Um rótulo da Kullabergs Vingård, vinícola que colocou a Suécia no centro das atenções do mercado internacional de vinhos (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 23 de agosto de 2026 às 11h03.
Um vinho branco do sul da Suécia venceu, em degustação às cegas, rótulos europeus de referência. O resultado, obtido em 2024 pela iniciativa The Swedish Wine Tasting, colocou doze vinhos suecos diante de doze internacionais de estilo e preço equivalentes, avaliados por 18 especialistas. O Immelen, da Kullabergs Vingård, ficou em primeiro lugar, à frente de brancos franceses, italianos e espanhóis.
A repercussão cresceu quando o mesmo rótulo foi servido no banquete do Prêmio Nobel em Estocolmo, em dezembro de 2025, junto ao prato principal, primeira vez que um vinho sueco não espumante acompanhou a refeição central e também primeira vez que um branco assumiu esse papel, reservado a tintos. A revista britânica The Economist citou o episódio em reportagem de agosto de 2026, chamando Skåne de "Toscana nórdica".
Vista aérea da Kullabergs Vingård, no noroeste de Skåne, com os vinhedos que hoje somam 22 hectares e devem crescer ainda em 2026 (Reprodução/Visit Skane)
Os números por trás da repercussão continuam modestos. Um levantamento da PIWI International de 2024 contabilizou cerca de 150 hectares de vinhedo no país e produção anual próxima de 300 mil litros - e Skåne concentra cerca de 80% dessa produção, reunindo a maior parte dos cerca de 200 produtores com vinhedo próprio do país. Quase todas as castas plantadas, cerca de 95%, são variedades PIWI, híbridas resistentes a doenças fúngicas.
A Kullabergs Vingård opera com 22 hectares no noroeste de Skåne e prevê novos plantios em 2026. As primeiras videiras foram plantadas em 2006.
Em junho de 2026, produtores e municípios do noroeste de Skåne formaram a Terra Skåne, coalizão para dar à área uma identidade compartilhada diante do público internacional. O grupo sediou naquele mês a final global do Star Wine List of the Year, premiação voltada a cartas de vinho, reunindo sommeliers de diferentes países na região. A organização a descreve como colaboração de divulgação, sem caráter de denominação de origem.
Produtores suecos avançam desde 2024 em conversas para obter status de Indicação Geográfica Protegida junto à União Europeia, dividindo o território por paisagens já existentes. Um vinho com selo IGP precisa ter ao menos 85% das uvas provenientes da área indicada no rótulo.
O avanço da viticultura sueca está associado a mudanças no clima do país. Dados do Instituto Meteorológico e Hidrológico da Suécia mostram que a estação de crescimento das plantas é hoje cerca de três semanas mais longa do que no início do século 20, chegando a cinco semanas na região sul de Götaland, onde Skåne está localizada. O período adicional, somado à luz prolongada do verão nórdico e a noites mais frias no fim da estação, amplia o que é possível em latitudes historicamente hostis à uva.
O mesmo instituto projeta aumento na frequência de chuvas intensas, com calor antecipado elevando o risco de geadas tardias e períodos úmidos favorecendo doenças fúngicas.
A atenção da Economist e o banquete do Nobel deram a Skåne visibilidade inédita. Uma única degustação às cegas não comprova regularidade de qualidade entre safras e produtores, e os números de 2024 não indicam quanto do território plantado já está em fase madura nem a taxa real de expansão do setor.
A Terra Skåne segue como plataforma de marketing conjunto, sem regras de produção de uma denominação de origem consolidada, e a Indicação Geográfica Protegida, em andamento desde 2024, ainda não tem prazo de conclusão anunciado.