapeçaria. O percurso é acompanhado por 30 fotografias raras de Joaquim Gomis, amigo próximo de Miró, que registrou momentos de seu cotidiano e processo criativo, além de oito vídeos especiais.

A disciplina fazia parte desse processo. Segundo Punyet, Miró trabalhava das 9h às 14h em seu ateliê em Maiorca, almoçava e descansava por meia hora. Depois, escrevia à mão para poetas, lia poesia e ouvia música. No fim do dia, voltava ao trabalho para exercitar o gesto. “O boxeador deve trabalhar o músculo na academia. Eu devo trabalhar a alma com a poesia, com a música e o exercício para liberar a mão da academia e liberar a cabeça do intelectualismo”, contou.

A rotina também incluía contato constante com a natureza. Para criar esculturas, Miró ia à montanha e à praia e recolhia pedras, conchas, raízes, galhos e outros elementos. A inspiração, portanto, não vinha apenas da pintura. Punyet destaca a colaboração do artista com poetas, escritores e músicos como parte essencial de sua trajetória.

A própria carreira de Miró, segundo o neto, foi marcada pela persistência. Uma exposição em Barcelona, em 1918, teria sido um fracasso. O reconhecimento começou a ganhar força anos depois, com a primeira exposição nos Estados Unidos, em Nova York, em 1930. “Na vida estamos sempre procurando as rosas e esquecemos os espinhos”, disse Punyet. “É sobre acreditar muito na sua arte, no que você é como pessoa.”

Quase um século depois de sua morte, o legado continua sendo uma questão central para a família. “Sempre falava de deixar uma obra e um legado para as crianças de amanhã”, afirmou. Para Punyet, o impacto alcançado hoje permite dizer que Miró conseguiu esse objetivo.

E, diante do excesso de imagens e estímulos digitais, o conselho atribuído pelo neto ao artista ganha uma atualidade particular: sair do celular, viajar, caminhar pela natureza e recuperar o contato direto com o mundo. “Uma vez por semana, desligar o celular e ir passear pela Amazônia, pela floresta, em contato com a natureza. Tirar o sapato, tirar a meia e caminhar em contato com a terra.”

É uma recomendação coerente com a obra de um artista que passou a vida tentando reduzir o ruído para encontrar uma linguagem própria. Em São Paulo, Miró: Mestre das Formas apresenta justamente esse percurso: mais de seis décadas de experimentação em busca de uma liberdade criativa que, para seu neto, continua sendo a principal chave para entender seu legado.

Serviço:
Ingressos MMF26.com.br
Valores: Terça a sexta-feira: R$ 50 inteira | R$ 25 meia-entrada. sábados, domingos e feriados: R$ 60 inteira | R$ 30 meia-entrada. (fechado às segundas-feiras – exceto nos dias 07/09/2026 e 12/10/2026)
Período da exposição: até 12 de outubro de 2026, das 9h às 20h (última entrada às 19h)
Localização: MAB FAAP – Rua Alagoas, 903 - Higienópolis

Acompanhe tudo sobre:ArteExposiçõesCultura

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