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O que aconteceu com a Victor Hugo, marca de bolsas desejo nos anos 90

Marca que era objeto de desejo no Brasil tem dívida de R$ 1,2 bilhão

Victor Hugo: a grife de luxo que abriu processo de falência (Shopping Mueller Curitiba/Reprodução)

Victor Hugo: a grife de luxo que abriu processo de falência (Shopping Mueller Curitiba/Reprodução)

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 19 de março de 2026 às 16h09.

Nos anos 1990, bastava reparar um pouco nos looks das pessoas em um shopping ou evento de alto padrão para perceber o monograma "VH" sendo carregado nos braços. Ter uma bolsa da Victor Hugo era, para muitas brasileiras, um sinal claro de status.

Não era para menos: a grife brasileira ascendeu rapidamente e se tornou um dos principais símbolos de luxo nacional nas décadas de 1990 e 2000, circulando entre editoriais de moda e sendo sempre avistada nos braços de socialites, atrizes, apresentadoras e mulheres de destaque na época.

No entanto, agora, a Victor Hugo enfrenta um processo de falência. A Justiça do Rio de Janeiro abriu o procedimento em fevereiro de 2026 após pedidos da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e da Procuradoria do Estado do Rio de Janeiro (PGE-RJ). A dívida fiscal chega a cerca de R$ 1,2 bilhão, segundo informações do Valor Econômico.

De feira hippie a grife de luxo

A marca nasceu no Rio de Janeiro, quando o uruguaio Victor Hugo Alves Gonzales começou a vender acessórios artesanais de porta em porta e na Feira Hippie de Ipanema, em meados dos anos 1970. Nessa época, ele já trabalhava com algumas marcas conhecidas.

Com o nome já bem estabelecido, ele decidiu montar uma pequena loja em 1975, na então Rua Montenegro — hoje rua Vinícius de Moraes. Nas prateleiras, estavam bolsas e carteiras de couro com acabamento sofisticado e design limpo. Um dos primeiros modelos vendidos, um "baú com alças", custava cerca de 300 dólares na época.

O negócio cresceu rapidamente e, em poucos anos, a marca já havia chegado na rua Oscar Freire, em São Paulo, além de shoppings e galerias de alto padrão. Na década de 1980, a Victor Hugo já contava com 12 lojas e se oficializava como uma grife de luxo "made in Brazil".

O símbolo de status dos anos 90

Foi na década de 1990 que a Victor Hugo atingiu seu ápice em meio às marcas de luxo aqui no Brasil. Seu diferencial estava no posicionamento: o grupo vendia produtos sofisticados, feitos em couro, mas com preços abaixo das grandes grifes europeias.

A estratégia funcionou. O monograma metálico "VH", inspirado no estilo das maisons internacionais, ajudava a criar a imagem premium buscada pelas consumidoras, por um preço mais acessível do que o das grifes estrangeiras.

Também é preciso lembrar que o cenário era outro. Nessa época, o comércio eletrônico praticamente não existia como hoje e comprar produtos de luxo internacionais era mais difícil. Importações envolviam custos altos, burocracia e, muitas vezes, viagens ao exterior, o que virou uma oportunidade para as marcas nacionais, como a Victor Hugo, ocuparem esse espaço de desejo.

A marca apareceu em revistas de moda, ganhou vitrines em shoppings de alto padrão e passou a circular entre celebridades. Em pouco tempo, a Victor Hugo virou uma marca desejada. Para se ter uma ideia, no auge, o grupo chegou a ter mais de 70 lojas franqueadas no Brasil e até uma unidade em Nova York.

Perdendo força

Com a virada do milênio, porém, a história começou a mudar. A partir de 2002, o grupo passou por uma série de alterações societárias e a marca foi transferida para empresas registradas no exterior — primeiro no Uruguai e depois em Belize, dois países conhecidos por abrigar empresas offshore.

Ao longo dos anos seguintes, o grupo fez dezenas de mudanças societárias. Segundo procuradorias, essas alterações acabaram dificultando a cobrança das dívidas de impostos.

Em 2019, a Justiça determinou o bloqueio de bens e pagamentos, além de proibir a venda da marca, por causa de dívidas que já ultrapassavam R$ 300 milhões. Mesmo assim, a operação continuou. Enquanto isso, o número de lojas encolheu: de mais de 70 no auge para cerca de 19.

Além das disputas fiscais, o próprio mercado de luxo também mudou, o que acabou pesando para a Victor Hugo. Nas últimas duas décadas, mais grifes internacionais passaram a disputar espaço no Brasil. Ao mesmo tempo, o consumidor ficou mais aberto a novidades, tanto em relação a marcas quanto a estilos e materiais.

A Victor Hugo, por outro lado, manteve por muito tempo a mesma proposta, focada em bolsas clássicas de couro. Para alguns analistas, mesmo com tantas mudanças, a gestão da empresa permaneceu bastante concentrada nas decisões do fundador, com menos renovação na estrutura do negócio ao longo do tempo, o que pode ter dado à marca um ar de estagnação.

Vale dizer, no entanto, que a Victor Hugo ainda ocupa um lugar particular na memória da moda local, sendo muito lembrada como uma das primeiras grifes de luxo criadas no Brasil com reconhecimento nacional e força para disputar com marcas estrangeiras.

Hoje, muitas bolsas da Victor Hugo dos anos 1990 e 2000 ainda aparecem em brechós e marketplaces. Em parte, porque carregam um pedaço desse imaginário.

Processo de falência e dívida bilionária

Em fevereiro de 2026, a Justiça do Rio abriu um processo de falência contra o grupo Victor Hugo. A dívida com impostos gira em torno de R$ 1,2 bilhão — cerca de R$ 900 milhões com o governo federal e mais de R$ 355 milhões com o Estado do Rio de Janeiro.

A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional classificou o grupo como "devedor contumaz", termo usado quando a inadimplência fiscal passa a ser recorrente e estruturada.

Mesmo com o processo em andamento, a Justiça permitiu que as lojas continuem funcionando sob nova gestão, para preservar empregos enquanto o caso é analisado.

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