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O costureiro que vestiu três papas

Apelidado de "costureiro do sagrado" pela revista Vogue, Sorcinelli ampliou sua atuação ao longo dos anos e passou a incluir perfumes e produtos para o corpo em seu negócio

Júlia Storch
Júlia Storch

Repórter de Casual

Publicado em 23 de agosto de 2026 às 16h24.

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Longe da movimentação e da grandiosidade do Vaticano, na cidade montanhosa de Santarcangelo di Romagna, na Itália, um alfaiate vestido de preto trabalha sobre um desenho ainda inacabado. Com poucos traços de lápis, Filippo Sorcinelli transforma uma ideia em uma vestimenta litúrgica — criação que ajudou a consolidar sua reputação internacional no universo dos paramentos religiosos.

No sábado, 22, o papa Leão XIV usou, durante uma missa em Rimini, cidade portuária próxima, uma casula verde e branca criada pelo estilista italiano de 51 anos.

Há 25 anos, à frente do Ateliê LAVS, especializado em vestes religiosas, Sorcinelli conhece o peso da responsabilidade de seu trabalho. Ele produziu ornamentos litúrgicos para os três últimos papas: Bento XVI, Francisco e agora Leão XIV.

"Vestir um papa é como vestir um padre. Antes de tudo, o respeito é o mesmo. Os parâmetros são os mesmos: ter no centro a preocupação com o respeito pelo papel que o padre e o papa ocupam e, portanto, por sua dignidade e como se apresentam diante do mundo", afirmou Sorcinelli à AFP.

Para o alfaiate, as normas litúrgicas que orientam a criação das peças "não são restrições, mas diretrizes, regras, pontos fixos". Ele considera a arte sacra "uma mensagem de revelação absolutamente importante".

Incenso e tecidos

Apelidado de "costureiro do sagrado" pela revista Vogue, Sorcinelli ampliou sua atuação ao longo dos anos e passou a incluir perfumes e produtos para o corpo em seu negócio.

A ligação com a fé, porém, continua sendo a principal motivação do estilista. Ela surgiu ainda na infância, na pequena igreja de Mondolfo, sua cidade natal, no leste da Itália, onde ele acompanhava a mãe durante tarefas de manutenção do templo.

Sorcinelli lembra do cheiro de incenso e dos antigos tecidos preservados na sacristia, experiências que marcaram sua trajetória.

"Eu jamais poderia fazer este trabalho se não acreditasse, se não vivesse, de algum modo, uma experiência de fé", afirmou o estilista, que também foi organista principal da catedral de Rimini e de outras igrejas da região.

Com uma equipe formada por 11 costureiras, Sorcinelli apresentou a seda verde usada na vestimenta de Leão XIV durante a celebração em Rimini. O tecido, segundo ele, tem uma tonalidade "profunda e solene", associada ao período do calendário litúrgico dedicado à esperança e à preservação da criação.

A peça recebeu aplicações em ouro e prata, além de pedras de ágata verde. Segundo o estilista, os detalhes também fazem referência ao cenário da celebração, realizada próximo ao porto de Rimini.

A arte como expressão

Na juventude, Sorcinelli conheceu Robert Prevost, então padre agostiniano, que anos depois se tornaria o papa Leão XIV. Desde então, os dois não voltaram a conversar, segundo o alfaiate.

Para criar peças destinadas ao pontífice, ele apresenta desenhos e amostras de tecido ao Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice, responsável pela organização das missas e cerimônias papais.

"O processo de criação de um paramento pontifício — neste caso específico, a casula e a mitra, ou seja, o que usa sobre o corpo e o que usa na cabeça — pode variar da simplicidade de algumas semanas até três ou quatro meses de trabalho", explicou.

Entre a alfaiataria, a perfumaria e a música, Sorcinelli afirma ainda não saber qual será o próximo capítulo de sua trajetória. Para ele, a arte continua sendo uma forma inesgotável de expressão.

"Parar significaria ter completado a própria existência, e eu ainda não acredito que seja o meu caso", declarou.

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